Nem só de streaming vive um músico. Já pensou em apadrinhar um artista?

  • Marta Santos Silva
  • 23 Outubro 2016

Se cada vez menos pessoas compram discos, de que vão viver os músicos? Uma nova geração de plataformas de apoio a artistas está a repensar as formas de fazer dinheiro.

“Para viver da música em Portugal mais vale ir para debaixo da ponte”, resume Débora Umbelino ao ECO, “porque de certeza que não dá para pagar a renda”. Débora pode só ter 21 anos mas sabe do que fala. Com o seu projeto musical a solo sob o nome de Surma, já pisou os palcos dos festivais Super Bock Super Rock, Milhões de Festa e Lisb-On, para nem falar das inúmeras salas de concerto pelo país fora e no estrangeiro.

Nesse tempo, aprendeu a contar tostões para comprar material e a organizar boleias para chegar aos locais dos concertos. “No início ia muitas vezes à borla”, ou seja, sem receber pela atuação nem pelas deslocações, confessa. “E ainda o faço, na verdade”. Nunca editou um CD em formato físico, e se o tivesse feito, certamente não seriam essas vendas que a ajudariam a pagar contas no final do mês. Já as reproduções das suas canções em streaming não geram lucros suficientes para encher meio depósito.

Débora Umbelino atua com o seu projeto a solo Surma
Débora Umbelino atua com o seu projeto a solo, Surma. Foto de Nuno Capela.

Mas existe uma outra via. “Vamos mudar a vida de milhões de artistas e fãs”, afirma Filipa Marinho, responsável de comunicação do Tradiio. Fundado em Portugal em 2014, o Tradiio é um serviço de streaming muito diferente do Spotify ou do YouTube.

No Tradiio, que já conta com mais de 20 mil músicos e 300 mil utilizadores, os fãs de um artista podem optar por apoiá-lo com uma remuneração mensal, e passam a ter acesso a conteúdos exclusivos — vídeos do artista a compor novas canções, demos de músicas novas ou a oportunidade de ver antecipadamente um videoclip, por exemplo. Além disso, também podem ouvir em streaming a música desse artista — como fariam noutra plataforma qualquer.

“Acreditamos que, tal como a subscrição do Spotify é importante para um amante de música, a subscrição de um artista específico pode ser revolucionária”, conta Filipa Marinho. Este sistema de financiamento tem poucos meses no Tradiio – antes disso, a plataforma funcionava com base em créditos virtuais que os fãs podiam apostar para apoiar os seus artistas favoritos, e sob esses moldes ajudou à ascensão de bandas como Átoa e artistas como Isaura.

“Os Átoa eram apenas quatro rapazes de Évora quando entraram no Tradiio. Depois de terem subido nas tabelas, ganharam o nosso desafio de outubro cujo prémio era um contrato com a Universal Music Portugal”, explica Filipa. Agora a banda tem canções em telenovelas e concertos esgotados pelo país fora.

O novo modelo, porém, é que promete mudar as regras do jogo. “Sabemos que finalmente temos um produto que faz falta na indústria da música”, afirma Filipa Marinho.

Só desde que o Tradiio iniciou este novo sistema, já há artistas a fazer dinheiro a sério. Um exemplo de sucesso é o músico nova iorquino Adam Bomb, que ganha 1692 euros mensais na plataforma portuguesa onde partilha a sua música. Outros exemplos mais modestos são por exemplo as bandas Ark Patrol e Badbrad Sinsel, que fazem 133 e 235 euros por mês, respetivamente, a partir das doações dos fãs que se comprometeram a apoiá-los.

Para Débora Umbelino, ou Surma, o Tradiio já era uma grande ajuda antes de lançar o novo formato. Com o apoio da plataforma, que aconselha ainda individualmente os artistas ao atribuir-lhes um manager que lhes dá dicas e ajuda a encontrar concertos e entrevistas, a Surma já foi ao Curto Circuito, tocou no Super Bock Super Rock e participou numa campanha para a Mini. “O Tradiio ajuda muitos artistas nessa vertente mais financeira e não apenas na divulgação da música”, conta.

“Logo depois de lançar o single Maasai, que eu pus na plataforma, passados dois dias estava no hall of fame, e a partir daí recebi imensa atenção dentro do Tradiio”, explica. Para já, Débora só faz 17 euros mensais graças aos seus fãs do Tradiio – mas é um começo. “Já conheci seis ou sete pessoas que estavam dentro dos círculos”, o grupo mais próximo de fãs do artista no Tradiio, “e que vieram aos concertos”, recorda Surma.

Tão cedo, não vai ser o Tradiio por si só que vai impedir que Débora Umbelino vá “para debaixo da ponte”, mas marca uma viragem na forma como se pensa a sustentabilidade da produção artística para o século XXI.

E não estão sozinhos. Uma plataforma norte-americana de âmbito mais aberto, chamada Patreon, já ajuda a sustentar cartoonistas, músicos, realizadores, ilustradores, escritores e produtores de podcasts, com alguns dos artistas mais populares a ganhar milhares todos os meses. Rui Unas, por exemplo, usa a plataforma para promover e financiar o seu podcast Maluco Beleza, onde dá recompensas aos apoiantes que se comprometem a dar mais dinheiro.

É certo que não é toda a gente que quer pagar uma quantia fixa todos os meses aos artistas preferidos mas, tal como sempre houve quem preferisse ouvir música na rádio e quem comprasse CDs, também sempre houve quem ia aos concertos e quem escolhia tirar o verão inteiro para seguir uma banda em digressão. Os “super fãs”, como se chamam no Tradiio, pertencem ao segundo grupo e, numa era de crescente desmaterialização da música, estão a apostar numa nova forma de mostrar apreço pela arte que os faz mais felizes.

Editado por Flávio Nunes.

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