Banco mau para o malparado? “Portugal não tem dinheiro”, diz a Mint

  • Rita Atalaia
  • 21 Julho 2017

Há um problema de 120 mil milhões na banca do sul da Europa. A Mint diz que passar o malparado para bancos maus e hedge funds pode ser a solução, mas Portugal não tem dinheiro para um bad bank.

O Governo português tem “pouca margem orçamental para financiar um ‘banco mau'” que absorva os empréstimos em incumprimento no balanço dos bancos. Este veículo pode ser a solução para estes ativos tóxicos que pesam na rentabilidade das instituições financeiras no sul da Europa: o fardo é de 120 mil milhões de euros, de acordo com a Mint Partners. O Novo Banco é que tem o maior rácio de malparado em Portugal, mas os casos mais preocupantes estão no Chipre e na Grécia.

“Com um rácio dívida/PIB de 130%, a capacidade de o Governo [português] para recapitalizar e resgatar bancos, como fez com a Caixa Geral de Depósitos (CGD) no final do ano passado, é limitado“, de acordo com um relatório da Mint obtido pelo ECO. O Executivo tem, por isso, “pouca margem orçamental” para a criação de um “banco mau”. Uma opção que já foi, aliás, afastada por António Costa, tendo sido apresentada uma solução aos bancos mas sobre a qual ainda pouco é conhecido.

Para Bill Blain e Ben Stheeman, responsável pelos mercados de capital e associado da Mint, respetivamente, alertam que o malparado é um fardo que deixa o setor bancário europeu “numa situação precária”. E que a solução passa precisamente pela transferências destes ativos tóxicos do balanço dos bancos para hedge funds e para “bancos maus” financiados com dinheiros públicos. Recentemente, a CGD vendeu uma carteira de quase 500 milhões de euros em malparado à Bain Capital.

Com um rácio dívida/PIB de 130%, a capacidade de o Governo [português] para recapitalizar e resgatar bancos, como fez com a Caixa Geral de Depósitos (CGD) no final do ano passado, é limitado.

Mint Partners

Mas os especialistas deixam um alerta: isto não é suficiente. “Têm de ser tomadas medidas para se reduzir o peso dos Non Performing Loans (NPL, ou malparado em português), mas não se deve pensar que isto é um sinal de que o problema do malparado nos países do sul da Europa ficará resolvido”, afirmam. “Os NPL não serão eliminados, apenas deslocados. Esta estratégia pode falhar, uma vez que estes empréstimos vão continuar no sistema financeiro”, notam.

Os dois responsáveis referem que a resolução deste problema “vai exigir uma mudança das políticas”, alertando que além do malparado há outros pontos fracos a resolver na banca da Zona Euro. Defendem que ainda há diferenças significativas entre as regras de resolução europeias e as medidas adotadas por cada país. “Neste cenário, a regulação bancária do Banco Central Europeu não abordará adequadamente uma crise bancária europeia.”

Bancos portugueses à lupa

Novo Banco “deve sobreviver”

O banco de transição, que resultou da resolução do Banco Espírito Santo, “tem sido apontado como um exemplo de ‘banco mau’ na Europa”. Bill Blain e Ben Stheeman referem que, se tudo correr como o esperado, “o período de transição [do Novo Banco] vai terminar em novembro, quando for vendido ao fundo norte-americano Lone Star”.

Mas deixam algumas dúvidas no ar. “A conclusão deste acordo não está totalmente garantida”, relembram. Esta operação está neste momento dependente de uma troca de dívida que vai reforçar os rácios de capital em 500 milhões de euros. Os detalhes devem estar quase a ser conhecidos pelos investidores. Por isso, esta venda é mais uma questão de “quando” e não de “se”, salientam. Assim que o Novo Banco estiver nas mãos do fundo “as perdas com os NPL já não serão suportadas pelo Novo banco e pelo novo dono [o Lone Star]. Por isso, o banco deve sobreviver”.

Montepio? “Um banco a que se deve estar atento”

A rentabilidade da instituição financeira liderada por Félix Morgado “é extremamente volátil”, refere a Mint. Porquê? “Em parte devido ao rácio elevado de NPL.” O banco avançou recentemente com um aumento de capital de 250 milhões de euros, totalmente subscrito pelo único acionista, a Associação Mutualista, que tem em marcha uma OPA sobre o Montepio.

Mas, segundo a Moody’s, este reforço, apesar de ter um impacto positivo no banco, não é suficiente para compensar os desafios que a instituição continua a enfrentar, como é o caso do malparado. O Montepio parece estar a fazer melhorias, mas “não fez progressos na redução do stock de NPL. Por este motivo, é certamente um banco a que devemos estar atentos”, remata a Mint.

BCP: Bem capitalizado, mas ainda tem de reduzir malparado

O maior banco privado português teve de receber ajuda em 2012, através de CoCos que já foram integralmente pagos. Isto depois de a crise financeira ter levado o rácio de capital CET1 a cair abaixo dos requisitos impostos pela regulação. O banco tem agora um rácio de 13% e um rácio de NPL de quase 16%. Mas ainda há mais trabalho a fazer, diz a Mint.

“O BCP parece estar bem capitalizado, mas tem de continuar a reduzir o malparado. O BCP planeia reduzir o total de NPL em mil milhões de euros anuais ao longo dos próximos anos, o que deve ser gerível considerando os progressos que tem feito. Por este motivo, e apesar de ainda apresentar um défice de capital de 1,1 mil milhões, o BCP deve recuperar”, concluem os responsáveis da Mint.

CGD: Um banco “bem protegido”

A situação financeira da CGD não tem sido a mais favorável nos últimos anos. É, por isso, um dos bancos a que se deve estar atento, referem Bill Blain e Ben Stheeman. Mas, com o plano de recapitalização, que levou a uma injeção de cinco mil milhões, e de reestruturação, com o fecho de balcões e despedimentos, é de esperar “que a CGD esteja relativamente bem protegida”. Isto tendo em conta também que a CGD “já começou a vender carteiras de malparado”.

O banco estatal vendeu recentemente 476 milhões de euros em crédito malparado ao fundo de private equity Bain Capital Credit. A carteira de créditos comprada pela Bain Capital é constituída “maioritariamente por empréstimos imobiliários bilaterais garantidos por pequenas e médias empresas e algumas grandes empresas”, explicou o fundo.

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