Cá se faz, cá se bebe. Portugal é pela primeira vez o país que mais consome vinho do Porto

Portugal ultrapassou, pela primeira vez, a França e o Reino Unido, no consumo do vinho do Porto, em 2017. Boom do turismo e valorização do que é português justificam tendência de afirmação nacional.

Numa sala do edifício neoclássico, onde está instalado, há 85 anos, o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), as rolhas da bebida licorosa mais famosa do mundo vão saltando. Este sábado, a prova dos vinhos do Porto é acompanhada por uma iguaria culinária selecionada para realçar as suas características, num ritual que se repete todos os dias 10 de cada mês.

O objetivo? Deixar na memória a data da criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, que estabeleceria o “tripé das denominações de origem” e daria início à longa história de sucesso do vinho do Porto: 10 de setembro de 1976.

Mercado nacional foi o maior consumidor de vinho do Porto em 2017.

Entre turistas curiosos e os nacionais interessados na célebre bebida, a lotação da sala está esgotada. “Temos sinais de que há um novo interesse dos portugueses no vinho do Porto”, revela ao ECO o presidente do instituto. Segundo Manuel Cabral, foi exatamente esse “amor ao que é nosso”, bem como o boom do turismo que colocaram Portugal na dianteira do consumo deste produto, no ano passado.

Em 2017, o vinho do Porto movimentou, na sua comercialização, cerca de 380 milhões de euros, tendo ficado 80% desse valor ligada à exportação. O campeão de consumo não foi, contudo, nem a tradicional França, nem o umbilical Reino Unido. No último ano, Portugal consagrou-se o primeiro mercado do setor com cerca de 74 milhões de euros, garante o líder do IVDP. “O papel do turismo é muito importante, como é evidente. No mercado nacional ou em qualquer mercado, não há distinção da nacionalidade de quem compra“, sublinha Cabral.

O vinho do Porto é genuíno, único, versátil, sedutor, também capaz de ser moderno e agradar a diferentes públicos.

Jorge Rosas

CEO da Ramos Pinto

“Tem havido uma evolução muito positiva [no consumo interno], em parte devido ao aumento exponencial do turismo em Portugal“, corrobora a tendência o CEO da Ramos Pinto. Em declarações ao ECO, Jorge Rosas revela também que a taxa de exportação da marca que comanda ronda os 50%. “O vinho do Porto é genuíno, único, versátil, sedutor”, explica Rosas o sucesso da bebida. “Também é capaz de ser moderno e agradar diferentes públicos“, reforça.

Noutra das casas que marcaram a história deste vinho licoroso, a afirmação do mercado nacional é, do mesmo modo, uma realidade consolidada. Ao ECO, João Gomes da Silva, administrador de Marcas e Mercados do grupo Sogrape, adianta que das 250 mil caixas de nove litros de Porto Ferreira produzidas, no ano passado, 200 mil foram vendidas por terras lusitanas — o que representa uma taxa de consumo interno de 80%.

França e Reino Unido são os principais destinos internacionais.

Vinho do Porto está nas bocas do mundo

Para lá das fronteiras portuguesas, o vinho do Porto também faz furor e conquista adeptos. Apesar do papel histórico do Reino Unido, foi a França a ocupar a dianteira dos destinos internacionais, no último ano, avança ao ECO o IVDP.

Em 2017, o mercado francês gastou 73 milhões de euros neste néctar clássico, mais 23 milhões do que o britânico (com 50 milhões de euros) e mais 31 milhões do que o holandês (com 42 milhões de euros). Em quarto lugar, aparecem os Estados Unidos com 33,5 milhões de euros investidos nesta bebida do norte português.

“Os nossos principais destinos são, além de Portugal, França, Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, Canadá, Alemanha“, revela o líder executivo da Ramos Pinto. Já o representante da Sogrape destaca sobretudo o Brasil, em volume, e os Estados Unidos, em valor, como os principais destinos da marca.

O Brasil foi um mercado de grande recuperação. Outro foi efetivamente a Rússia.

Manuel Cabral

Presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto

Além destes consumidores gigantes, há ainda que destacar o Brasil e a Rússia como mercados em que o vinho do Porto está claramente a ganhar terreno. “O Brasil foi um mercado de grande recuperação. Outro foi efetivamente a Rússia”, realça Manuel Cabral.

Contas feitas, diz quem sabe, que o negócio deste vinho licoroso corre “de vento e popa”. Ainda assim (e apesar de, do outro lado do oceano, Donald Trump continuar a considerá-las um mito), a preocupação com as alterações climáticas está instalada.

Vinho do Porto é uma denominação de origem.

“Todas as ameaças são oportunidades”

No Porto, a corrida às soluções para fazer face às alterações climáticas já começou… e não há só nuvens negras no horizonte dos produtores e especialistas da clássica bebida licorosa. É que “a vinha é uma planta que precisa de fazer esforço”, explica o líder do IVDP, e portanto os desafios climáticos serão sinónimo de “vinhos excelentes”. António Graça, responsável pelo departamento de Investigação e Desenvolvimento da Sogrape concorda com Cabral e acrescenta: “todas as ameaças são oportunidades”.

Não estou a dizer que estamos descansados, não. Estamos muito preocupados, por exemplo, com as questões da rega”, reforça o presidente do IVDP e avança que muito já está a ser pensado e feito para mitigar as mudanças esperadas.

[As alterações climáticas] tiraram-nos a confiança nos nossos avós. Costumava-se dizer que a agricultura era fazer o que os nossos pais e avós faziam, mas o mundo agora é radicalmente diferente.

António Graça

Responsável pela I&D da Sogrape

Na Ramos Pinto, por exemplo, Jorge Rosas avança que há a vontade de não só “selecionar as variedades [de uvas] mais resistentes ao stress térmico e hídrico”, como também de “fazer uma gestão muito mais rigorosa da rega, quer evitando perdas de água no sistema de irrigação ‘gota-a-gota’, quer regando de noite para evitar a evapotranspiração”.

Já na Sogrape, o responsável pela I&D diz que se está a trabalhar “na melhoria da previsão das condições meteorológicas e climáticas, na redução dos gases com efeito de estufa, no aumento da eficiência energética e hídrica, na adaptação às alterações sem mudar as castas tradicionais”.

A busca por soluções para que o vinho licoroso mais famoso do mundo se mantenha tal como é está a decorrer, assim, a toda a força, deixando apenas uma mágoa: “tirou-nos a confiança nos nossos avós. Costumava-se dizer que a agricultura era fazer o que os nossos pais e avós faziam, mas o mundo agora é radicalmente diferente”, diz ao ECO António Graça.

Vinho do Porto esteve, desde sempre, ligado ao Reino Unido.Pixabay

Porto e Reino Unido: ligados à nascença

Muitas foram as mãos (e de tantas nacionalidades) que fizeram o vinho do Porto chegar ao estatuto de fenómeno mundial. “Estamos a falar de uma história longa. É evidente que podemos dizer que os ingleses e os holandeses tiveram um papel muito importante. Sobretudo os primeiros, como é sabido”, conta ao ECO Manuel Cabral.

Ainda no século XVIII, foi o Reino Unido a plataforma chave de promoção e comercialização da bebida produzida na região demarcada e regulamentada mais antiga do mundo, “recebendo e exportando esses vinhos para diferentes mercados”.

Umbilicalmente ligado ao vinho do Porto, o mercado britânico manteve assim, durante décadas, na liderança do consumo desta bebida até, em 1963, ter sido ultrapassado pelos francês, que, em 2017, foi por sua vez ultrapassado pelo português.

A ligação do Porto ao Reino Unido é histórica.Pixabay

De acordo com o representante do IVDP, o papel dos ingleses na expansão do vinho do Porto é inegável, mas há que deixar uma nota para as casas que escolheram fazer negócios para lá do seu domínio.

A casa Ferreira, por exemplo, diferencia-se por ter “avançado até à comercialização”, explica João Gomes da Silva. Já a Ramos Pinto revela que, no início da sua história, há mais de 130 anos, o mercado brasileiro foi o seu principal foco, mas sublinha que o britânico foi gradualmente assumindo relevância, sobretudo no século XX.

Enquanto denominação de origem, o vinho do Porto está identificado como oriundo de um território específico e a sua produção tem de seguir um conjunto de regras particulares. Essa distinção prevê, ainda, a existência de uma entidade fiscalizadora.

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