Ovibeja é paragem obrigatória para os políticos. Porquê?

Marcelo, Costa, Rio. Nunca faltam nomes sonantes do panorama político na Ovibeja, feira de agropecuária que, a partir desta sexta, celebra 35 anos. O que faz deste evento um chamariz? O ECO foi saber.

Marcelo Rebelo de Sousa, acompanhado pelo ministro da Agricultura, durante a visita à Ovibeja 2018.NUNO VEIGA/LUSA

Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Assunção Cristas, Rui Rio. Estes são alguns dos nomes mais conhecidos que, por estes dias, andarão pela 35ª edição da Ovibeja, feira agropecuária que, este ano, assumiu como tema principal a internacionalização dos produtos agroalimentares de origem vegetal. Mas porque vão tantos políticos a essa feira? “Rotina”, dizem uns. “É um palco, um ponto de encontro”, dizem outros. “É um setor economicamente relevante”, acrescentam ainda outros.

“A Ovibeja tornou-se num fórum político, porque [todas essas figuras] e decisores acham que é interessante aquilo que se [cá] faz”, começa por explicar ao ECO o diretor-geral da Associação de Agricultores do Sul (ACOS), entidade responsável pela organização desta feira. Claudino Matos realça como fatores de atração a “diversidade de atividades” lúdicas e recreativas promovidas no evento e não deixa de notar que a contribuição da região alentejana para as exportações nacionais aumentou.

Na feira que terminará só na terça-feira, explica o responsável, os políticos visitam os expositores e as exposições, aproveitando pelo caminho para falar com alguns dos seus públicos. “É o maior certame desta zona, ganhou este estatuto. É um ponto de encontro para políticos, quer estejam no Governo, quer estejam na oposição“, garante Matos.

Outra fonte da mesma associação acrescenta também: “Os políticos não querem ser excluídos dos palcos e a Ovibeja é o palco destes dias”.

“[O Alentejo] é dos poucos casos de sucesso daquilo que andamos apregoar que é o sucesso agrícola”.

José Adelino Maltez

Politólogo

Alentejo, um caso de sucesso

Em 1989, no clássico Campo de Sonhos (Field of Dreams, no inglês original) de Phil Alden Robbinson, ficou cunhada a expressão “constrói-o e eles virão”. Quase 30 anos depois, José Adelino Maltez invoca uma ideia semelhante para explicar o poder de atração desta feira junto da classe política. O politólogo garante que o que separa este evento dos demais é a sua dimensão e que, por isso, qualquer outra iniciativa de impacto semelhante em qualquer outro setor atrairia as mesma figuras.

“Há tantos anos que fazem isto. Já é uma rotina”, diz ao ECO o especialista. Apesar de se mostrar descrente da particularidade da Ovibeja, Adelino Maltez faz questão de sublinhar: “A zona de Beja representa um sucesso em termos de investimento e fundos estruturais”.

É essa relevância da região e do setor agropecuário, bem como a dimensão da feira que, segundo o politólogo, justificam a participação de tantas caras conhecidas no evento. “[O Alentejo] é dos poucos casos de sucesso daquilo que andamos apregoar que é o sucesso agrícola”, assinala.

A presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, observa produtos regionais durante uma visita à 34ª Ovibeja, em 2017.NUNO VEIGA/LUSA

Da esquerda à direita, a visita é obrigatória

Dos partidos da esquerda aos da direita, a visita à feira Ovibeja é entrada obrigatória nas agendas de pelo menos uma das suas grandes figuras.

“A visita de Assunção Cristas já vem desde que esta era ministra e agora vai como líder do partido”, conta ao ECO fonte do CDS-PP. Segundo este representante, a passagem por este evento no Alentejo justifica-se pela proximidade da deputada ao setor agrícola. “É sinal da importância que damos à agricultura e do nosso compromisso com o mundo rural”, confirma, referindo que Cristas também marca presença em outras feiras do setor.

Do outro lado do hemiciclo, fonte próxima da direção do Bloco de Esquerda justifica, em declarações ao ECO, a rotina em causa com a “importância económica” do evento. “​Os deputados do Bloco de Esquerda contactam diariamente com a população e entidades dos vários distritos, um pouco por todo o país. A Ovibeja, pela importância que tem para a economia e para os pequenos produtores da região, não é exceção”.

O primeiro-ministro, António Costa, corta presunto durante uma visita à 34ª Ovibeja, em 2017.NUNO VEIGA/LUSA

Um passado repleto de soundbites

A 35ª edição da Ovibeja começou, esta sexta-feira, com um tributo ao seu “pai, mentor e grande dinamizador” Manuel Castro e Brito. No descerramento da placa que o homenageia, marcaram presença o Presidente da República, o ministro da Agricultura e o Comissário Europeu para a Investigação.

Até 01 de maio, data de encerramento do evento alentejano, pelo Parque de Feiras e Exposições de Beja vão passar praticamente todos os líderes partidários do país, de Catarina Martins a Assunção Cristas. “Já é tradição”, diz uma fonte do evento ao ECO, referindo que surpreendente seria notar a falta de algumas dessas figuras.

Ao longo dos últimos 35 anos, esta feira foi mesmo palco de momentos relevantes. Em 2017, por exemplo, foi nesse cenário que Luís Capoulas Santos anunciou a criação de uma equipa interministerial para acompanhar a seca em Portugal e estudar medidas de resposta aos primeiros sinais significativos que deixavam adivinhar a chegada de uma crise.

Na mesma edição desta feira, também António Costa aproveitou o momento para marcar uma forte posição: disse que avaliaria os contributos dos partidos da esquerda sobre a sustentabilidade da dívida, mas deixou claro que essa era uma questão que tinha de ser tratada no quadro europeu.

Sobre o mesmo assunto, Assunção Cristas inspirou-se no contexto e usou a expressão popular “a montanha pariu um rato” para criticar o relatório do grupo de trabalho do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda.

No ano anterior, Pedro Passos Coelho e António Costa aproveitaram ainda para cortar um pedaço de presunto, num ato iminentemente político. “Nem sempre o que se corta se perde. Às vezes corta-se e ganha-se”, disse, na ocasião, o atual primeiro-ministro. Já Passos Coelho escolheu falar sobre a redução do desemprego, atribuindo o “mérito” desse recuo ao seu Governo e não ao Executivo do antigo autarca de Lisboa.

A Ovibeja abriu esta sexta-feira as portas com lotação esgotada para celebrar 35 anos a mostrar “todo o Alentejo deste mundo”. Nesta edição, registou-se um aumento da área de exposição. Este ano, a feira quer “dar realce ao grande potencial de produção e exportação dos produtos agroalimentares de origem vegetal produzidos no Alentejo”.

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