Negócios agrícolas em paisagem florestal: a estratégia do mosaico paisagístico

  • Filipe S. Fernandes
  • 15 Novembro 2019

Três exemplos de transformação de áreas florestais em áreas agrícolas para criar descontinuidades de forma a rentabilizar o território e prevenir os incêndios.

A REN ocupa cerca de 35 mil hectares de faixas de servidão, lida com mais de 70 mil proprietários e cerca de 60% das faixas de servidão estão inseridas em espaços florestais. Tem procurado fazer nos solos florestais — que normalmente são mais pobres e difíceis de agricultar – a reflorestação com espécies autóctones como o carvalho, o medronheiro, o pinheiro manso, o sobreiro, o castanheiro ou a oliveira.

Mas os espaços florestais ficam mais resilientes se forem entrecortados por solos com ocupação agrícola e, por outro lado, os proprietários conseguem retirar um maior valor da sua atividade. O mesmo acontece para as faixas de proteção das aldeias, que podem e devem ser cultivadas, de modo a não ficarem de pousio e com a vegetação a crescer sem controlo e sem acrescentar qualquer valor. Pelo contrário, podem tornar-se uma ameaça.

A estratégia do mosaico ou das descontinuidades da floresta, em que os espaços florestais são integrados em espaços agrícolas é uma forma de tornar o território mais produtivo e aumentar a eficácia da prevenção contra incêndios.

Esta filosofia levou a REN a apoiar a transformação de áreas florestais em agrícolas em faixas de servidão. São exemplos a plantação de kiwis em Anadia e das pastagens na Benedita, que a REN apoiou através do arranque dos cepos para tornar a terra arável, sendo o restante investimento feito pelos proprietários. São as histórias destes projetos que se contam com o testemunho dos próprios empreendedores.

O bancário que planta kiwis

Paulo Silva é diretor de um banco na região de Aveiro e recebeu um terreno florestal de três hectares que o pai lhe deixou em herança, situado no concelho de Anadia, por onde passam as linhas da rede de transporte de eletricidade da REN. “Sem as linhas poderia ser transformado em armazém ou em fábrica”, refere o bancário. Contudo, do diálogo encetado com a REN, conseguiu chegar a um acordo benéfico para ambas as partes. A área ocupada pelas faixas das linhas elétricas, não lhe dava qualquer rendimento e à REN só dava despesa. Assim, esta empresa promoveu a transformação daqueles espaços em espaços agrícolas, através do arranque dos cepos.

A ideia de plantar kiwis chegou-lhe há três anos porque é uma agricultura sazonal que tem dois picos, que é a produção e a poda, e era uma boa forma de rentabilização do terreno.

Concorreu aos fundos comunitários do Portugal 2020 e, há cerca de um ano tem mais de mil plantas de kiwi. Representa um investimento de 165 a 170 mil euros em que se incluem um armazém de 100 metros quadrados, alfaias agrícolas e um trator.

“Está tudo automatizado, desde a rega à fertilização”, conta Paulo Silva, mas diz que, mesmo assim, não se pode dispensar a mão-de-obra. Tem uma pessoa que acompanha o dia-a-dia da plantação, até porque a sua via profissional é intensa e está centrada em Aveiro.

Confessa que a plantação já poderia estar mais adiantada, “mas a minha inexperiência levou a que o processo não se desenvolvesse de uma forma tão rápida, além disso, quando se conta com os fundos comunitários, tudo é mais moroso”.

As cabras roubadas ao mediador imobiliário

Em 2008, Luís Martinho trabalhava no ramo imobiliário quando se deu o início da crise financeira e do sub-prime. Na mesma altura, o pai decidiu reformar-se e alugar a propriedade agrícola de 200 hectares, que se situa numa zona de alto risco, a Serra D’Aire e Candeeiros, na Benedita, e que tinha eucaliptos. Os negócios imobiliários em baixa e a reforma do pai, levaram Luís Martinho e o irmão a tomar conta da propriedade e criarem a Benepec-Agro-Pecuária.

Quando chegou o verão, tiveram de fazer a limpeza e a remoção de mato e vegetação selvagem com trator equipado com corta mato, onde gastaram cerca de 15 mil euros. Surgiu então a ideia de ter cabras que limpavam o mato por menos dinheiro.

Luís Martinho não conhecia o ramo de pastorícia, por isso foi à zona agrária de Caldas da Rainha para saber como funcionava a atividade, o que era necessário para ter cabras, o preço do leite, a quem vender o leite, os cabritos.

“Tive uma reunião com uma engenheira que me disse para falar com os meus vizinhos que me informavam melhor, pois ela nem sabia o preço do leite, e para fazer um projeto para ter autorização da marca de exploração”, lembra Luís Martinho. Desenhou um projeto mas foi reprovado.

Como não existiam vizinhos com cabras para pedir informações na Benedita, e “como é teimoso”, pediu a licença em nome do pai para uma pequena exploração e depois foi aumentando até às 160 cabras, com sala de ordenha. “As cabras faziam a limpeza do mato melhor que o trator sem gastar energia e nem fazer despesa”, diz Luís Martinho.

Uma vez que a sua propriedade é atravessada com várias infraestruturas da REN (linhas elétricas e gasoduto), acordou com esta empresa a transformação dos espaços florestais, ocupados pelas faixas de proteção às linhas em espaços agrícolas. Aumentou assim a área de pastagem da propriedade para fazer fase ao aumento do número de cabras.

Projeto perde ambição por causa dos roubos

Mas a história que poderia ser cor-de-rosa torna-se negra, porque foram assaltados e roubaram-lhes cabeças de gado por três vezes. Na primeira vez foram 100 cabras e os equipamentos da ordenha.

Neste momento têm cerca de 50 cabeças de ovelhas na pastagem de cerca de 40 hectares. “O investimento foi grande pois com roubos e vedações, equipamentos, foram mais ou menos cerca de 40 a 50 mil euros. Apoios zero”, diz Luís Martinho, que já tinha experiência na floresta e na exploração pecuária, mas que regressou entretanto à sua atividade anterior que era a imobiliária.

O balanço desta aventura é positivo porque, segundo Luís Martinho, “a pastorícia resolve o problema da limpeza dos matos e de prevenção aos incêndios”. As cabras funcionam como “roçadeiras naturais”, ajudam a fertilizar os solos, sem grandes custos de alimentação.

Permitem ainda outros “aproveitamentos como a utilização do leite caprino em desmame de vitelos de leite, evitando a importação de leite e nos leitões após desmame evitando as vitaminas e suplementos alimentares importados, bem como a consequente venda de cabritos que se tornou também uma mais-valia”.

A má experiência deu-se no contacto com os serviços agrários, quando lhe roubaram as 100 cabras, e soube que as tinham levado para Rio Maior, no distrito de Santarém. “Fiz queixa aos serviços das Caldas e, estes, como são do distrito de Leiria informaram Santarém, e com esta trapalhada toda, as cabras não apareceram”.

Luís Martinho considera que “a solução dos combate ao fogos não é combatê-los mas sim a prevenção. Se o investimento que fazem no combate aos incêndios fosse para apoios ao pastorício, à prevenção, gastavam menos, tínhamos carne de qualidade de ovinos e caprinos que só comem mato e pasto, e não importávamos do estrangeiro, muitas vezes sem qualidade”.

Olival em baldios

Uma linha de transporte de energia atravessa os montes de Carvalhal Redondo onde fica a aldeia com o mesmo nome, e que são comuns às freguesias de Fermedo e de S. Miguel do Mato, do concelho de Arouca, prolongam-se numa extensão de mais de dois milhões de metros quadrados de superfície e a natureza do seu solo pode permitir a cultura do pinheiro, do eucalipto e, até mesmo, da oliveira e da vinha.

A limpeza da linha implica um relacionamento entre a empresa e a comissão de gestão desse território. Desses contactos entre a REN e a Comissão de Baldios de Carvalhal Redondo, surgiu a ideia de reconverter o terreno de floresta para olival, para que os baldios pudessem voltar a tirar rendimento daquela área de terreno, que tem cerca de dois hectares. Uma das vantagens deste projeto reside também de servir de tampão à progressão de um hipotético incêndio, tendo em conta a proximidade do aglomerado populacional de Carvalhal Redondo.

Em 2014 fez-se um acordo para a reconversão com a REN a garantir o arranque dos cepos, preparação do terreno e plantação das oliveiras, num investimento de 3.600 euros. Depois coube à Comissão do Baldio de Carvalhal Redondo a instalação do sistema de rega, como veio a acontecer, e que redundou num investimento de 2.200 euros. Hoje estão plantadas 1.250 oliveiras e, em breve, os Baldios de Carvalhal Redondo irão começar a recolher os frutos destes investimentos.

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