Da pandemia às contas. Estes são os cinco desafios do novo CEO da TAP

Ramiro Sequeira já assumiu as novas funções em substituição de Antonoaldo Neves. Para já, vai terminar o mandato para o triénio 2018-2020, tendo pela frente uma série de desafios de curto prazo.

Ramiro Sequeira já assumiu funções como novo CEO da TAP. Chega ao comando da companhia aérea na sequência da saída de Antonoaldo Neves após um acordo entre o Governo e os acionistas privados para a reorganização da empresa. A mudança foi precipitada pela pandemia, que teve, e continua a ter, um forte impacto nas companhias aéreas a nível global, mas este não é o único desafio que o gestor vai enfrentar.

Numa mensagem em vídeo dirigida aos colaboradores, a que o ECO teve acesso, Ramiro Sequeira elegeu como prioridade a retoma segura e sustentável da operação, mas alertou que esse processo será lento. Falou ainda do plano de reestruturação que está a ser negociado com o Governo e que terá de ter a aprovação de Bruxelas. Do tempo de antes da pandemia, o gestor vai ainda herdar uma falência técnica que dura há mais de uma década.

1. Coronavírus

Inevitavelmente, a pandemia é o desafio número um da TAP. Devido ao coronavírus, os principais mercados da TAP (como os EUA e o Brasil) estão praticamente fechados, enquanto, na Europa, a empresa está a competir com as companhias low cost. “Estamos a operar apenas a 30%, isto é uma medida consciente porque não podemos operar voos que não sejam rentáveis, que tenham pouca ocupação. Planear com antecedência não é possível”, disse Ramiro Sequeira.

O plano de retoma de operações da TAP tem vindo a ser ajustado à medida da evolução das circunstâncias, nomeadamente à dinâmica das imposições e restrições dos vários países. “Queremos recuperar a companhia e estamos numa metodologia de planificar mês a mês o que não é o típico na aviação, mas temos que o fazer porque temos que ser rentáveis”, explicou. “A prioridade número da TAP é retomar uma operação segura e sustentável”.

"Estamos a operar apenas a 30%, isto é uma medida consciente porque não podemos operar voos que não sejam rentáveis, que tenham pouca ocupação. Planear com antecedência não é possível.”

Ramiro Sequeira

CEO da TAP

2. Reestruturação

A par da retoma da atividade, a TAP está a trabalhar num plano de reestruturação no seguimento de uma injeção de capital do Estado. A BCG foi a consultora selecionada para a elaboração do plano (que se espera que esteja pronto em novembro), tendo começado no início do mês a auscultação das organizações representativas dos trabalhadores. É já certo que haverá cortes, como explicou o CEO.

O plano de reestruturação também assenta em oportunidades e essas oportunidades focaria em custos, em receita, em eficiência e em digitalização para, quando sairmos para o mercado, estarmos preparados e sermos tão ou mais eficientes que a concorrência”, disse. Neste contexto, Ramiro Sequeira apelou também à união entre os trabalhadores em torno do plano para garantir a “salvação” da TAP.

3. Bruxelas

“É vital ter o bom senso e a calma para tomar decisões que têm que ser tomadas, em conjunto com todos os trabalhadores, com os sindicatos e com todos os stakeholders. Mais do que elaborar um bom plano e mostrá-lo a Bruxelas, o que é muito importante, é poder implementá-lo e este dar resposta, nos próximos três ou quatro anos, à retoma que desejamos”, acrescentou Sequeira.

Apesar de ter posto o foco na implementação do plano, a realidade é que a TAP vai ter de receber o ok da Comissão Europeia e lidar com eventuais imposições europeias para a injeção de até 1,2 mil milhões de euros — TAP já recebeu quase 500 milhões deste valor. Em julho, o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, admitiu que as negociações com a Comissão Europeia sobre o plano de reestruturação da TAP serão “inevitavelmente duras”.

"Mais do que elaborar um bom plano e mostrá-lo a Bruxelas, o que é muito importante, é poder implementá-lo e este dar resposta, nos próximos três ou quatro anos, à retoma que desejamos.”

Ramiro Sequeira

CEO da TAP

4. Contas

Nem todos os problemas da TAP são de agora. Na última década, apenas num ano conseguiu apresentar resultados positivos: entre 2009 e 2019, a companhia aérea acumulou prejuízos de 640 milhões de euros (já deduzindo os lucros de 21,2 milhões de euros registados em 2017) e esteve sempre em falência técnica. No primeiro trimestre de 2020, o resultado líquido negativo agravou ainda mais para 395 milhões de euros, com dois eventos relacionados com a pandemia — o reconhecimento de overhedge (cobertura de risco) de jet fuel e diferenças cambiais — a pesarem mais de 250 milhões de euros.

E as perspetivas não são positivas. Apesar de não se ter referido diretamente aos prejuízos, o gestor lembrou que as previsões da procura para 2021, feita pela Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA, na sigla em inglês) e pela Eurocontrol, são de 55 a 60% da procura de 2019, no melhor dos cenários, ou seja, “uma curva de retoma muito lenta para os próximos anos”.

5. Bolsa

Ramiro Sequeira vai desempenhar funções no período remanescente do mandato em curso, que diz respeito ao triénio 2018-2020 pelo que não é certo quanto tempo irá ficar como CEO da TAP. Quer seja com ele ou com o sucessor, a companhia aérea terá nos próximos anos um outro desafio: a entrada em bolsa que está acordada no contrato de privatização. No ano passado, o prazo apontado era ainda em 2020, mas o Governo já atirou a operação para mais tarde.

“Não está previsto [para 2020]. Sei que isso está previsto no contrato de privatização. Está sujeito a um conjunto de condições (…) mas, neste momento, essas condições não estão criadas e se estiverem criadas será uma situação concertada entre todos os acionistas. E o governo não deixará de defender os seus interesses“, garantiu o secretário de Estado, Alberto Souto de Miranda, ainda em janeiro.

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