Fogos florestais na Califórnia já custam 3000 milhões às seguradoras

  • ECO Seguros
  • 5 Outubro 2020

A.M. Best admite que os danos dos fogos, só na Califórnia, atinjam o valor recorde de 2017, e sobra o efeito da má qualidade do ar nas cidades. No Brasil, fogo devora parte do Pantanal e Amazónia.

Dados oficiais divulgados no primeiro domingo de outubro indicam mais de 8200 incêndios florestais na Califórnia desde o início do ano, resultando em mais de 4 milhões de acres queimados (1,619 milhões de ha ou mais de 16 mil km2) só naquele estado norte-americano. Segundo Scott McLean, porta-voz do CAL FIRE (California Department of Forestry and Fire Protection), a área ardida este ano na Califórnia fixa um novo recorde, equivalendo a uma extensão maior do que o estado do Connecticut, “e os números ainda vão subir”, afirmou McLean.

Os incêndios registados este ano na costa Oeste dos EUA já superam 3 mil milhões de dólares em danos segurados, avançava uma semana antes a edição digital da revista Barron’s. Segundo Cathy Seifert, analista de seguros na CFRA Research, citando dados do centro nacional de coordenação de fogos (NIFC), este ano, mais de 40 mil fogos florestais, na maioria na costa Oeste, queimaram mais de 4,7 milhões de acres (1,9 milhões de hectares – ha) até 8 de setembro de 2020, resumiu a especialista da empresa que faz pesquisas e análise para fundos de investimento e outras indústrias.

Estes dados comparam com 35 mil incêndios e 4,2 milhões de acres (perto de 1,7 milhões ha ou 17 mil quilómetros quadrados) destruídos em igual período de 2019, quando os danos segurados gerados por incêndios florestais ascenderam a 1000 milhões de dólares (segundo quantificação que ainda não é definitiva), depois de dois anos consecutivos de perdas mais significativas, nomeadamente em 2017.

A A.M. Best, agência de notação de referência na indústria seguradora, assinala que, só na Califórnia, a fatura chegou aos 13 mil milhões de dólares em 2017, o ano recorde que precedeu os 12 mil milhões de dólares contabilizados para a região de Camp Fire (Califórnia), em 2018. A agência antecipa ainda que, no estado da Califórnia, o prejuízo causado pelos fogos em 2020 deverá, pelo menos, atingir o montante contabilizado em 2017, impulsionando os preços do resseguro. Segundo estima a A.M. Best, a atual época de incêndios naquele Estado pode este ano tocar os valores de 2017, em número de ocorrências e área ardida, como foi o caso dos incêndios nos complexos industriais LNU Lightning e SCU Lightning.

Entre as maiores seguradoras que operam no estado da Califórnia estão a State Farm e a Farmers Insurance. Diferentemente do que acontece com os danos provocados por furacões, em que as seguradoras conseguem minimizar gastos, evitando pagar algumas reclamações, na gestão de incêndios a margem de manobra para reduzir a fatura dos sinistros é quase nula.

Além das indemnizações às famílias, o volume de pagamentos sobe com as reclamações de seguro por interrupção de negócio em atividades que são obrigadas a encerrar por razões associadas à poluição (qualidade do ar) causada pelos fogos.

2017 foi ano recorde de fogos florestais e danos associados nos EUA

Um relatório divulgado na última semana de setembro pelo grupo Verisk, especialista global em modelação de risco, indica que a época de incêndios florestais na costa Oeste dos EUA já terá causado a destruição de 5 milhões de acres, com crescente número de mortos, residentes deslocados e milhares de propriedades destruídas nos Estados da Califórnia, Oregon e Washington. Globalmente, os incêndios florestais registados este ano no lado ocidental dos EUA queimaram uma área combinada mais extensa do que todo o Estado de Nova Jérsia.

Só na Califórnia, mais de 3,6 milhões de acres já arderam em 2020, mais do que em qualquer ano de que há registo, tendo sido destruídas mais de 7000 estruturas quando faltam ainda alguns meses para o termo da “época dos incêndios”, referia a Verisk citando dados do Departamento de Silvicultura e Proteção contra Incêndios da Califórnia (CAL FIRE), entretanto já desatualizados com os números do passado domingo (4 de outubro).

A tendência de longo prazo de aumento dos sinistros por incêndios florestais, atualmente a fixar novos recordes de ocorrências, inquieta a indústria de seguros. A série de relatórios Fire Line Risk Reports produzidos pela Verisk indicam que cerca de 4,5 milhões de propriedades nos EUA estão expostas a risco extremo de incêndios florestais, ou “infernos,” na expressão latina usada no documento apresentado em língua inglesa. Desse parque imobiliário, mais de dois milhões de estruturas estão situadas na Califórnia, onde o número de propriedades expostas ao risco de fogos florestais cresceu 2% face a 2019.

O Instituto Internacional de Seguros (I.I.I.), uma entidade norte-americana, identifica igualmente o ano 2017 como sendo ainda o mais devastador de que há registo nos EUA, em termos de incêndios florestais. Referindo estatísticas do National Interagency Fire Center, o III aponta 71499 fogos florestais (65575 em igual período de 2016), com 10 milhões de acres ardidos (5,6 milhões em 2016), números que colocam o ano 2017, com mais de 40 mil km2 queimados, como sendo o de maior área ardida face à média de 10 anos.

O Factbook de seguros do I.I.I. (Anuário de 2019, página 161 e segs.) refere também que o California Department of Insurance, organismo estatal que superintende ao setor segurador, reportou participações de sinistros a rondar 12 mil milhões de dólares relacionados com incêndios registados de outubro a dezembro de 2017, fixando este período como o mais dispendioso de que há registo. Os números referidos excluem fogos de outra natureza, como incêndios em prédios urbanos e outros originados por ignições (ou acidentes) em infraestruturas industriais em rodovias fora de áreas urbanas, os quais merecem capítulo específico na estatística do III.

Contando apenas os três maiores fogos florestais registados no Estado da Califórnia, num período alargado até final de 2017, estes eventos provocaram danos segurados superiores a 2800 milhões de dólares, cifra o instituto. A maioria dos grandes incêndios florestais na costa Oeste ocorre em regiões que anteriormente eram desabitadas e, atualmente, evidenciam crescimento habitacional acelerado, em particular em condados da Califórnia.

Nos EUA, as áreas designadas Wildland-Urban Interface (WUI) concentram cerca de 44 milhões de habitações distribuídas por dezenas de estados, segundo dados do US Forest Service. Um estudo conduzido por investigadores do departamento de Engenharia e Ciência Aplicada da Universidade de Harvard conclui que, até 2050, o número de incêndios florestais na costa Oeste dos EUA aumentará 50%, podendo duplicar para o conjunto do território dos Estados Unidos.

Outros pontos do planeta, como o Brasil e a região do Ártico (Sibéria) registam igualmente incêndios catastróficos, enquanto a Austrália está prestes a entrar na época de fogos florestais, com incidência crítica no estado da Nova Gales do Sul, onde o combate aos fogos costuma ser inglório.

Brasil: Amazónia e Pantanal com elevado número de fogos em 2020

No Brasil, a parte que lhe cabe da Amazónia, “pulmão do planeta”, regista em 2020 um dos piores anos de sempre, em termos de área ardida. De acordo com estatísticas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de janeiro até 30 de setembro de 2020, a Amazónia registou 76030 focos de incêndio, mais 14% do que em igual período de 2019.

Setembro fixou a 3ª estatística mais elevada de fogos florestais desde 2010, com 32017 focos de incêndio na Amazónia, mais 61% do que em igual mês de 2019.

Também o Pantanal, um dos mais importantes biomas do Brasil, é outra região fortemente atingida pelo fogo. Setembro contabilizou mais de 8100 fogos florestais, segundo dados do INPE, o número mais elevado para a região desde 1998, ano em que o instituto iniciou a monitorização destes eventos.

Desde início do ano até ao final de agosto (setembro é o pico da época de fogos), o Brasil perdeu 53019 km² de mata natural, combinando o total queimado na Amazónia e no Pantanal juntos, uma área equivalente a mais de 30 cidades de São Paulo. Globalmente, o Brasil já registou este ano mais de 121000 km² de área ardida, ou seja, uma área equivalente a 1,3 vezes o território de Portugal continental.

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