Airbnb multiplica por cinco a taxa cobrada aos anfitriões. Hóspedes ficam isentos

Os anfitriões inscritos no Airbnb passarão a pagar uma comissão de 15% à plataforma, em vez dos atuais 3%. Os hóspedes, por sua vez, deixarão de pagar a taxa de serviço, pagando apenas o alojamento.

Prestes a entrar para a bolsa, o Airbnb decidiu ser o mais parecido possível com a concorrência. A partir de 7 de dezembro, a plataforma vai deixar de cobrar taxa de serviço aos hóspedes, remetendo esses custos para os proprietários, que passam a pagar uma taxa de 15%. Esta decisão não está a ser bem recebida pelos anfitriões, que admitem mesmo aumentar os preços dos alojamentos para fazer face a este aumento dos custos.

“No dia 7 de dezembro anunciamos o lançamento da nova estrutura de comissão para todos os nossos anfitriões profissionais na Europa”. É assim que começa o email que está a ser enviado deste ontem pelo Airbnb aos proprietários inscritos na plataforma, e a que o ECO teve acesso. Assim, a partir daquele dia, “todas as contas de anfitriões profissionais serão atualizadas para a nova estrutura de comissão de 15%”.

No mesmo email, a plataforma explica que este aumento vai permitir aos proprietários terem “100% controlo sobre o preço final para o hóspede (sem mais taxas de serviço adicionadas pelo Airbnb) e ser mais competitivo no mercado”. Isto porque, enquanto se aumentam os custos para os anfitriões, reduzem-se os custos para os hóspedes, passando estes a pagar apenas o valor do alojamento.

Atualmente, um proprietário paga uma taxa que varia entre os 3% e os 5% (dependendo se é cobrado IVA) por cada reserva que for feita no seu alojamento, enquanto o hóspede paga a estadia e ainda uma taxa de serviço, que varia entre os 15% e os 20%. Com esta mudança, os custos que o hóspede tem (excluindo o valor da estadia) passam para os proprietários. O funcionamento do Airbnb passa, assim, a ser semelhante ao funcionamento do Booking, que cobra uma taxa de 15% aos proprietários, não cobrando valores adicionais aos hóspedes.

No mesmo email que está a ser enviado aos anfitriões, a empresa oferece a possibilidade de ser cobrada apenas uma comissão de 14% até ao final do ano, caso estes atualizem já para esta nova modalidade de preço simplificado. O ECO questionou o Airbnb para perceber as razões para esta alteração, ao que a empresa respondeu que fez esta mudança “na sequência do feedback dos anfitriões”.

“Experiências piloto em países de toda a Europa onde implementámos esta mudança mostraram um aumento significativo de reservas. Ao remover a taxa de serviço dos hóspedes, os anfitriões podem gerir o preço final que os potenciais hóspedes pagam. Os anfitriões estabelecem sempre os seus preços por noite. Alguns anfitriões optam por aumentar o seu preço para refletir a alteração da taxa para manter os mesmos ganhos. Estes anfitriões são menos propensos a ver as reservas aumentarem. Outros anfitriões acham mais fácil manter os seus preços competitivos e experimentar aumentos nas reservas”, acrescentou fonte oficial do Airbnb.

Mudança é “penalizadora” e pode levar a aumento dos preços dos alojamentos

Para Carla Costa Reis, uma das fundadoras da Associação de Alojamento Local em Portugal (ALEP) e atual gestora de um grupo de alojamento local no Facebook com mais de 70 mil membros, “para os pequenos empreendedores (empresários em nome individual sem contabilidade organizada), esta mudança vai ser altamente penalizadora pois não têm como deduzir este aumento da despesa”.

Ao ECO, a especialista adianta que “esta modalidade já existe desde 2018, mas até então era de adesão voluntária”. Ou seja, conquistava apenas os anfitriões que acreditavam que, ao suportarem mais custos, iriam atrair mais hóspedes. “É expectável que um hóspede prefira reservar um alojamento onde não tem de pagar” uma comissão a mais ao Airbnb, diz Carla Costa Reis. E esse é mesmo um dos argumentos usados pela empresa no email que tem enviado aos proprietários. “Os anfitriões que já têm a estrutura de preço simplificado têm visto um aumento de 21% nas reservas”.

Questionada se esta mudança poderá levar a um aumento dos preços dos alojamentos, a especialista responder afirmativamente. “À imagem do que os proprietários já faziam quando anunciavam no Booking: os preços eram sempre colocados mais altos para fazer face a essa despesa superior. A grande diferença/penalização aqui [com o Airbnb] para o pequeno empreendedor no regime simplificado é que passa a ter uma despesa muito maior que não pode deduzir como custo”, refere.

“Aos olhos do Airbnb somos todos vistos como ‘grandes empresas'”

Esta é uma alteração que vai acontecer apenas aos chamados “anfitriões profissionais”, ou seja, que usam softwares de gestão de reserva. Contudo, em Portugal, são muitos os proprietários que encaixam neste perfil, como explica Carla Costa Reis.

“Os softwares de gestão são ferramentas para ajudar a comunicar os dados dos hospedes ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, emitir faturas, enviar mensagens aos hóspedes, gerir calendários, etc. São ferramentas que ajudam no cumprimento das obrigações. E como em Portugal, ao contrário da maioria dos países, temos um quadro legal e fiscal muito complexo, o recurso a estes softwares é uma questão de sobrevivência, mesmo para quem tem um alojamento e o quer anunciar em mais do que uma plataforma”, explica.

“Se o anúncio não estiver ligado ao software não funciona”, continua Carla Costa Reis, exemplificando que quando um hóspede reserva determinada noite num alojamento através do Booking, “uma das funções do software é bloquear essa noite no Airbnb, para nenhum outro hóspede poder reservar a mesma noite que já está ocupada”. A especialista afirma mesmo que “quem está neste negócio não sobrevive muito tempo sem usar estas ferramentas. Ou então faz tudo de forma muito amadora, o que reduz muito o número de reservas”.

Para Carla Costa Reis, uma mudança destas não é positiva para o setor, especialmente numa altura de pandemia. “É dramático porque vem numa altura tão difícil para todos (sem receita), mas, sobretudo, porque vem no seguimento de um tratamento horrível que o Airbnb deu aos anfitriões no decorrer da pandemia”, diz.

(Notícia atualizada às 16h40 com resposta do Airbnb)

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Airbnb multiplica por cinco a taxa cobrada aos anfitriões. Hóspedes ficam isentos

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião