Portugal consegue juros ainda mais negativos em emissão de dívida de curto prazo

Portugal voltou esta quarta-feira ao mercado de dívida para uma emissão dupla de bilhetes do Tesouro a três e 11 meses, na qual obteve juros mais negativos.

Portugal voltou esta quarta-feira ao mercado de dívida para uma emissão dupla de bilhetes do Tesouro a três e 11 meses, na qual obteve os juros mais baixos de sempre. O país continua a beneficiar de melhorias nas condições de financiamento, apesar de a presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública – IGCP, Cristina Casalinho, admitir que há espaço limitado para os juros continuarem a descer.

Na maturidade mais longa, até 21 de janeiro de 2022, o IGCP colocou 625 milhões de euros, com uma yield de -0,524%. A última vez que o país se tinha financiado a 11 meses foi a 19 agosto 2020 e, na altura, conseguiu um juro de -0,473%. O valor pedido pelos investidores continua assim a recuar, mas o mínimo de sempre continua a ser do verão de 2019, quando se fixou em -0,557%.

Já no que diz respeito aos títulos a três meses, ou seja com prazo até 21 de maio de 2021, a yield conseguida foi de -0,543% pela emissão de 625 milhões de euros. No último leilão comparável, também em agosto do ano passado, tinha sido de -0,501%, enquanto o mínimo histórico mantém-se em -0,563%.

Apesar de nas últimas semanas termos assistido a uma subida nas yields de longo prazo na dívida soberana, este movimento não se fez sentir na dívida de curto prazo“, explicou Filipe Silva, diretor da gestão de ativos do Banco Carregosa, apontando o agravamento dos juros em mercado secundário devido aos receios de aceleração da inflação na retoma da economia. A dívida com maturidade benchmark, ou seja a 10 anos, negoceia em 0,188%, não tocando terreno negativo desde 11 de janeiro.

Apesar disso, o país obteve o montante máximo indicativo — 1,25 mil milhões de euros — num leilão em que a procura continuou robusta. Nos títulos a 11 meses, a procura foi 2,75 vezes superior à oferta (o que compara com 2,05 vezes no último leilão comparável), enquanto a 3 meses a procura dos investidores superou a oferta em 2,87 vezes (contra 3,93 vezes em agosto do ano passado).

“As taxas irão continuar baixas e permitir a quem emite dívida que o faça com taxas negativas. O rollover da dívida de curto prazo continua com taxas historicamente baixas e que acaba por ser uma ajuda para reduzir os custos de serviço da dívida nacional“, acredita Filipe Silva, sublinhando que a necessidade de apoios dos bancos centrais ainda está latente no mercado de crédito e que os novos confinamentos trouxeram mais incerteza sobre a velocidade da recuperação.

A presidente do IGCP, Cristina Casalinho, partilha a expectativa de que o BCE continue a dar apoio aos países, mas lembra que já há um abrandamento da aquisição de dívida. Em entrevista ao Público (acesso pago), disse esta quarta-feira que “nos últimos meses o ritmo de compras abrandou, juntando ainda as expectativas de inflação, há uma expectativa de que as taxas de juro podem não descer muito mais“. Acrescentou que o chão das taxas de juro baixas poderá já estar para trás de nós”.

O sentido de urgência que essa perspetiva dá terá sido uma das razões para Portugal ter voltado ao mercado de dívida de longo prazo. Desde o início do ano, o IGCP captou um total de 4.250 milhões de euros em obrigações do Tesouro. O país arrancou o programa de financiamento de 2021 com um leilão — no qual se financiou pela primeira vez a 10 anos com juros negativos — e, no início deste mês, realizou uma venda sindicada de três mil milhões de euros em dívida com maturidade a 30 anos.

Na estratégia para o ano, o IGCP prevê emitir 15 mil milhões de euros em Obrigações do Tesouro. Esse dinheiro irá servir não só para contribuir para as necessidades de financiamento do Estado (que totalizam 14 mil milhões de euros em 2021) como para reembolsar os investidores que têm títulos que atingem as maturidades em 2021: há 8.727 milhões de euros a devolver já em abril.

A agência liderada por Cristina Casalinho conta igualmente com 2,9 mil milhões de euros vindos da União Europeia e irá também tirar 6,7 mil milhões de euros que estão nos depósitos do Estado. As emissões de Bilhetes do Tesouro (BT) servirão apenas para reembolsar investidores de títulos antigos que atinjam as maturidades. Estes montantes poderão, no entanto, ter de ser ajustados devido à evolução da pandemia.

(Notícia atualizada às 11h20)

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