Bazuca do BCE continua a disparar, mas há pressão para acabar com as munições

Governadores estão em discórdia sobre a compra de dívida. No entanto, a reunião desta quinta-feira não deverá trazer qualquer alteração aos programas de estímulos.

Os governadores do Banco Central Europeu (BCE) estão cada vez mais divididos sobre o montante dos estímulos à economia da Zona Euro que são necessários. Após ter anunciado em março um reforço da compra de dívida, a instituição financeira não deverá ainda dar nenhum passo atrás, mas a discórdia poderá tornar-se mais evidente na reunião de política monetária desta quinta-feira, enquanto as preocupações com a economia aumentam.

O agravamento da situação pandémica e o segundo confinamento levou o BCE a anunciar que iria acelerar as aquisições mensais de ativos para um “ritmo significativamente mais elevado” no segundo trimestre. A decisão sobre o Programa de Compras de Emergência Pandémica (PEPP, na sigla em inglês) — que tem atualmente 1,85 biliões de euros — não foi unânime e criou mesmo desconforto entre os governadores mais conservadores.

O alemão Jens Weidmann alertou publicamente que as medidas de emergência “não podem persistir indefinidamente”, mas sim terminar quando a crise pandémica o permitir. Da mesma forma, o austríaco Robert Holzmann disse acreditar que o BCE pode começar a diminuir a compra líquida de dívida no âmbito do PEPP no verão. O holandês Klaas Knot concordou, referindo que é possível iniciar a redução no terceiro trimestre e terminá-las em março de 2022.

"Com a relativamente excitante reunião do BCE de março a ter um impacto bastante limitado sobre o euro, a reunião de abril do BCE deve ser um não-evento para o euro.”

Petr Krpata e Carsten Brzeski

ING

“Há uma divisão latente no BCE entre aqueles que são a favor de uma política monetária agressiva por muito tempo e aqueles que defendem uma retirada gradual. Essa divisão surgiu nas atas da reunião de 11 de março, mas ainda não veio à tona. Esse debate emergirá mais cedo ou mais tarde“, diz Franck Dixmier, global CIO fixed income da Allianz Global Investors. “Entretanto, a conjuntura económica atual permite ao BCE continuar a justificar a sua política acomodatícia e adiar o debate sobre a desconexão dos seus instrumentos”.

Nas últimas semanas, as restrições relacionadas com a pandemia levaram a uma série de revisões em baixa nas projeções económicas, incluindo da Alemanha que espera um crescimento de 3,7% (em vez dos anteriores 4,7%). Neste cenário, Dixmier espera que o banco liderado por Christine Lagarde reitere a mensagem de apoio às condições financeiras favoráveis na reunião desta quinta-feira, sem grande impacto para os mercados.

Após um momentâneo agravamento nas yields dos países da Zona Euro, os juros e os spreads de longo prazo estabilizaram, com os Bunds alemães a 10 anos próximos de -0,25% e as obrigações portuguesas em 0,415%.

"O Conselho de Governadores terá de fazer o caminho de manter a política monetária altamente acomodatícia até à recuperação para apoiar as expetativas de inflação de longo prazo.”

Nikola Dacic e Sven Jari Stehn

Goldman Sachs

Também a aceleração do euro perdeu força e assim deverá continuar. “Com a relativamente excitante reunião do BCE de março a ter um impacto bastante limitado sobre o euro (o reforço das compras do PEPP no segundo trimestre acabou por ter impacto só na dívida), a reunião de abril do BCE deve ser um não-evento para o euro“, estimam os analistas Petr Krpata e Carsten Brzeski do ING.

A acalmia poderá manter-se até junho, altura em que o BCE vai divulgar novas projeções para a economia e para a inflação na Zona Euro. Com bancos centrais e governos a inundarem o mercado com liquidez, a aceleração dos preços tem sido uma preocupação. Uma aceleração poderá obrigar o BCE a recuar nos estímulos, mas o Goldman Sachs acredita que esse não é o cenário central e até alerta para a possibilidade de a inflação continuar a falhar a meta, a longo prazo, de próxima, mas abaixo de 2%.

“O Conselho de Governadores terá de fazer o caminho de manter a política monetária altamente acomodatícia até à recuperação para apoiar as expectativas de inflação de longo prazo”, apontam Nikola Dacic e Sven Jari Stehn, sublinhando que “o Conselho de Governadores irá provavelmente precisar de ter paciência neste processo já que consideramos que os efeitos de política mais facilitadora numa economia mais forte são apenas modestos para as expectativas de inflação de longo prazo, o que destaca a importância de uma política orçamental expansionista na recuperação”.

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