Dos computadores aos automóveis, escassez de chips faz disparar os preços

As queixas são transversais a todos os setores de atividade. Para além da escassez, os empresários alertam que o aumento da procura está a levar a uma subida exponencial dos preços.

A crise mundial na escassez de chips está para durar. Do negócio dos computadores à indústria automóvel, este problema está a afetar a produção nos vários setores de atividade, numa altura em que muitas empresas têm visto a sua produção ser atrasada por causa da escassez de semicondutores. Face ao aumento da procura, o preço dos componentes está a subir de forma exponencial.

A JP Sá Couto, empresa que produziu há mais de uma década os computadores “Magalhães”, está a sentir o impacto da escassez de chips. A empresa que conta já com mais de 30 anos de existência conta ao ECO, que o impacto da falta de semicondutores continua a ser sentido e que está a “afetar muito o negócio dos computadores”.

A empresa liderada por Jorge Sá Couto adianta que, neste momento, estão em falta componentes como os LCD driver IC’s e os Codec IC’s, entre muitos outros. A empresa explica que esta escassez de chips levou a uma “subida exponencial de preços de algumas partes dos computadores, refletindo-se num aumento de preço (na ordem dos 30%) dos equipamentos”.

Todavia, mesmo com a “expressiva falta de componentes” a JP Sá Couto não teve qualquer paragem na produção e não prevê uma paragem, mas admite que se a escassez continuar, vão ter “reduções drásticas de produção a partir de terceiro trimestre do presente ano”.

A Inforlandia, uma das principais empresas de micro-informática em Portugal, também está a sentir a escassez deste tipo de componentes. O administrador Gabriel Santos afirma que “é um problema global e transversal a todas as empresas”.

A escassez de chips levou a uma “subida exponencial de preços de algumas partes dos computadores, refletindo-se num aumento de preço (na ordem dos 30%) dos equipamentos.

Jorge Sá Couto

Presidente da JP Sá Couto

Dos componentes que estão em falta, Gabriel Santos destaca que os mais graves são os chips de som e em alguns casos os processadores. Mas, nas últimas semanas tem-se vindo a verificar escassez nos componentes de memória e discos, revela. Face a escassez deste tipo de componentes, a Inforlandia está a ajustar a produção, até porque antecipa que este problema não esteja resolvido antes de meados do próximo ano.

Com uma opinião menos otimista, o presidente da gigante tecnológica americana IBM, Jim Whitehurst, revelou em declarações à BBC, que a falta de chips que tem vindo a ser sentida internacionalmente pode durar mais dois anos. Isto porque existe “um grande desfasamento” entre o momento em que “uma tecnologia é desenvolvida, em que [uma fábrica] vai para construção e em que os chips” estão produzidos.

O aumento da procura superior à oferta está a refletir-se na subida de preços. O administrador da Inforlandia explica que no caso dos ecrãs para computadores e portáteis, para além da “enorme dificuldade em conseguir-se este tipo de produto”, há “aumentos de preços entre 120% a 150%”, em comparação com o ano passado. “Todos os componentes registaram uma subida de preços, exceto os processadores das multinacionais”, conta Gabriel Santos.

Apesar da escassez de chips, a Inforlandia não prevê parar a produção e está a ajustar os produtos às dificuldades pontuais do fornecimento. “Para além da dificuldade do fornecimento de componentes, temos assistido no último ano a uma disrupção das cadeias logísticas. O próprio processo logístico tem impactos na produção de todas as empresas”, constata o administrador da Inforlandia.

A escassez de semicondutores foi potenciada pela existência de uma maior procura, por parte dos consumidores, de televisões, telemóveis e consolas, numa altura em que a pandemia os obrigou a ficar por casa.

A escassez de semicondutores está a castigar duramente o setor automóvel e a Bosch é uma das empresas que está a sofrer com este problema mundial. Como consequência disso, avançou em maio com um novo lay-off na fábrica de Braga afetando cerca de 80% dos trabalhadores. Esta terça-feira a Bosch em Braga decidiu prolongar lay-off até finais de julho. A Bosch confirmou ao ECO que para além do lay-off na unidade de Braga, não está previsto qualquer outro lay-off para as restantes unidades industriais.

O responsável da Bosch em Portugal, Carlos Ribas, destaca que este é um problema global que afeta toda a indústria, em particular a automóvel. O gestor sublinha que, neste momento, “a capacidade de produção de semicondutores está esgotada” e que não estão a receber quantidades suficientes destes componentes que permitam evitar paragens de produção.

Carlos Ribas adianta que a a “situação esta longe de ficar regularizada” e que “não têm forma de prever a resolução da escassez dos componentes eletrónicos”. No entanto, para minimizar os impactos junto dos clientes, a Bosch está em contacto permanente com fornecedores e clientes para fazer uma “gestão muito criteriosa das entregas”.

A capacidade de produção de semicondutores está esgotada, não estamos a receber quantidades suficientes destes componentes que nos permitam evitar paragens de produção.

Carlos Ribas

Responsável da Bosch em Portugal

Para resolver o problema na escassez de chips, que está a condicionar a atividade do grupo, a Bosch acaba de inaugurar em Dresden, Alemanha, uma das mais modernas fábricas de chips semicondutores do mundo. A unidade de alta tecnologia representa um investimento de cerca de mil milhões de euros. É o maior investimento individual em mais de 130 anos de história da empresa.

À semelhança da JP Sá Couto e da Inforlandia, a Bosch também é confrontada com uma subida exponencial dos preços dos chips. “Existe, neste momento, uma especulação descontrolada e o preço dos componentes está a subir de forma exponencial”, sobretudo no que diz respeito às matérias-primas importadas, afirma Carlos Ribas.

Na Continental Advanced Antenna o cenário é semelhante. Miguel Pinto conta ao ECO que estão a fazer uma “monitorização constante da situação dos componentes” de forma a conseguir garantir que não têm falhas para com os clientes. O managing diretor da Continental Advanced Antenna Portugal adianta que, “felizmente, têm conseguido garantir os envios para os clientes”.

Perante a escassez de chips, o responsável alerta que o mercado está a reagir e que se assiste a uma “subida dos preços” e que “pontualmente têm de assegurar alguns transportes especiais para garantir que têm os componentes para enviar para os clientes”.

Mas, ao contrário da Bosch, não está prevista nenhuma paragem na produção na Continental Advanced Antenna Portugal.

A nível mundial, a Tesla já anunciou que deverá pagar aos fornecedores em antecipado para garantir o acesso a semicondutores, uma forma de garantir que não fica sem o acesso a estes componentes críticos para o fabrico de veículos elétricos, noticiou o Financial Times (acesso pago).

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