Mobilidade elétrica em Portugal arrisca ficar sem bateria pelo caminho

Portugal tinha quase 4.000 postos de carregamento em 2021 e haviam 338 mil na Europa. Ritmo de expansão da rede pode ficar aquém do crescimento no número de elétricos em circulação.

Com o avanço na oferta de veículos elétricos e a subida dos preços dos combustíveis, as vendas deste tipo de automóveis têm crescido a um ritmo acentuado. No mercado de usados online, por exemplo, os elétricos vendem-se mais rapidamente do que todos os restantes automóveis, tanto que a procura já supera a oferta. No entanto, esta corrida aos carros elétricos vai pressionar as infraestruturas existentes, desencadeando também uma corrida à construção de postos de carregamento.

Em Portugal já estão disponíveis 2.546 postos de carregamento espalhados de norte a sul, segundo o portal da Rede Mobi.e, dos quais 279 (11%) são do tipo normal, 720 (28,3%) são rápidos, 1.483 (58,2%) são semirrápidos, e 64 (2,5%) ultrarrápidos. Mas serão suficientes para dar resposta à quantidade de elétricos em circulação? Estará a rede a crescer ao ritmo das necessidades? E como é que o país compara com o cenário na Europa?

Os dados

Ao nível europeu, havia cerca de 338 mil postos de carregamento públicos em 2021 (338.191), o que representou um aumento de 74% face ao ano anterior (194.010), segundo dados do European Alternative Fuels Observatory (EAFO). Em comparação, o número de BEV (veículos elétricos a bateria) ligeiros de passageiros correspondeu a pouco mais de dois milhões (2.015.484) em 2021, enquanto no ano anterior eram 1,1 milhões (1.125.485). Isto significa que, no espaço de um ano, o parque europeu de veículos totalmente elétricos aumentou 79%, contra uma subida de 74% no número de postos de carregamento.

Os números indiciam que existe uma possibilidade de a procura por postos de carregamento não acompanhar a oferta na Europa. Enquanto isso, os dados avançados pela instituição europeia sobre Portugal, que diferem dos números da Mobi.e, pintam um cenário semelhante: em 2020, o total de postos de carregamento públicos, de corrente contínua e alternada, era de 2.698, um número que subiu para 3.917 em 2021, um aumento de cerca 45%. Já o parque automóvel de BEV ligeiros de passageiros em Portugal subiu dos 36.882 em 2020 para 50.138 em 2021, uma subida de 35%.

O rácio de postos de carregamento / veículos elétricos português pode parecer positivo em comparação com a Europa. Mas o número vendas de novos BEV no país subiu de 7.849 em 2020 para 13.259 no ano seguinte, um aumento de quase 69% e um sinal de que a procura por novos veículos está a crescer bastante.

Recentemente, a consultora EY enveredou pela mesma linha de pensamento. A consultora indica que, atualmente, do total de 326 milhões de veículos na Europa, cerca de 4,8 milhões (ou 1,5%) são BEV, mas os analistas preveem que este número ascenda aos 65 milhões de veículos até 2030, e duplique para 130 milhões até 2035. No entanto, a EY acredita que o aumento de elétricos vai ser acompanhado de um crescimento nos postos de carregamento para os 65 milhões até 2035 — nove milhões de postos públicos e 56 milhões de postos residenciais.

É de notar que o número de postos de carregamento em Portugal segundo o portal Mobi.e difere do número avançado pelo EAFO. Isto deve-se ao facto de o portal europeu recolher e cruzar dados de diversas fontes oficiais e sites de terceiros, recorrendo a uma metodologia diferente. Por exemplo, um único posto pode ser contabilizado duas vezes se permitir que duas tomadas sejam usadas em simultâneo, como é o caso de alguns postos de potência mais elevada.

Ainda assim, o portal mostra uma evolução assimétrica entre o número de postos de carregamento e os BEV em circulação. Enquanto na Europa o parque automóvel de ligeiros elétricos cresce 79% anualmente, o número de postos de carregamento sobe apenas 74%. Em Portugal, e por enquanto, o número de postos cresce 45%, contra 35% no número de elétricos ligeiros. No entanto, a EY alerta que o número de elétricos vai crescer exponencialmente, uma tendência já evidente através do aumento de quase 69% no número de novos BEV em Portugal em 2021.

Distribuição de postos e divergência nos números

Também é importante notar que os postos de carregamento não estão igualmente distribuídos. Existem divergências significativas por toda a Europa, pois enquanto França, Alemanha, Itália, Holanda e Reino Unido albergam 66% do total de carregadores públicos, há outros dez países europeus sem um único carregador por cada 100 quilómetros de estrada, de acordo com a Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA).

Quanto ao número de postos de carregamento necessários, existem várias estimativas, que divergem consoante a fonte. A EY fala em 65 milhões de postos até 2035 para 130 milhões de veículos elétricos. Já o plano europeu considera um parque automóvel de BEV de 34,7 milhões em 2030 para um intervalo de postos de carregamento situado entre os 2,9 milhões e 6,8 milhões até esse ano.

Vendas de ligeiros de passageiros na Europa (em milhões)

Fonte: European Electric Vehicle Charging Infrastructure Masterplan – ACEA

Ainda ao abrigo do plano europeu, a ACEA esclarece que será exigido um investimento de 280 mil milhões de euros até 2030. Cerca de 30% serão para postos de carregamento privados, outros 30% para postos públicos, cerca de 15% em melhoramentos na rede elétrica, e 25% em energias renováveis. Isto significa que, em média, será necessário instalar até 14 mil postos de carregamento públicos semanalmente até 2030 ao nível europeu — atualmente, apenas são instalados cerca de dois mil por semana.

Regressando ao mercado português, em carta conjunta da ACEA, Organização Europeia de Consumidores (BEUC) e Federação Europeia para os Transportes e o Ambiente, é proposto um objetivo de 22.762 postos de carregamento até 2024 e de 53.695 postos até 2029; no entanto, estes objetivos visam atingir um total de três milhões de postos na Europa até 2029, o suficiente para cumprir o plano europeu, mas por pouco.

É de destacar que a revisão das metas proposta pela carta aberta da ACEA pretende garantir o objetivo europeu de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 55% até 2030. Neste sentido, para reduzir as emissões e atingir a neutralidade carbónica em 2050, será necessário um aumento de 481%, em dois anos, no número de postos de carregamento nacional (de 3.917 em 2021, para 22.762 postos de carregamento até 2024). Esta estimativa surge em linha com os dados do plano europeu, que preveem 34,7 milhões de elétricos em 2030. Caso o cenário da EY, de 65 milhões de elétricos em 2030, se materialize, o número de postos necessários será maior.

Isto também significa que, ao nível europeu, teríamos de passar dos 338 mil postos de carregamento público em 2021, para um milhão em 2024 — um aumento superior a 195%, segundo os números propostos pela ACEA. De modo a cumprir com os objetivos do Pacto Ecológico Europeu, a ACEA sublinha ainda que estas metas são o objetivo mínimo, e admite mesmo ser uma meta “ambiciosa”.

O que diz o setor

Em Portugal, a construção de postos de carregamento tem sido feita, em parte, através de parcerias, entre as quais com a EDP. Para a elétrica portuguesa, desde 2018 que a construção tem assentado em áreas da restauração, hotelaria, saúde, estacionamento, espaços comerciais, áreas de serviço e municípios. Fonte oficial da EDP partilhou com o ECO que, atualmente, a empresa “tem mais de 2.100 pontos de carregamento contratados, dos quais mais de 1.300 pontos em Portugal”, tendo como objetivo chegar aos três mil em Portugal e Espanha até ao final do ano.

Para a companhia, o grande objetivo é atingir os “40.000 pontos de carregamento públicos e privados até 2025, nas geografias onde estamos presentes”, o que abrange 14 países em quatro continentes. No entanto, à semelhança de outros setores, a disrupção das cadeias de abastecimento tem impactado o fornecimento de equipamentos. Ainda assim, a EDP viu a utilização da sua rede pública crescer em 2021, e sinaliza que 2022 já regista recordes quer na quota de mercado referente à venda de veículos elétricos (20% desde janeiro), quer nos carregamentos na rede pública.

Para a Galp a situação não é diferente, e os constrangimentos nas cadeias de fornecimento já refletem atrasos na expansão da rede Mobilidade Elétrica. “A maioria dos prazos de fornecimento mais que duplicou face à normalidade, gerando atrasos significativos na operacionalização e entrada a serviços de pontos de carga”, esclarece fonte oficial do grupo. Ainda assim, garante, “o projeto de expansão da rede” da Galp mantém-se inalterado, contando com “cerca de 1.300 pontos de carregamento ativos em Portugal”, prevendo alcançar os 10 mil pontos na Península Ibérica até 2025, acrescentou.

"A maioria dos prazos de fornecimento mais que duplicou face à normalidade, gerando atrasos significativos na operacionalização e entrada a serviços de pontos de carga”

Galp

Embora a energética portuguesa não avance o valor exato de investimento na rede elétrica, o Banco Europeu de Investimento já emprestou à Galp 41,5 milhões de euros para promover a instalação de pontos de carregamento em Portugal e Espanha, segundo o plano europeu de março de 2022.

Em linha com os dados do EAFO, a Galp considera que “a expansão da rede nacional de postos acompanha e supera a procura” em Portugal, classificando o rácio de postos de carregamento / veículos elétricos como “bastante satisfatório, face aos padrões europeus”. Ainda assim, a empresa portuguesa considera que a expansão pode ser acelerada, em particular se os intervenientes que procedem aos licenciamentos, ou disponibilização de potência elétrica, sejam “diligentes no cumprimento das suas obrigações”.

Já a Associação Automóvel de Portugal (ACAP), por sua vez, defende a criação de “um plano concreto, a médio prazo, para a expansão da rede de carregamento”, pois no seu entender as metas de redução das emissões de CO2, aprovadas pela Comissão europeia, vão “levar a um necessário aumento das vendas de veículos eletrificados”.

Para a associação, a meta estabelecida pelo Governo de 15.000 pontos de carregamento em 2025 e 36.000 pontos para 2030, representa uma decisão positiva — relembre-se que estes objetivos ficam abaixo da proposta de 22.762 postos de carregamento até 2024, e 53.695 até 2029. No entanto, a ACAP também nota uma grande assimetria a nível europeu na distribuição dos postos de carregamento, destacando que “70% destes pontos estão instalados apenas em quatro países”, sendo que Portugal não está nessa lista.

O que dizem os utilizadores

Para Henrique Sánchez, presidente da Associação de Utilizadores de Veículos Eléctricos (UVE), a rede pública de carregamento tem crescido substancialmente, mas é insuficiente face ao ritmo de crescimento das vendas. “A venda de veículos elétricos tem crescido em 100% todos os anos”, garante o presidente. Como tal, existem coisas a melhorar.

Visto que cada vez mais existem carros com capacidade de carregamento a velocidades e potências mais elevadas, “é preciso aumentar a potência dos postos de carregamento”, nomeadamente a “instalação de postos de carregamento super-rápido e ultrarrápido” detalha Sánchez. Além disto, também considera necessário um aumento da “capilaridade da rede”, especialmente no interior do país, embora destaque que Portugal é o 4.º país da Europa com mais carregadores por cada 100 quilómetros.

O representante sublinha que o carregamento rápido, geralmente nas estações de serviço, tem de ser complementado, mas também é necessário “aumentar o número de carregadores por estação”, de modo a haver uma rotação mais rápida ainda que estejam todos ocupados. Neste sentido, Sánchez destaca o que considera ser um exemplo positivo: “em Lisboa há três estações da LEVE (operado pela EMEL), que permitem o carregamento em simultâneo de 12 veículos elétricos e contam com seis carregadores de 50 kW cada”.

Por outro lado, o presidente da UVE também destaca pontos de carregamento que atualmente não podem ser usados, “ou por questões administrativas, ou por questões com o posto de transformação (PT), ou ainda com a potência”, apelando à importância de resolver estas questões. Para Sánchez, a solução pode passar pela coordenação entre a e-Redes, “que sabe onde está a potência e os PT”, e os operadores, “que sabem onde querem colocar os carregadores”, de modo que o processo seja mais fácil e menos demorado. “Há casos de carregadores instalados há mais de um ano que não estão ligados. Isto dá uma imagem negativa”, aponta.

"Há casos de carregadores instalados há mais de um ano que não estão ligados. Isto dá uma imagem negativa.”

Henrique Sánchez

Presidente da UVE

Adicionalmente, Henrique Sánchez também salienta alguns projetos-piloto nacionais que “permitem substituir o atual poste de iluminação pública por um poste LED com câmara de vigilância, antena 5G, e duas tomadas de carregamento até 22 kW cada”; em alguns casos nem é necessário substituir o candeeiro pois já existe a infraestrutura necessária lá dentro, acrescenta.

O presidente da UVE explica que “isto permite poupar na iluminação pública e, em casos mais extremos, o próprio carregamento pode ser oferecido pela autarquia”. Na base destes projetos está a ideia de reutilização do mobiliário urbano. E Sánchez refere que até mesmo os pilaretes públicos podem ter tomadas integradas.

Uma outra questão que considera menos “gravosa” diz respeito à falta de cobertura durante o carregamento, já que o presidente aponta para a falta de proteção contra a chuva e o sol na maioria dos postos. Destacando as estações da Brisa como um exemplo a seguir, Sánchez refere que uma cobertura adequada não só ajuda a preservar o equipamento, como impede a degradação de alguns monitores pontuais, cuja falta “quase impede o carregamento”.

Ainda assim, na generalidade, o presidente conclui que “estamos no bom caminho” no que toca à eletrificação. Mas “é preciso acelerar.”

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