Powell desvaloriza divisão histórica na Fed e fala de uma das “melhores reuniões” de que se lembra
Pela primeira vez desde 1993, dois membros do comité da Reserva Federal votaram contra a decisão final, neste caso de manter os juros. Rumo futuro vai depender dos dados até à reunião de setembro.
“Foi uma das melhores reuniões de que me lembro”. Foi desta forma que Jerome Powell, Presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed) descreveu a reunião de decisão sobre as taxas de juro, que ficaram esta quarta-feira inalteradas. E, se esta decisão era amplamente esperada, a surpresa e a notícia vieram não do número mas sim do sentido de voto de alguns dos 12 membros do comité. É que há mais de 30 anos que não havia uma decisão de taxas de juro em que mais de um membro deste grupo tenha votado de forma contrária à maioria.
A posição foi assumida por Michelle Bowman e Chris Waller, que defenderam que a Fed devia ter iniciado esta quarta-feira um movimento de redução das taxas de juro. Waller é apontado como alguns observadores como uma das hipóteses para substituir Powell no final do seu mandato, sendo que tanto ele como Bowman foram nomeados por Donald Trump, no seu primeiro mandato.
Recusando-se a falar especificamente dos argumentos apresentados por Bowman e Waller, Powell explicou que “o que se quer de toda a gente é uma explicação clara do que estão a pensare tivemos isso hoje. Foi uma reunião bastante boa à volta da mesa”. O Presidente da Fed, que continua a estar debaixo de fogo de Donald Trump por se ter recusado até aqui a cortar os juros, acrescentou mesmo. “foi uma das melhores reuniões de que me lembro”.
No seu habitual estilo seco e controlado, Powell não quis comentar diretamente as pressões de Donald Trump sobre a instituição, seja no que toca às taxas de juro ou às obras de remodelação da sua sede. Não deixando, no entanto, de falar de um tema também popular em Portugal, acerca da importância da independência dos bancos centrais.
Na explicação para a decisão das taxas, o Presidente da Fed centrou-se quase exclusivamente no duplo mandato da instituição: controlo da inflação e mercado de trabalho forte e estável. E explicou que o mercado de trabalho – apesar de alguns riscos que têm de ser monitorizados – está equilibrado e forte mas que a inflação está ainda um pouco acima do alvo pretendido. E que a conjugação desses dois fatores justifica a postura da Fed e o atual nível de taxas de juro, numa política que Powell descreve como “moderadamente restritiva”.
Ou seja, tal indica que neste momento a Fed considera que há mais riscos na frente da inflação do que na frente do crescimento económico, ainda que Powell tenha de certa forma desvalorizado os números do PIB conhecidos esta quarta-feira, que saíram acima do esperado.
E, dentro da inflação, a palavra-chave é “tarifas”. Powell admite que há agora um pouco mais de visibilidade acerca do nível a que as tarifas poderão assentar, mas continua com alguma incerteza sobre o seu efeito e, sobretudo, do ritmo desse efeito. “As tarifas mais altas exerceram alguma pressão sobre alguns bens mas o impacto mais lato continua incerto”, explicou, acrescentando que “as tarifas estão a fazer subir o preço de alguns bens”.
Admitindo que esse efeito se possa sentir nos próximos meses, estará aí um dos pontos de resistência em baixar os juros. Se o mercado de trabalho e a economia em geral não estão a “pedir” juros mais baixos e há riscos e incerteza sobre um provável aumento da inflação, para já a Fed prefere esperar para ver e não baixar já os juros, que poderiam aumentar esses riscos de inflação.
Daqui até à próxima reunião do comité sobre taxas de juro, em 17 de setembro, serão conhecidas duas rondas completas de estatísticas, tanto sobre inflação como sobre o mercado de trabalho, e esses dados serão certamente importantes para decidir o rumo da política da Reserva Federal. Powell escondeu bem o jogo perante as perguntas dos jornalistas, mas os analistas continuam a ver como muito provável que, nesse encontro, as taxas baixem 25 pontos base.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Powell desvaloriza divisão histórica na Fed e fala de uma das “melhores reuniões” de que se lembra
{{ noCommentsLabel }}