Mário Ferreira “interessado” em investir nos estaleiros concessionados à Lisnave
Dono da Douro Azul assume vontade de investir na reabilitação dos estaleiros da Mitrena para a construção naval. Martifer também promete avaliar caderno de encargos para a concessão a partir de 2027.
O empresário Mário Ferreira assume estar “interessado” em participar numa solução para recuperar os estaleiros navais da Mitrena, em Setúbal, e capacitá-los para a construção de navios fluviais, oceânicos e de uso militar. Concessionados à Lisnave até 31 de julho de 2027, atualmente só têm licença válida para fazer reparações.
Numa entrevista ao Público, o proprietário da Douro Azul e maior acionista da TVI/CNN Portugal defende que o Governo deve “preparar-se e juntar as pessoas certas” para avançar com a remodelação dessa infraestrutura, que “neste momento não dispõe sequer de equipamentos adequados” e precisaria de “uma grande remodelação e de muito investimento”.
“O Governo deveria juntar investidores portugueses, franceses, chineses… Deveria agarrar nos estaleiros navais da Mitrena, parcialmente desativados, para os tornar os melhores da Europa, como em tempos foram. As suas docas de águas profundas, a sua capacidade e o seu posicionamento estratégico são privilegiados. O investimento que se poderia fazer para os reconverter para a construção naval não é complexo, é organizativo e de know-how. Não é difícil”, argumenta.

Mário Ferreira reforça nesta entrevista que “claro que estaria interessado” em investir nesse projeto, lembrando que está prestes a terminar a concessão de 30 anos à Lisnave – comprada ao grupo José de Mello no ano 2000, tem como principais acionistas a Navivessel (72,87%) e a Thyssenkrupp (20%), com 2,97% nas mãos da Parpública. “O Governo já deveria estar a tomar decisões”, reclama o empresário nortenho.
“Este meu interesse na Lisnave não é ganância, é um desafio. Temos de deixar obra e posicionamento estratégico para as novas gerações de portugueses porque outros, como os espanhóis, estão a ocupar o nosso espaço. E isso é inadmissível pois Portugal não pode abdicar da sua capacidade de construção naval se tem, como se diz, como desígnio o mar”, acrescentou o líder de um grupo que fatura mais de 500 milhões de euros por ano, dos quais 480 milhões em cruzeiros no Douro, Alemanha e EUA.
Numa publicação recente no Linkedin com o título “Onde estamos 54 anos depois de Portugal ter construído a maior doca seca do Mundo?”, Mário Ferreira já tinha sinalizado esta infraestrutura como uma referência na reparação e manutenção de navios, mas que “infelizmente perdeu a capacidade e conhecimento para construir novos navios”. “Dadas as condições atuais do mundo, o potencial para novas construções seria enorme. Vamos acompanhar…”, garantia nas redes sociais.
Outro investidor nacional que poderá participar nessa joint-venture entre o setor público e o privado para a reabilitação dos estaleiros navais da Mitrena é a West Sea, detida pelo grupo Martifer e que detém a concessão dos estaleiros de Viana do Castelo – onde Mário Ferreira tem construído vários navios – e de Aveiro (Navalria). Numa declaração reproduzida pelo Jornal de Negócios, a empresa disse ter “interesse em avaliar essa oportunidade, quando for lançado o concurso da concessão e o caderno de encargos”.
Depois de o Governo ter decidido não prorrogar o contrato de concessão, como tinha sido pedido pela Lisnave, o concurso público deverá ser lançado pela Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS). Isto porque, no âmbito do plano estratégico dos portos apresentado esta semana pelo ministro Miguel Pinto Luz – prevê mais 15 concessões portuárias até 2035, com 75% do investimento a vir dos privados e prevê o “reforço das capacidades da indústria naval” com este concurso –, os estaleiros navais da Mitrena vão sair da tutela da Economia para a da Infraestruturas.
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