Travessias do Atlântico ajudam pretendentes da TAP a navegar trimestre de turbulência das tarifas

Os principais interessados na TAP estão em boa forma financeira. A guerra comercial não trouxe ventos contrários e foram mesmo a rotas atlânticas a fazerem voar os resultados do terceiro trimestre.

“Embora o segundo trimestre tenha sido novamente marcado por crises geopolíticas e incertezas económicas, confirmamos as nossas perspetivas positivas para o ano inteiro”. Cartsen Spohr estava a falar, claro, sobre a empresa que dirige – a Lufthansa – mas a mensagem poderia ter vindo dos outros dois principais interessados na privatização da TAP. Tal como a companhia alemã, também a Air France/KLM e a IAG (que inclui a Iberia e a British Airways) anunciaram no final da semana passada resultados fortes a toda linha, que aliviaram os receios dos investidores sobre o eventual impacto da turbulência causada pela guerra comercial e permitiram reafirmar confiança para o resto do ano.

A disputa alfandegária lançada por Donald Trump no início do segundo trimestre levantou preocupações sobre o outlook económico e o impacto nos voos transatlânticos, mas acabaram por ser precisamente essas rotas que ajudaram as receitas das companhias europeias. A Lufthansa, na quinta-feira, afirmou que a procura nos Estados Unidos permaneceu forte, apesar do dólar mais fraco, a IAG revelou que as receitas geradas nesse país avançaram 6% no primeiro semestre, enquanto a Air France/KLM salientou a subida de 5% nas receitas das ofertas premium nesse mercado.

As subidas das receitas, aliadas com a aplicação de diversas medidas de eficiência e um contexto de custos de combustíveis mais baixos, permitiram às três companhias não só registar aumentos nos resultados operacionais, mas também superar as previsões dos analistas.

Benjamin Smith, CEO da Air France/KLM, salientou a melhoria da margem para 8,7%, “um desempenho que foi impulsionado por um aumento de 176 milhões de euros nas receitas unitárias em toda a rede de passageiros, carga e Transavia, enquanto os custos unitários, incluindo combustível, permaneceram praticamente estáveis”.

O CEO da IAG, Luis Gallego, sublinhou que os resultados “dão-nos confiança de que iremos alcançar um bom crescimento dos lucros e progressão das margens no conjunto do ano, permitindo-nos criar valor para os nossos acionistas através do nosso dividendo sustentável e do programa de recompra de ações”.

Dívida fica menos pesada

“A nossa primeira prioridade é um balanço sólido”, explicou a IAG na sexta-feira, vincando que meta é ficar abaixo de 1,8 vezes de alavancagem líquida (ou seja, o rácio da dívida líquida face ao EBITDA) ao longo do ciclo. “Terminámos 2024 com uma alavancagem de 1,1 vezes e, em 30 de junho de 2025, ela melhorou ainda mais, para 0,7 vezes e a nossa dívida líquida em 30 de junho era de 5.459 milhões de euros”.

As restantes interessadas na TAP têm maior alavancagem, mas também conseguiram reduzir o rácio no semestre que terminou a 30 de junho. A Air France/KLM cortou para 1,5 vezes de 1,7, enquanto a Lufthansa desceu para 1,7 vezes, de 2 vezes.

Incerteza ainda não terminou

O trimestre satisfatório permitiu aos três grupos reafirmar as metas para o final do ano, mas sem deixarem de alerta que a incerteza vai continuar. A Lufthansa especificou os riscos: “as tarifas podem agravar as tensões comerciais entre os EUA e os principais parceiros comerciais, como a China e a UE, o que pode levar a um abrandamento económico”.

“A situação geral pode afetar negativamente a procura dos clientes, particularmente nas ligações para a América do Norte, a segunda região de tráfego mais importante do Grupo Lufthansa”, adiantou.

Por outro lado, Benjamin Smith, da Air France-KLM mostrou-se particularmente “satisfeito que o setor aeroespacial pareça estar isento” das taxas aduaneiras de 15% às importações norte-americanas, até porque tem compras no ‘carrinho’ da fabricante Boeing, do estado da Virgínia.

“O que foi realmente importante foi que as aeronaves, os motores e o aeroespacial não foram afetados – parece ser esse o caso. Temos alguns aviões encomendados, que ainda serão entregues pela Boeing, e isso poderia gerar custos adicionais. Estamos satisfeitos que o setor aeroespacial pareça estar isento”, frisou o gestor, em conferência de imprensa.

Avaliação de termos e de risco

Os três maiores grupos de aviação na Europa reiteraram o interesse em comprar uma participação na TAP, mas realçaram que vão analisar as condições.

No início de julho, o Executivo de Luís Montenegro avançou com o processo de privatização da TAP até 49,9% do capital. A decisão “incorpora a abertura ao capital de um investidor ou mais até 44,9% e 5% aos trabalhadores”, segundo o primeiro-ministro, que garantiu ainda que o processo salvaguarda o hub de Lisboa e que caso não sejam atingidos os objetivos do Governo, o processo pode ser suspenso sem qualquer indemnização.

Na passada sexta-feira, a fonte oficial da IAG afirmou que “se os termos forem adequados, acreditamos que a TAP poderá ter sucesso enquanto parte do modelo distintivo e comprovado da IAG”.

Esta quinta-feira, a Air France-KLM reafirmou o interesse em adquirir uma participação na TAP, garantiu que continua “a estudar” essa oportunidade, mas explicou que será sempre uma “decisão de negócio” – e caso a empresa franco-neerlandesa encontre “muito risco” nem se lança na corrida.

No mesmo dia, Carsten Spohr, CEO da Lufthansa, disse que a TAP continua a ser “uma opção interessante” para a companhia aérea alemã, mas esclareceu que não tem pressa no processo, pois esta focada na integração da ITA, companhia italiana na qual a Lufthansa adquiriu uma participação de 41% no ano passado.

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