CaetanoBus faz aliança com gigante chinesa para fabricar autocarros urbanos
Acionistas voltam a injetar dinheiro na CaetanoBus, que recebe apoio do Banco de Fomento e despede 43 pessoas em Gaia. Subcontrata produção e faz aliança nos autocarros urbanos com gigante da China.
Se não os podes vencer, junta-te a eles. Com a entrada em força dos fabricantes chineses de autocarros elétricos no segmento urbano na Europa, após a quebra das anteriores barreiras à entrada devido aos requisitos de homologação dos motores de combustão, as empresas europeias do setor estão a unir-se aos operadores asiáticos. Foi o que fez a portuguesa CaetanoBus, que avançou com uma “aliança com um parceiro de subcontratação de produção para o segmento dos autocarros urbanos”.
No último relatório e contas da casa-mãe, o grupo de Vila Nova de Gaia salienta que, a par desta maior permissividade de entrada também no mercado português, os produtos de zero emissões oriundos da China apresentam “vantagens competitivas que vão além do preço, incluindo funcionalidades inovadoras, qualidade, disponibilidade e uma rede de assistência cada vez mais madura e abrangente na Europa”.
Ora, face à “concorrência cada vez mais feroz” dos OEM [Original Equipment Manufacturers] chineses, que fabricam componentes ou produtos que são integrados nos produtos finais de outra empresa, a empresa que reclama ser a maior fabricante de carroçarias e autocarros em Portugal diz que não lhe restou “alternativa senão adotar uma estratégia de alianças, que favoreça a partilha de custos e de investimentos e o desenvolvimento de novas tecnologias”.
A escolhida foi a CRRC, com sede em Pequim e a maior fabricante mundial de material circulante, incluindo autocarros, comboios e componentes, que se tornou conhecida em Portugal com o fornecimento dos novos veículos para o Metro do Porto. E foi já com a nova geração de autocarros elétricos que utilizam “componentes e tecnologia de última geração extremamente fiáveis da CRRC” que a CaetanoBus venceu o último concurso da STCP para a adjudicação de 30 unidades por 11,6 milhões de euros, anunciada na semana passada pela transportadora.

Questionada pelo ECO sobre a produção que passou a ser subcontratada na China, assim como o impacto dessa decisão e da alteração do modelo de negócio nas operações em Portugal, incluindo na perda de postos de trabalho, a administração da CaetanoBus, liderada por Patrícia Vasconcelos, recusou “prestar declarações adicionais além da informação já partilhada no relatório”.
Nesse documento, a empresa detida pela Toyota Caetano Portugal (TCP) e pelos japoneses da Mitsui Group alude a um “processo de reestruturação interna, que implica a redução da atual estrutura de pessoal, com vista à adequação dos recursos às necessidades de produção, à melhoria da produtividade e à diminuição dos custos”. Fechou uma linha de autocarros urbanos e concentrou a produção de modelos de aeroporto e turismo na unidade gaiense, tendo transferido os acabamentos finais e o controlo de qualidade do segmento urbano para Ovar.
Fundada em 2002 através de uma parceria com a Daimler-Chrysler — o grupo português ficou com 100% do negócio em 2010, quando adquiriu a quota de 26% aos alemães –, a divisão da TCP especializada em veículos pesados para o transporte coletivo avançou nos últimos meses com um despedimento coletivo.
Segundo disse ao ECO o dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras – SITE Norte, Miguel Ângelo, acabou por abranger 42 trabalhadores, depois de três dos inicialmente incluídos neste processo terem sido realocados para outras funções. Entre Gaia e Ovar, calcula que o efetivo da empresa rondará atualmente os 600 trabalhadores.
“Um grupo importante como a Salvador Caetano e com responsabilidades na própria associação patronal do setor tinha condições para não avançar com este processo e demos exemplos concretos de mais pessoas que podiam ocupar outros postos de trabalho com a devida formação. Infelizmente, em Portugal é fácil e barato fazerem-se despedimentos coletivos. (…) Foi também uma forma de mostrar ao acionista [japonês] que está a tomar medidas para inverter os resultados negativos”, critica o dirigente sindical.
Infelizmente, em Portugal é fácil e barato fazerem-se despedimentos coletivos. (…) Foi também uma forma de mostrar ao acionista [japonês] que está a tomar medidas para inverter os resultados negativos.
Com uma participação a rondar os 38%, segundo os últimos dados disponíveis, o conglomerado com sede em Tóquio entrou na empresa no final de 2017, através da compra de uma participação inicial de 15%, justificada na altura pela aposta na mobilidade elétrica. Voltou no último exercício a ser chamado a injetar mais dinheiro, prosseguindo os aportes de capital que já tinham sido realizados pelos acionistas para contrariar os “impactos das adversidades” sentidas pela fabricante, que agora os descreve como um “reforço do seu compromisso com a continuidade da empresa”.
Em dezembro aconteceu um novo aumento de capital de 7,6 milhões de euros por parte da Mitsui, “como resultado de conversão em prestações suplementares de um contrato de suprimentos pelo mesmo montante ocorrido em 2023”, conta no relatório anual da empresa. Ali contabiliza que “entre 2021 e 2023, os acionistas injetaram 37,4 milhões de euros no capital da CaetanoBus, totalizando em 2024 o montante de 45 milhões de euros”.

Já em abril deste ano, o Banco Português de Fomento (BPF) confirmou ter investido 9,94 milhões de euros na CaetanoBus através do Programa de Coinvestimento Deal-by-Deal. Esta operação contou com a participação da Setlima Investimentos, que reforçou a ronda com 4,26 milhões, elevando assim para 14,2 milhões de euros o investimento total na companhia.
A instituição liderada por Gonçalo Regalado defendeu que este apoio no âmbito do Fundo de Capitalização e Resiliência (FdCR) do PRR vai permitir à CaetanoBus “adaptar as suas linhas de produção às exigências operacionais de novos produtos, em particular a nova geração de autocarros zero emissões, promovendo maior eficiência, crescimento e expansão da sua atividade”.
Dos aeroportos americanos às estradas inglesas
Em 2024, o volume de negócios da CaetanoBus ascendeu a 107 milhões de euros, uma redução ligeira (-1,1%) face ao ano anterior. Vendeu um total de 371 unidades, mais 5% do que em 2023, com destaque para o crescimento no segmento de aeroporto (203) e para a estabilização das vendas do modelo Levante para a subsidiária no Reino Unido (106). No segmento dos urbanos, embora tenha ficado “aquém das metas mais ambiciosas”, diz ter consolidado “os alicerces” em Portugal, Espanha, França e Alemanha, e estreou-se na Áustria, Finlândia e Hungria.
Fora de Portugal, a CaetanoBus tem também uma subsidiária (Cobus Industries) com sede na Alemanha. Instalada em Wiesbaden, fundada em 1983 e atualmente controlada pela empresa portuguesa (59,18%) e pela Daimler Truck AG, está especializada na venda e assistência técnica de autocarros de aeroporto. Não tem produção própria, adquirindo chassis à Daimler Busses e recorrendo à empresa portuguesa para a produção das respetivas carroçarias e montagem.
A principal novidade prende-se com a constituição de uma participada nos EUA. Registada em Delaware, visa replicar a atividade naquele mercado e possibilita a participação em concursos no país e a comercialização direta da atual linha de produtos no mercado. Além da “ausência de competidores asiáticos”, vê como oportunidade no país liderado por Donald Trump o aumento do número de autocarros de circulação de passageiros nos aeroportos dos EUA como complemento às “mangas”.
Ainda assim, lê-se no relatório, o aumento do tráfego aéreo depois da Covid “ainda não se refletiu em vendas de novos autocarros” para a Cobus. Por um lado, os clientes continuam a limitar os investimentos devido às perdas sofridas durante a pandemia. Por outro, as frotas ainda estão aquém do desgaste esperado em termos de vida útil, resultado da paralisação da atividade nesse período.
Outra preocupação é a “forte concorrência de três fabricantes chineses e um europeu que fabrica na China”. “A Cobus perdeu mercados na Europa e na Ásia para esses concorrentes e os projetos ganhos foram-no à custa de preços mais baixos”, expõe.

Já a subsidiária criada em 1989 e que detém a 100% para a comercialização e serviços de pós-venda de autocarros no Reino Unido acabou por apoiar a Cobus na venda de 13 autocarros para o aeroporto de Manchester, tendo fechado o ano com um total de 117 unidades vendidas e uma faturação de 54 milhões de euros.
O contrato com a National Express (NE) foi renovado para o período de 2025 a 2027, mas a quantidade mínima de encomendas por ano é menor face aos contratos anteriores. A operadora rodoviária decidiu aumentar de cinco para sete anos o tempo de vida útil de parte da frota.
Em paralelo ao negócio diesel, a Caetano UK iniciou o desenvolvimento do modelo de turismo zero emissões, elétrico a baterias, em parceira com um fabricante europeu. Espera disponibilizar já no final deste ano o protótipo para testes com a National Express, que estima um aumento da rede nos próximos dois anos, e com outros operadores no país. Promete um “produto pioneiro e ainda sem oferta de fabricantes europeus” e prevê o início das vendas deste modelo a partir de 2026.
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