58% das equipas do futebol português têm acionistas estrangeiros. Talento e formação atraem investimento
As duas ligas profissionais do futebol português contam com 19 equipas cujas SAD têm acionistas estrangeiros. “Descoberta de talento” e “modelo formador” que serve de ‘trampolim’ atraem investidores.
A I e a II Liga portuguesas de futebol contam com 19 equipas cujas SAD têm acionistas estrangeiros, 12 no principal campeonato e sete no escalão secundário, segundo contabilizou a Lusa a partir de dados recolhidos e tratados.
Esse número corresponde a 57,6% dos 33 emblemas que integram a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) na época 2025/26, num panorama em que os investidores estrangeiros detêm a maioria do capital em 15 casos e uma posição minoritária em quatro.
Entre as equipas da I Liga, a venda de 70% da SAD do Moreirense ao fundo norte-americano Black Knight Football Club, proprietário do Bournemouth, da Liga inglesa, aprovada em 31 de maio de 2025 pelos sócios do clube minhoto e formalizada em 18 de junho, é a mais recente aquisição maioritária de capital por uma entidade estrangeira, fenómeno já em curso há 12 anos.

Em 30 de maio de 2013, os sócios do Portimonense aprovaram uma SAD em que o clube reservava 30% do capital, com a For Gool Company, empresa sediada no Reino Unido, liderada pelo brasileiro Theodoro Fonseca, a deter hoje 85,88% das ações dos algarvios, que militam na II Liga.
Em 29 de junho de 2018, o Famalicão ainda competia no segundo escalão quando vendeu 51% da SAD ao Quantum Pacific, grupo que tem o israelita Idan Ofer como acionista maioritário e que detém hoje 85% do capital, com os minhotos no campeonato principal.
Já o Globalon Football Holdings, do empresário norte-americano David Blitzer, controla a SAD do Estoril Praia desde 2019, numa operação que se tornou oficial em 24 de julho de 2019, e detém agora 92,3% das ações.
A SAD do Santa Clara é presidida pelo empresário brasileiro Bruno Vicintin, detentor de 55,8% das ações desde julho de 2022, enquanto o Rio Ave constituiu uma SAD em 15 de junho de 2024, com 80% do capital na posse do grego Evangelos Marinakis, dono do Olympiacos e do Nottingham Forest.
Constituída como sucessora da Vilafranquense SAD, no início da época 2023/24, a SAD do AVS tem como acionista único o brasileiro Rubens Parreira, o também presidente da sociedade que tutela a equipa da I Liga portuguesa.
No Tondela, emblema recém-promovido à elite após sagrar-se campeão da II Liga em 2024/25, os sócios aprovaram, em 17 de fevereiro de 2025, a venda da maioria da SAD ao grupo espanhol Elite Gestión y Administración.
Nesse mesmo dia, o Alverca, o outro emblema regressado à I Liga, confirmou que o empresário brasileiro Ricardo Vicintin vendeu “a participação qualificada na sociedade anónima a um grupo de investidores espanhóis e brasileiros”, com ligações a Vinicius Júnior, jogador do Real Madrid, por um valor até 10 milhões de euros (ME).
Entre as sociedades com participação minoritária, o Sporting conta com a Holdimo, empresa sediada em Portugal com o angolano Álvaro Sobrinho como acionista maioritário, que detém 9,9% das ações desde fevereiro de 2024.
No Benfica, o grupo Lenore Sports Partners, fundado pelos norte-americanos Jean-Marc Chapus e Elliot Holton Hayes adquiriu 5,24% da SAD em 12 de maio de 2025.
A Qatar Sports Investments, proprietária do Paris Saint-Germain, comunicou a aquisição de 21,67% da SAD do Sporting de Braga em outubro de 2022 e detém agora 29,6% do capital.

No vizinho Vitória de Guimarães, o V Sports, fundo detido pelo egípcio Nassef Sawiris e pelo norte-americano Wesley Edens, que é proprietário do Aston Villa, é acionista da SAD vimaranense desde março de 2023, com uma participação que diminuiu de 46 para 29%.
Além do Portimonense, o investimento estrangeiro abrange o Feirense, o Académico de Viseu, a União de Leiria, o Vizela, a Oliveirense e o Penafiel, que confirmou a 1 de julho a venda de 90% do capital à Iberian Football Venture, participada pelo dono do Deportivo da Corunha, Juan Carlos Escotet.
O grupo nigeriano Tavistock detém 70% da SAD do Feirense após uma operação aprovada pelos sócios ‘fogaceiros’, em 25 de julho de 2015, e a empresa alemã Hobra é maioritária na SAD viseense desde 13 de agosto de 2021, detendo hoje 90% das ações.
O empresário britânico Navdeep Singh detém 90% da SAD da União de Leiria desde 2022, ano em que a Efkarpia Trades and Investment Limited, com sede em Hong Kong, adquiriu 80% do capital em Vizela.
A SAD da Oliveirense tem dois acionistas japoneses: o grupo Onodera Holdings, que adquiriu, em novembro de 2022, 52,5% do capital social ao empresário Akihiro Kin, agora detentor de 17,5%.
A expansão desse investimento está no ‘horizonte’ da II Liga, após a SAD do Leixões anunciar “um princípio de acordo” para o grupo norte-americano Aliya Capital Partners se tornar maioritário, em 04 de julho de 2025, e os sócios do Marítimo terem aprovado a venda de 40% da SAD ao grupo brasileiro REVEE, por 15 ME, em 18 de julho de 2025.
Pese a associação ao norte-americano Robert Platek, do grupo MSD Capital, o Casa Pia compete na I Liga enquanto sociedade desportiva unipessoal por quotas (SDUQ), modelo em que o clube fundador detém todo o capital social, vedado à entrada de terceiros sem a transformação em SAD, segundo a legislação portuguesa.
“Descoberta de talento” e “modelo formador” atraem investidores
A Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) considera que a “descoberta de talento” e o “modelo formador”, que serve de ‘trampolim’ para os jogadores, são algumas das causas para o investimento estrangeiro na I e II ligas.
Em resposta a um conjunto de questões enviadas pela Lusa, o organismo realça que Portugal é “um país reconhecido pela formação de jogadores com elevado valor de mercado”, numa altura em que as sociedades anónimas desportivas (SAD) de 19 dos 33 emblemas da LPFP têm estruturas acionistas com capital estrangeiro.
“Entre fatores internos, há a descoberta de talento. Portugal é reconhecido pela formação de jogadores com elevado valor de mercado. Permite-se a inscrição de muitos estrangeiros e a criação de várias equipas de desenvolvimento, ampliando oportunidades de stock de atletas”, lê-se, numa das respostas.
A Liga de clubes realça também que os mercados latino-americano e africano “utilizam Portugal como porta de entrada na Europa”, pelo “modelo formador” do seu futebol e pela “adaptação cultural e linguística”, o que pode suscitar o possível efeito de ‘trampolim’ para campeonatos mais valiosos.

A aposta externa reflete ainda uma tendência global do futebol para “a consolidação de redes de clubes”, com a LPFP a vincar que, em 2012, havia 40 clubes num regime de multipropriedade e, em 2022, esse número era de 180, a partir de um relatório da UEFA.
O regime de multipropriedade no futebol luso abrange exemplos como o do Famalicão, em que o grupo Quantum Pacific detém 85% da SAD e é acionista minoritário do Atlético de Madrid, ou o do Rio Ave, em que 80% da SAD pertence a uma empresa do grego Evangelos Marinakis, dono dos gregos do Olympiacos e dos ingleses do Nottingham Forest.
A instituição presidida por Reinaldo Teixeira vinca que as redes de clubes desencadeiam partilha de informação quanto a métodos de ‘scouting’ ou a contactos internacionais, o que pode contribuir para aumentar a visibilidade do futebol português e criar “sinergias de mercado”.
A procura de “mercados menores com elevado potencial de valorização desportiva e financeira” de “ativos subvalorizados” também atrai investidores, refere o organismo desportivo à Lusa.
O ingresso de capitais internacionais, acrescenta a LPFP, pode ainda “fomentar a adoção de melhores práticas de governação corporativa”, refletida na contratação de gestores especializados ou na criação de departamentos de compliance e risco, que ajustem o funcionamento das SAD às normas a cumprir.
Para o organismo, a comercialização centralizada de direitos audiovisuais, com entrada em vigor prevista para a época 2028/29, promete “receitas mais estáveis e repartidas de forma equitativa entre os clubes”, circunstância que pode aumentar a atratividade do mercado português.
“Este ambiente mais previsível e sustentável torna o mercado português ainda mais atraente para investidores, pelo aumento de receita garantida e pela redução das disparidades financeiras, podendo impulsionar uma nova vaga de investimento estrangeiro”, assinala.
A LPFP recorda ainda que o valor total de mercado dos clubes da I Liga cresceu de 1,1 mil milhões de euros, na época 2018/19, para 1,68 mil milhões em 2024/25, situação que configura um aumento de 53%.
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