Terminais da UE com capacidade “relevante” para receber mais gás liquefeito dos EUA
Portugal é o país na União Europeia cuja capacidade de armazenamento de gás natural liquefeito está para já mais lotada, restando apenas 30%.
Perante um desagravamento das tarifas comerciais com as quais Donald Trump ameaçava a União Europeia, o bloco europeu comprometeu-se a reforçar – e muito – as importações de energia provenientes dos Estados Unidos. Embora não se saiba ao certo em que quantidades a Comissão Europeia pretende importar os diferentes tipos de produtos energéticos, o gás natural liquefeito tem sido cada vez mais solicitado pelo Velho Continente à maior economia do mundo, desde que diminuiu a parceria com a Rússia no gás, na sequência da guerra com a Ucrânia.
Neste sentido, o ECO/Capital Verde foi consultar os dados disponíveis para perceber qual é a atual capacidade de receção de gás natural liquefeito proveniente dos Estados Unidos por parte da União Europeia. A conclusão é que ainda há muito espaço para receber esses volumes – mais de 50% da capacidade de armazenamento está disponível. No caso de Portugal, resta de momento uma fatia de 30%.
Assumindo que as empresas querem importar mais gás natural liquefeito, há uma capacidade relevante disponível.
De acordo com o site da transparência europeu dedicado aos Terminais de gás natural liquefeito (GNL), a capacidade de armazenamento destes terminais na União Europeia, a 5 de agosto, estava apenas preenchida em 49,6%, deixando assim uma fatia de mais de metade da capacidade de armazenamento disponível. “Assumindo que as empresas querem importar mais gás natural liquefeito, há uma capacidade relevante disponível”, observa Ben McWilliams, investigador do think tank Bruegel.

Apesar desta capacidade “relevante” que ainda está disponível”, “é provável que qualquer aumento nas importações de gás natural liquefeito dos Estados Unidos ocorra ao mesmo tempo que há uma diminuição nas importações de GNL de outros lugares (incluindo os fluxos russos que restam)”, complementa Ben McWilliams.
Apesar do acordo comercial entre as duas potências, o aumento das importações é uma incógnita dada a falta de poder por parte da Comissão Europeia para ditar que empresas comprem mais energia aos Estados Unidos — a própria Comissão já veio admitir que a decisão está do lado dos privados — e, além disso, existem limitações em termos de oferta e procura, o que torna o acordo irrealista, de acordo com os especialistas.
"É provável que qualquer aumento nas importações de gás natural liquefeito dos Estados Unidos ocorra ao mesmo tempo que há uma diminuição nas importações de GNL de outros lugares.”
Contudo, para já, o que está em cima da mesa é que a União Europeia importe 750 mil milhões de dólares em produtos energéticos vindos dos Estados Unidos — petróleo, gás e nucleares — nos próximos três anos, ou seja cerca de 250 mil milhões por ano, quando as importações energéticas totais da UE com origem nos Estados Unidos foram de 70 mil milhões de dólares em 2024 e, olhando à soma de importações de produtos energéticos de todo o globo, o total se cifrou nos 375 mil milhões de euros (cerca de 435 mil milhões de dólares).
Portugal com menor fatia disponível, mas ainda deve “aproveitar”
O terminal português é aquele que, àquela data, tinha menos margem disponível – menos de 31%. Ainda assim, “os terminais portugueses podem aumentar as importações, assim como os de Espanha o podem fazer, significativamente”. A vizinha Espanha ainda tem mais de 40% da capacidade disponível.
“Não há grande conexão entre Espanha e França, pelo que estas importações serviriam sobretudo a Península Ibérica”, prevê o investigador do Bruegel. De acordo com a REN, o gás que chega a Sines pode ser escoado através da emissão para a Rede Nacional de Transporte de Gás (RNTG), que tem a capacidade de receber 200 gigawatts-hora (GWh) por dia. O volume de GNL armazenado a 5 de agosto em Sines, de 270.000 metros cúbicos, corresponde a um total de 1.851,03 gigawatts-hora.
"Portugal poderá beneficiar do aumento das importações de GNL.”
Na visão do economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Rosa, tendo em conta a “localização geográfica estratégica” na costa atlântica da Europa e as infraestruturas existentes, “Portugal poderá beneficiar do aumento das importações de GNL”. Isto porque o país dispõe do terminal de Sines, “um dos maiores e mais modernos da Europa para regaseificação de GNL”, capaz de receber grandes volumes de gás natural liquefeito e distribuí-lo para o mercado nacional e para a Península Ibérica.
O ex-secretário de Estado da Energia e antigo CEO da Endesa em Portugal, Nuno Ribeiro da Silva, prevê que, a haver de facto algum reforço nos níveis de importação de GNL para a UE, possa verificar-se “uma utilização mais intensa do terminal de Sines“, tanto para injeção na rede de gás como para transvases, ou seja, armazenar o gás temporariamente em tanques e até redirecionar para outras zonas Europa.
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