Autárquicas em Loures: onde o burro de Costa quase venceu o PCP, “Ronaldo da política” exige a vitória do Chega sobre Leão
O PCP soma mais vitórias, mas é o PS que governa. O PSD traz um vereador de Ricardo Leão. À esquerda há PCP e uma coligação. O Chega tem um ex-monárquico a quem Ventura exige a vitória. Loures ferve.

O desastre de avião que vitimou um primeiro-ministro e originou um herói no PSD, o congresso onde o histórico Álvaro Cunhal acolheu Carlos Carvalhas como herdeiro do legado comunista, a luta eleitoral autárquica que pôs um futuro primeiro-ministro português socialista a organizar uma corrida entre um burro e um Ferrari e, ainda, a eleição que “criou” o político André Ventura, têm um ponto em comum: Loures.
Este é um dos concelhos que motiva grande curiosidade para 12 de outubro, não só por estar entre os 24 grandes municípios do país (mais de 100 mil habitantes), mas pela incógnita sobre o novo joker da política, o Chega, cujo candidato assegura que a luta a 12 de outubro será entre o seu partido e o PS. Isto, embora nos quase 50 anos de poder local eleito democraticamente, Loures tenha sido dominado pelo bipartidarismo, com oito vitórias para o PCP e cinco para os socialistas, a mais recente das quais em 2021, quando Ricardo Leão conquistou a Câmara.
Só que nessa altura, o Chega tinha apenas um deputado na Assembleia da República, André Ventura, um ex-PSD de Loures que o atual candidato chegano considera “o Ronaldo da política”. Na apresentação do seu candidato a Loures, em julho, Ventura não deixou dúvidas: “nós hoje aqui em Loures podemos dizer com orgulho que saímos daqui para conquistar o país todo”.
A 12 de outubro, Ricardo Leão, que nesta segunda-feira completa 50 anos de idade, saberá se segue para o segundo mandato. Antes de ser chamado pelo PS para lutar em 2021 contra o incumbente Bernardino Soares e causar um abalo na Soeiro Pereira Gomes ao impossibilitar o terceiro mandato consecutivo do comunista, Leão, que era presidente da Assembleia Municipal desde 2017, teve duas legislaturas incompletas em São Bento.
A mais recente durou de 2019 a 2021, altura em que transitou para a Praça do Município em Loures. Na primeira experiência começou como substituto do ministro da Cultura João Soares na Assembleia da República, na legislatura da “geringonça”. Quando Soares se demitiu de ministro da Cultura (por ter prometido, nas redes sociais, umas “salutares bofetadas” a Augusto M. Seabra, crítico no jornal Público e a Vasco Pulido Valente, tendo-se retratado mais tarde) e regressou ao Parlamento, Ricardo Leão manteve o lugar em São Bento, mas agora como substituto de Graça Fonseca, secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa. Mais tarde, deixaria a bancada para dar lugar a Marcos Perestrello, quando este deixou o cargo de secretário de Estado da Defesa, na sequência da demissão do titular da pasta com a polémica do roubo de material militar em Tancos.
Perestrello, presidente da Federação de Lisboa do PS, foi uma das vozes do partido críticas de Leão aquando da polémica sobre um potencial despejo “sem dó nem piedade” de inquilinos de habitação social envolvidos nos desacatos decorridos em vários concelhos da área de Lisboa no final de 2024.
Ricardo Leão criticado pelo PS e apoiado pelo PSD
Uma polémica em que Pedro Nuno Santos não poupou Leão e que levou o autarca a demitir-se de presidente da Federação de Lisboa do PS e apanhou de raspão o vereador social-democrata Nelson Batista, criticado pelo PSD nacional por, tal como a maioria da vereação da autarquia, aprovar na Câmara a recomendação do Chega para que os causadores de distúrbios fossem despejados da habitação municipal. Nelson Batista, de novo candidato PSD/CDS, tem como prioridades a segurança, habitação e mobilidade e aponta os exemplos de Lisboa e Cascais como exemplos de boa governação social-democrata. Contudo, ao contrário dos munícipes destes concelhos, e de outros da margem norte da Área Metropolitana de Lisboa, nunca o PSD teve a preferência em Loures, nem mesmo coligado com o CDS e ao longo das décadas em que não existia o Chega.
[O caso no bairro do Talude Militar] uma situação que não é fácil de resolver, agora há uma coisa que eu lhe posso responder perentoriamente. Eu, se fosse presidente da Câmara, e essa área estivesse comigo, eu não quereria barracas no meu concelho.
Nelson Batista, a quem Ricardo Leão entregou os pelouros do Ambiente e Economia e Inovação neste mandato foi, por seu lado, uma das vozes a defender Ricardo Leão na mais recente polémica, a da demolição de barracas no bairro do Talude Militar. Há um mês, o social-democrata afirmou à Lusa: “É uma situação que não é fácil de resolver, agora há uma coisa que eu lhe posso responder perentoriamente. Eu, se fosse presidente da Câmara, e essa área estivesse comigo, eu não quereria barracas no meu concelho”.
A cooperação estabelecida pelo PS e PSD é um dos argumentos usados pelos comunistas na sua mensagem política para 12 de outubro: “a gestão da maioria PS e PSD foi incapaz de fazer e responder ao necessário”.
Esta maioria deriva do acordo pós-eleitoral entre Leão e os social-democratas após as eleições de 2021 terem ditado um empate entre socialistas e comunistas com quatro vereadores cada (entre eles, Gonçalo Caroço, o candidato comunista para 2025), a uma distância de apenas 2000 votos em mais de 80 mil que foram às urnas.
O resultado repetiu, mas em espelho, o de 1993, a outra batalha renhida entre PS e PCP, na qual a vitória coube a Demétrio Alves. O autor da façanha de pôr o PS com os mesmos quatro vereadores do PCP a menos de 2000 votos dos comunistas foi António Costa.
Esta candidatura ganhou dimensão nacional quando o candidato António Costa colocou um Ferrari e um burro “conduzido” por um despachado cavaleiro a ligar Loures ao topo da Calçada de Carriche, tendo o jumento chegado uns minutos mais cedo que o “cavallino rampante” italiano. Costa provou a sua causa: era preciso o metropolitano em Odivelas para amenizar o calvário diário de quem queria chegar a Lisboa para trabalhar.
Referir aqui Odivelas não é um lapso: esta só se tornaria independente de Loures meia-dúzia de anos depois. O que era então o enorme concelho de Loures levou mais de 150 mil eleitores às urnas, praticamente o dobro dos que votaram em 2021, o que torna ainda mais notável a exígua diferença de votos de Costa para Demétrio. O comunista ainda ganharia uma terceira vez, mas deixou a Câmara em junho de 1999, precisamente por discordar da perda do território de Odivelas, promulgada pelo Presidente da República Jorge Sampaio. No seu lugar ficou Adão Barata, que nas eleições de 2002 perdeu para Carlos Teixeira (que em 1993 fez parte da animada corrida do burro contra o Ferrari, apostando no primeiro). Para assegurar estabilidade, o PS oferecia à CDU vários pelouros, designadamente o da habitação.
Na lista de vereadores socialistas em 2002 entrava… Ricardo Leão. Em 2013, quando Carlos Teixeira atinge o limite de mandatos, dá-se novo volte-face no bipartidarismo de Loures e vence o comunista Bernardino Soares, então membro da Assembleia Municipal. O PSD, que candidatava o ex-autarca das Caldas da Rainha, Fernando Costa, continua a ser uma força secundária, com 16%, mas os dois vereadores eleitos levam-no para os braços da CDU, com quem formam um acordo de governação na Câmara.
À data, estava o país em pleno programa de assistência financeira da “troika”, o PS foi bastante crítico pela união entre CDU e PSD, com o então presidente da concelhia de Loures a dizer, em declarações ao Público, que “esta colagem ao PSD não lhe fica bem. É no mínimo muito estranho e demonstra uma falta de coerência tremenda” [de Bernardino Soares]. Esse porta-voz do PS era Ricardo Leão, o mesmo que o PCP critica agora, em 2025, pela governação em parceria com o PSD.
A geometria variável do PSD como elemento de desempate e a força do partido do “Ronaldo da política”
No atual mandato autárquico, os social-democratas, com dois eleitos, formam a força de desempate entre PS e CDU, ambos com quatro vereadores. Nos 11 elementos eleitos para a Câmara conta-se ainda um do Chega, Bruno Nunes, o mesmo que foi eleito este ano, pela terceira vez, mas em legislativas, para São Bento.
Bruno Nunes, deputado da nação desde 2022, quando foi cabeça de lista pelo seu distrito de residência, Setúbal, considera Ventura “o Ronaldo da política” e “o melhor político português depois do falecimento de Sá Carneiro”, segundo declarações ao jornal O Setubalense.
O percurso político do candidato a presidente de Loures pelo Chega inclui a candidatura ao Parlamento Europeu em 2014 pelo Partido Popular Monárquico, o mesmo em que, em 2017, se candidata ao concelho na coligação “Loures Primeiro”, encabeçada pelo então social-democrata André Ventura, e que era constituída pelo PSD e pelo PPM, depois de o CDS se desvincular por discordar de declarações de Ventura sobre a comunidade cigana.
Bruno Nunes ficava na assembleia municipal, mas logo na tomada de posse, a coligação desfazia-se, passando a deputado municipal pelo PPM. Hoje, quando se candidata a presidente, diz que “o legado que André Ventura deixou em Loures em 2017, alimentado nestes últimos quatro anos, permite dizer que o povo sabe que chegou a hora. Em Loures, a Câmara será Chega ou PS”, assegura. E o líder do seu partido avisou logo no lançamento da candidatura, que considera ter “um peso enorme em cima”. Ventura não podia ser mais claro: “É impossível ter um mau resultado em Loures. Eu até posso ser tolerante com outros candidatos, com Loures não podemos ser”.
Loures assume assim uma relevância preponderante para o Chega. À luz destas palavras de André Ventura, pode-se concluir que a não vitória será a grande derrota do Chega nas autárquicas. Antes de aqui chegar, Bruno Nunes já tinha tido uma “aventura” europeia em 2014 pelo PPM, antes da eleição em Loures pelo mesmo partido da monarquia em 2017. Nesse ano, Ventura “nascia” para a política, quando Pedro Passos Coelho, ainda líder do PSD, o escolheu para liderar a coligação “Loures Primeiro”.
[André Ventura] esteve um ano como vereador na Câmara e a sua presença foi mais ou menos irrelevante. Não fez nenhuma proposta relevante, discutia algumas questões jurídicas porque é um jurista com experiência, até formais, e de três em três reuniões falava nas rendas dos bairros sociais.
A teimosia do ex-primeiro ministro acabaria por provar-se acertada do ponto de vista estratégico, ainda que muitos apontem àquele momento o ónus de ter sido o “capital semente” do Chega, tornando Passos numa espécie de “business angel” do Chega.
Nos quase 50 anos que o país leva com poder local eleito democraticamente, só durante o “cavaquismo” o PSD conseguiu melhor que os 21,55% obtidos com Ventura. Em contrapartida, nessa mesma altura, o PS teve a sua segunda pior votação de sempre, com 28,24%, umas décimas menos mal que o resultado obtido em 1989, no auge da primeira maioria de Cavaco. Nesse ano da génese do “venturismo”, Bernardino Soares conquistava o segundo mandato consecutivo.
Se observarmos a montante e jusante da corrida eleitoral de 2021, aquela que popularizou Ventura para lá dos ecrãs do comentariado futebolístico, o PSD teve 16% em 2013 e 14% em 2021. Aliás, o partido nunca conseguiu melhor que ser terceiro nas autárquicas em Loures, ao contrário do que sucedeu em legislativas, onde venceu no concelho na maioria de Sá Carneiro (AD) em 1980 e nas duas maiorias de Cavaco Silva em 1987 e 1991.
Em 2020, numa entrevista ao Observador, à margem de um congresso no Pavilhão Paz e Amizade — onde, em 1990, Álvaro Cunhal começou a delegar a liderança em Carlos Carvalhas –, o então presidente de Loures Bernardino Soares resumia assim a participação de Ventura no mandato autárquico: “ele esteve um ano como vereador na Câmara e a sua presença foi mais ou menos irrelevante. […] Não fez nenhuma proposta relevante, discutia algumas questões jurídicas porque é um jurista com experiência, até formais, e de três em três reuniões falava nas rendas dos bairros sociais”.
Ricardo Leão está colado à extrema-direita, acusa BE
Na corrida está ainda uma coligação do Bloco de Esquerda com o Livre e o PAN, formalizada há dias. O Bloco que, há um ano, aquando da polémica de Ricardo Leão sobre despejos, verbalizou uma acusação recorrente da oposição a Ricardo Leão: “Isto não é um acaso, não é uma escorregadela; é uma coerência infeliz do presidente da Câmara de Loures“, afirmou o então líder parlamentar do BE, Fabian Figueiredo, acusando o autarca de “fazer um mandato, do ponto de vista retórico, mas também do ponto de vista prático, apoiando-se no discurso e nas políticas da extrema-direita. Quem conhece [Ricardo Leão], mesmo elementos do PS, sabe que isto não foi um lapso nem um momento menos bom“, porque “não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira declaração pública que fez e que podia ter sido dita pelo Chega“. Fabian Figueiredo recordou ainda os momentos em que Leão “ameaçou cortar refeições escolares a crianças cujos pais se atrasam no pagamento” e “em que se gabou de fazer o maior despejo da história, de 550 pessoas”.
Agora, sob o lema “Construir o futuro”, a coligação de esquerda, liderada por Luís de Sousa, do Livre, e com a bloquista Rita Lage Sarrico como candidata à Assembleia Municipal, reclama uma aliança “progressista e humanista”, alternativa a uma liderança que “tem mimetizado a agenda política e a retórica populista da extrema-direita,
As legislativas de 18 de maio, com o segundo lugar entregue ao Chega, a meros 2200 votos do vencedor, PS, trouxeram um novo dado para baralhar as previsões das autárquicas em Loures, havendo a grande incógnita do que conseguirá o PCP fazer após a derrocada eleitoral deste ano, quando somou pouco mais de 5000 votos, menos de 5% do total. Em 2019, últimas legislativas antes das autárquicas de 2021, tinha alcançado mais do dobro, sendo que na altura enfrentou um PS forte, então com 40%.
Loures é um concelho onde o PSD tem variado entre coadjuvante da direita e da esquerda; onde o PCP anti-troika escolheu o partido liderado por Passos Coelho para “muleta” em pleno período de resgate; onde Ventura “nasceu” para a política de mão dada com o social-democrata Passos Coelho; e onde Ricardo Leão foi vereador de um presidente que, em 2017, rompeu com o PS e se candidatou a Lisboa pelo PDR de Marinho e Pinto. O mesmo Carlos Teixeira que, em 2008, ainda presidente socialista de Loures, dizia, a propósito de fortes protestos da comunidade cigana naquele município, e sobre uma potencial concentração nacional no seu concelho que ficaria “satisfeito se esta for com o objetivo de pagar as rendas em atraso ou para se inscreverem num centro de emprego”.
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