Hermanos mas pouco. Espanha faz ‘olé’ na economia portuguesa, mas do outro lado da fronteira poucos portugueses marcam golo
Empresas espanholas têm quotas de mercado dominantes em vários setores em Portugal e são acionistas de várias cotadas nacionais. Barreiras culturais e burocráticas têm travado entrada lusa em Espanha.
O processo de venda do Novobanco voltou a trazer o tema da espanholização para o debate. Apesar de o banco ter acabado por ser vendido aos franceses do BPCE, o domínio espanhol em vários setores da economia portuguesa, desde logo a banca, é uma realidade. Na lista das maiores empresas em Portugal, por volume de faturação, são muitas as companhias que têm origem no país vizinho. Mas e o contrário? Quantas empresas portuguesas dão cartas em Espanha?
Espanha é o principal parceiro comercial e o maior investidor direto estrangeiro de Portugal. Para Espanha segue mais de um quarto das exportações portuguesas e de lá chegam mais de 30% das importações nacionais. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), as vendas de bens para o mercado espanhol atingiram os 5,35 mil milhões de euros no segundo trimestre do ano, o equivalente a 26,8% dos 19,99 mil milhões de euros exportados entre abril e o final de junho. Em termos de investimento, Espanha lidera o IDE em Portugal, com um stock acumulado de 30,7 mil milhões de euros no final de 2024.
Olhando para aquela que é a atividade das empresas espanholas em Portugal, a influência de nuestros hermanos é notória. Na lista das 50 maiores empresas no país por volume de faturação há sete negócios que têm origem no país vizinho, enquanto em Espanha há apenas uma: a Galp Energia. Uma diferença gritante, que expõe a grande discrepância que existe naquilo que é a presença de empresas espanholas em Portugal, face às empresas portuguesas presentes em Espanha, tanto em número, como em termos de peso na economia.

Grandes empresas do setor da energia, como a Repsol, a Cepsa ou a Prio, que foi comprada pelo grupo espanhol DISA em 2020, ou, na eletricidade, a Endesa concorrem diretamente com grandes empresas portuguesas. No retalho, a Mercadona, em Portugal há oito anos e com mais de mil milhões de euros investidos, continua a crescer no mercado nacional, onde já ganhou dinheiro em 2024. No comércio, é incontornável o domínio das marcas detidas pela Inditex, a multinacional espanhola de moda, dona da marca Zara, que este ano comemorou 50 anos, de Amancio Ortega. Mais evidente ainda é o domínio no setor bancário, onde Espanha se faz representar por entidades como o grupo Santander, o BPI (La Caixa) e o Bankinter.
Contam-se ainda grandes investimentos realizados através de fundos de investimento, nomeadamente no setor imobiliário, grupos de engenharia, ou construção, entre outros.
Quando se olha para Espanha, os casos de sucesso são (muito) mais reduzidos. Além da Galp, a única presença portuguesa na lista das maiores empresas por volume de negócios, há ainda a EDP (EDP ESPAÑA e EDP Clientes), que surge na lista das 100 maiores e a representatividade de Portugal na lista das 500 maiores empresas em Espanha esgota-se aí.
Há que colocar o dedo na ferida: culturalmente, há mais resistência por parte dos espanhóis de receberem empresas portuguesas do que o contrário. É um relato que nos chega muito frequentemente
“As empresas espanholas têm peso dominante na economia portuguesa, graças à sua dimensão, capacidade de investimento e fácil integração cultural e geográfica”, explica Filipe Garcia, presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros. “Há que colocar o dedo na ferida: culturalmente, há mais resistência por parte dos espanhóis de receberem empresas portuguesas do que o contrário“, admite o economista. “É um relato que nos chega muito frequentemente”, diz.
Esta “resistência” à entrada de empresas e investimentos portugueses tem sido admitida por empresários ao longo do tempo. António Mota, o dono da Mota-Engil, tem sido uma das vozes a atirar críticas à atuação das autoridades portuguesas, que não conseguem proteger o mercado nacional, ao contrário do que acontece em Espanha. “Sabe de alguma empresa estrangeira — não é portuguesa — que lá esteja a trabalhar? Uma só? Francesa, inglesa ou brasileira? Eu não“, atirou o empresário numa entrevista ao Expresso em 2020.
Fora da construção, Espanha afigura-se como um mercado apetecível, devido à sua dimensão, para muitas empresas portuguesas. Mas penetrar este mercado é tudo menos fácil. Salvo algumas exceções, a entrada e o reforço da presença tem sido feita através de aquisições, como aconteceu recentemente com os CTT, que concluíram a aquisição da Cacesa, ou a Sonae, que conseguiu fechar um acordo no país para liderar retalho de beleza e bem-estar.
Altri anunciou um megaprojeto industrial de cerca de mil milhões de euros para a Galiza, mas construção da fábrica tem sido muito contestada a nível local e empresa portuguesa continua a aguardar as autorizações necessárias para prosseguir com o investimento. Já a química Bondalti está à espera que a OPA sobre a Ercros, lançada em março de 2024, avance.
Por outro lado, a Altri continua à espera de autorizações, que têm saído a conta-gotas, para avançar com o seu megaempreendimento de mil milhões milhões na Galiza, um projeto que tem sido muito contestado e que custa a andar. E a oferta pública de aquisição de 329 milhões de euros lançada pela Bondalti sobre a gigante Ercros em março de 2024 ainda não teve um desfecho, com a operação a arrastar-se por mais de um ano.
Ao contrário do que acontece por cá, a participação por parte de empresas portuguesas em concursos públicos também não é fácil. “A participação de empresas portuguesas tem sido reduzida [em concursos públicos espanhóis], fundamentalmente pelas barreiras inerentes ao processo burocrático e às características culturais do mercado“, reconhece a AICEP, numa iniciativa recente que promoveu para apoiar as empresas portuguesas. “Acresce, ainda, o facto de algumas Comunidades Autónomas poderem requerer registos adicionais, sobretudo ligados a especificidades regionais ou locais, como por exemplo, a instrução das candidaturas nas suas línguas regionais, complexificando, deste modo, o processo das mesmas”, acrescentou.
A participação de empresas portuguesas tem sido reduzida [em concursos públicos espanhóis], fundamentalmente pelas barreiras inerentes ao processo burocrático e às características culturais do mercado.
Ainda que os entraves culturais e burocráticos à entrada de grupos nacionais sejam parte — grande — da justificação para a diferença entre aquilo que é o peso das empresas portuguesas em Espanha, não são a única. “Espanha tem população, mercado interno e população de muito maior dimensão face a Portugal, além de fazer fronteira direta com dois países”, explica o mesmo responsável, sublinhando que “os efeitos de escala, de maior facilidade de financiamento e a tendência para que os centros se sobreponham à periferia explicam a maior parte da diferença”.
“Mesmo proporcionalmente às economias, há muito mais empresas de maior dimensão em Espanha do que em Portugal. Além disso, Espanha é quase sempre a preferida pelas multinacionais que veem o mercado ibérico em conjunto”, conclui. Para o economista, “a menor presença relativa das empresas portuguesas em Espanha não é uma sentença e há muitos e bons casos que o demonstram”. “A relação bilateral continua a oferecer oportunidades para ambos os países, sendo essencial maior aposta das empresas portuguesas em adaptação e presença local para crescerem no mercado vizinho“, acrescenta.
Espanhóis no capital das maiores cotadas
A influência espanhola é visível também na capital das maiores empresas cotadas portuguesas, com participações valiosas em setores como a energia e os correios. São quatro as grandes companhias lusas que têm posições qualificadas superiores de 5% nas mãos de acionistas espanhóis.

A participação mais valiosa está nas mãos da família Masaveu que, através da Oppidum, controla uma participação de 6,82% no capital da EDP, avaliada acima de mil milhões de euros.
A REN conta com dois acionistas relevantes espanhóis. A Pontegadea Inversiones, detida por Amancio Ortega, controla 12% do capital da REN, avaliada em 238 milhões de euros. O dono da Inditex — que detém marcas como a Zara ou a Mango e é também uma das maiores empresas por volume de faturação em Portugal — a assumir-se como o segundo maior acionista da empresa portuguesa, desde que entrou no capital em 2021.
Além do braço de investimentos do milionário espanhol, a REN tem ainda na sua estrutura acionista a Redeia Corporación, com 5% do capital, uma participação que vale perto de 100 milhões de euros.
Nos correios, a Global Portfolio Investments, holding financeira da espanhola Indumenta Pueri, que por sua vez é a dona da fabricante de roupa infantil Mayoral, reforçou em junho do ano passado no capital dos CTT e chegou a superar a fasquia de 15% no capital da empresa, tornando-se o maior acionista. No entanto, entretanto, a posição baixou para 14,29%, com o português Manuel Champalimaud a voltar a ser o maior acionista, com 14,76% das ações, segundo a informação partilhada no site dos CTT, atualizada a 10 de julho de 2025.
A fechar a lista de empresas onde são conhecidas participações qualificadas — posições acima de 5% — surge a Sonae. A espanhola Criteria Caixa, dona do CaixaBank, que detém o BPI, entrou na Sonae em 2019 com uma posição qualificada de 2%, uma participação que aumentou, em 2023, para 5%.
Estas posições apenas têm em conta as participações acima de 5%, uma vez que este é o limite considerado pelo novo código dos valores mobiliários, em vigor desde janeiro de 2022, a partir do qual as participações têm que ser reveladas ao mercado. Ou seja, tudo que esteja abaixo deste limiar (5%) não tem de ser divulgado publicamente, pelo que o domínio espanhol no capital das cotadas poderá ser superior.
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