Governo “fragilizado” pelos fogos corre “atrás do prejuízo”. Marcelo poupa nas críticas
Montenegro enfrenta críticas por não ter cancelado a Festa do Pontal e vai anunciar apoios às populações afetadas. O Presidente mantém-se alerta, mas sem entrar em choque.
Depois da Festa do Pontal, de ter criticado os meios de comunicação social por transmitir imagens dos incêndios e de sucessivas prorrogações de estados de alerta, Luís Montenegro convoca um Conselho de Ministros extraordinário para lançar apoios para as populações afetadas pelos incêndios. E até mostrou disponibilidade e “vontade” para marcar presença no debate de urgência na Assembleia da República, inédito por ser em plenas férias parlamentares.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
“É correr atrás do prejuízo, conter danos”, segundo a análise de vários politólogos consultados pelo ECO.
O Presidente da República mantém-se vigilante, mas está já em final de ciclo, a sair de cena e, nesta fase, prefere poupar o Governo e não entrar em choque com um Executivo que já está “fragilizado”, consideram os mesmos especialistas em Ciência Política.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, convocou um Conselho de Ministros extraordinário para esta quinta-feira para aprovar medidas de apoio às populações afetadas pelos incêndios florestais, disse fonte oficial do Governo ao ECO.
A previsão do Governo era que as reuniões de Conselho de Ministros apenas fossem retomadas na última semana de agosto, mas os múltiplos incêndios rurais de grande dimensão que assolam o país desde julho, sobretudo nas regiões Norte e Centro, levaram a uma alteração de planos. O primeiro-ministro e o Presidente da República interromperam as férias de verão depois da confirmação da primeira vítima mortal no combate às chamas este ano.
No total, os incêndios já provocaram três mortos, incluindo um bombeiro, e vários feridos, alguns com gravidade. Há registo de destruição total ou parcial de habitações, bem como de explorações agrícolas e pecuárias e área florestal.
“O Governo está a tentar correr atrás do prejuízo e passa uma imagem de abandono das populações afetadas que não sentem o auxílio no tempo devido. Sentem que não há um responsável político, do Governo, no terreno”, de acordo com Paula Espírito Santo, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa.
O Governo está a tentar correr atrás do prejuízo e passa uma imagem de abandono das populações afetadas que não sentem o auxílio no tempo devido.
“Esta falta de visibilidade resulta depois naquela que tem sido a reação das pessoas, como aquele popular que disse ao primeiro-ministro que ‘não devia estar aqui’, durante o funeral de um bombeiro”, salienta ainda a mesma politóloga.
Afinando pelo mesmo diapasão, Hugo Ferrinho Lopes considera que “a estratégia de comunicação foi fragilizada por episódios como as férias do primeiro-ministro ou, muito mais relevante, a Festa do Pontal e o adiamento do acionamento do Mecanismo Europeu de Proteção Civil – que deram à oposição margem para explorar perceções de falta de empatia”.
Relativamente à Festa do Pontal, momento que marcou a rentrée política do PSD, que decorreu a 14 de agosto, em pleno pico dos incêndios, o investigador de doutoramento do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa considera que “o primeiro-ministro não deveria ter participado”. “Em contextos de elevado risco e visibilidade, eventos festivos tendem a gerar frame de dissonância/insensibilidade. O Pontal alimentou esse frame. Ao manter o evento e criticar os media, Montenegro arriscou inverter o frame: em vez de marcar a agenda, ficou ele próprio associado à polémica”, acrescenta.
André Azevedo Alves, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, vai mais longe e considera que “a Festa do Pontal devia ter sido cancelada”. Para além disso, “criticar os média foi completamente deslocado – um entre vários erros comunicacionais do Governo”, aponta o politólogo.
A Festa do Pontal devia ter sido cancelada. Criticar os média foi completamente deslocado – um entre vários erros comunicacionais do Governo.
Ainda assim, “Montenegro mostrou sensibilidade, ao cancelar férias e pedir meios europeus, mas, em ambos os casos, a sua comunicação sofreu com o timing”, nota Hugo Ferrinho Lopes.
Mantendo o tom mais crítico, André Azevedo Alves considera que “o Governo está a lidar francamente mal” com a tragédia dos incêndios, “desde a notória impreparação e falta de coordenação de alguns membros do Governo até aos sucessivos erros comunicacionais cometidos, que são particularmente críticos em momentos de grande tensão e sofrimento como este”.
“Demorou”, mas o primeiro-ministro acabou por “perceber a gravidade da situação e procura agora recuperar dos danos políticos causados”, assinala o mesmo politólogo. Por isso, convocou um Conselho de Ministros extraordinário para aprovar apoios para as populações afetadas pelos incêndios e mostrou-se totalmente disponível e com “vontade” em participar no debate de urgência, proposto por Chega e PCP, e aprovado por unanimidade, da comissão permanente do Parlamento, o órgão que reúne quando a Assembleia da República se encontra de férias.
Mas Luís Montenegro devia ter feito mais. Paula Espírito Santo e Hugo Ferrinho Lopes consideram que o Governo já deveria ter decretado a situação de calamidade, em vez de prorrogar sucessivamente os estados de alerta, “até porque, no seu discurso na Festa do Pontal chegou a assumir que o país estava em guerra contra os incêndios”, segundo a politóloga do ISCSP.
![]()
"Estamos a fazer o esforço máximo. Estamos completamente solidários. Estamos a acompanhar a situação a toda a hora. De forma discreta, mas, acreditem, muito próxima. Não é a meio da guerra que vamos fazer a discussão. Vamos primeiro ganhar a guerra.”
“Estamos a fazer o esforço máximo. Estamos completamente solidários. Estamos a acompanhar a situação a toda a hora. De forma discreta, mas, acreditem, muito próxima. Não é a meio da guerra que vamos fazer a discussão. Vamos primeiro ganhar a guerra“, disse Luís Montenegro, na Festa do Pontal, a partir do Calçadão da Quarteira, no Algarve, a 14 de agosto. A rentrée política do PSD ficou marcada pelo regresso da Formula 1 ao Algarve e por mais um hospital em parceria público-privada para a região, mas sem novidades quanto a apoios para as localidades fustigadas pelos incêndios ou sobre a possibilidade de decretar o estado de calamidade.
“Localmente, em áreas mais devastadas, a ‘calamidade’ teria dado sinal político mais forte e desbloqueado apoios extraordinários. Ao resistir ao apelo da oposição, o Governo preserva margem de manobra e evita precedentes que ampliem expectativas, mas paga o preço de críticas sobre falta de sensibilidade”, salienta o investigador de doutoramento do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Quanto ao papel do Presidente da República, os politólogos ouvidos pelo ECO consideram que Marcelo Rebelo de Sousa se tem mantido vigilante, mas estando em final de ciclo, prefere manter-se mais distante, poupando o Governo a críticas mais duras.
“Marcelo Rebelo de Sousa é crítico do Governo, deixando recados à ministra da Administração Interna”, Maria Lúcia Amaral, aponta Hugo Ferrinho Lopes. Recorde-se que ainda esta terça-feira, o Chefe de Estado comentou desta forma os silêncios da governante: “Admito que quem acaba de chegar há dois meses esteja a descobrir os problemas e as respostas a dar. Isso também se aprende, eu próprio aprendi.”
“Contudo, O Chefe de Estado não tem o nível de confrontação aberta que demonstrou em 2017, sublinhando que ‘não há comparação’ com a tragédia de Pedrógão. Está a adotar um tom mais institucional e menos acusatório”, concluiu o mesmo politólogo.
O Chefe de Estado não tem o nível de confrontação aberta que demonstrou em 2017, sublinhando que ‘não há comparação’ com a tragédia de Pedrógão. Está a adotar um tom mais institucional e menos acusatório.
Do mesmo modo, Paula Espírito Santo sublinha que “o Presidente não se quer sobrepor à ação executiva até para não colocar o primeiro-ministro em cheque”. “De certa forma está a poupar o Governo e a sair de cena gradualmente. Este já não é tanto o tempo do atual Presidente, que está em final de ciclo, em final de mandato, e a sua magistratura de influência também tem sido reduzida”, nota a professora do ISCSP.
André Azevedo Alves salienta também a perda de peso político de Marcelo, “ainda para mais quando está na reta final do seu segundo mandato”, para justificar as intervenções mais reservadas e distantes ao contrário do tom incisivo e duro que já teve no passado. De lembrar que o Presidente da República já provocou a demissão de uma ministra da Administração Interna, na altura, de Constança Urbano de Sousa, na sequência do flagelo dos incêndios de Pedrógão Grande de 2017.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Governo “fragilizado” pelos fogos corre “atrás do prejuízo”. Marcelo poupa nas críticas
{{ noCommentsLabel }}