Da inflação à atividade económica, como está a Argentina do ultraliberal Milei?

Javier Milei prometeu uma revolução económica na Argentina. Controlou a inflação, mas a atividade económica dá sinais de arrefecimento. Em paralelo, avançou com privatizações.

O controlo da hiperinflação foi uma das grandes promessas de Javier Milei quando concorreu a Presidente da Argentina e a redução de 211,4%, em 2023, para 117,8% deu motivos para sorrir ao ultraliberal face aos que duvidavam da sua estratégia económica. Conseguiu também reduzir o défice orçamental do país. Há, ainda assim, sinais de arrefecimento.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

A atividade económica do país que deu o futebolista Diego Maradona ao mundo conseguiu acumular uma recuperação de 6,2% no primeiro semestre, quando no mesmo período do ano passado contraiu 3%. Porém, no início do segundo semestre perdeu fulgor.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), a atividade económica recuperou 6,4% em junho face ao período homólogo, o nono aumento consecutivo. No entanto, registou uma queda de 0,7% em junho na comparação em cadeia, quando em maio registou uma contração de 0,1%.

Contudo, o desempenho positivo no semestre ‘esconde’ uma desaceleração progressiva da atividade, cujas variações mensais negativas em maio e junho com quebras no setor industrial, de construção e nas importações como resultado de fatores de instabilidade interna, mas também internacional.

De acordo com um relatório da Confederação Argentina de Médias Empresas, a que a agência EFE teve acesso, as vendas das pequenas e médias empresas caíram 2% em julho, em relação ao mesmo período do ano passado, e 5,7% em relação a junho, “impulsionadas por fatores económicos que limitaram o consumo, como o endividamento das famílias, a restrição do uso de crédito e o aumento dos custos operacionais”.

O foco de Javier Milei numa política monetária que contenha a inflação em detrimento do crescimento da atividade está a ter efeitos no aumento do custo dos créditos para as empresas e as famílias. Ainda assim, a inflação homóloga na Argentina atingiu 36,6% em julho, a taxa anual mais baixa desde dezembro de 2020.

Javier Milei, presidente da ArgentinaLusa

Perante este contexto, e numa altura de críticas da oposição sobre a elevada volatilidade das taxas de juro registadas nas últimas semanas, o presidente argentino justificou na semana passada a sua opção, afirmando que “apesar das constantes tentativas de desestabilização [da oposição] através das taxas de câmbio”, não houve transferência da subida cambial para os preços da economia real graças à política monetária aplicada pelo Governo, de acordo com a EFE.

Em julho, Milei decidiu desativar o instrumento utilizado pelo Banco Central para absorver a liquidez dos pesos argentinos entre entidades bancárias e impedir que o excesso de pesos fosse usado para comprar dólares. Mas a decisão apenas teve um sucesso parcial.

O presidente argentino defendeu ainda a estratégia orçamental, considerando que contas públicas equilibradas (o excedente orçamental primário subiu 92,6% em julho face ao período homólogo) permitem, por si só, um crescimento económico de 4% ao ano. Para o conseguir cortou em despesa do Estado, revolucionando a organização dos funcionários públicos, tendo já cortado mais de 50 mil cargos públicos.

“Se [o crescimento da economia] fosse de 6%, em dez ou 11 anos estaríamos a duplicar o Produto Interno Bruto (PIB), mas em 22 anos estaríamos a quadriplicar e já estaríamos em níveis dignos de uma superpotência. Ou seja, não é uma realidade assim tão longe. É só uma questão de fazer as coisas como deve ser”, disse, citado pela EFE.

O PIB da Argentina caiu 1,7% no ano passado, depois de uma queda de 1,6% em 2023. Uma fotografia que resulta do impacto do plano de ajustamento imposto pelo presidente para controlar a inflação, que refreou o consumo e consequentemente afetou a atividade.

Milei dá passos em direção à onda de privatizações de empresas estratégicas

Milei é um ultraliberal que quer fechar o banco central do país, o que ainda não concretizou. No entanto, vai dando passos na privatização de empresas estratégicas. No início do ano anunciou a primeira do seu mandato ao conceder uma participação maioritária da metalúrgica Impsa à americana ARC Energy. Mas não ficou por aí.

Na semana passada, por exemplo, o Governo aprovou medidas no âmbito do processo de privatização de empresas em setores estratégicos, como a eletricidade e a água. O processo faz parte do acordo negociado, em abril, com o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas também das promessas eleitorais do atual Presidente argentino.

Para já, o objetivo passa pela concessão da operação de um conjunto de barragens, mas outras seis empresas estão na calha para a privatização total ou parcial, como a Nucleoeléctrica Argentina e Energía Argentina, Corredores Viales, Intercargo, a Belgrano Cargas e Sociedad Operadora Ferroviaria. No radar de Milei está também a privatização da Aerolíneas Argentinas.

Denúncias de corrupção

Depois de em julho ter sofrido uma derrota no Congresso que fez aprovar medidas com impacto na despesa pública, como um aumento “excecional e de emergência” de 7,2% para as pensões, e dos protestos de pensionistas e funcionários públicos – dois dos grupos mais afetados pelas políticas de Milei, o Governo enfrenta agora uma nova polémica.

Na semana passada foram divulgadas gravações de áudio que deram origem a uma denúncia de corrupção contra Javier Milei, a irmã e vários colaboradores. Uma acusação que teve origem no advogado Gregorio Dalbón, que representa a ex-presidente Cristina Fernández (2007-2015) em vários casos, de acordo com a EFE.

Em causa está, alegadamente, “um esquema de arrecadação e pagamento de subornos para aquisição e fornecimento de medicamentos, com impacto direto no erário público”. Antes já tinha estado no centro de uma polémica quando promoveu, na rede social X, a criptomoeda $LIBRE, que depois colapsou. Na ocasião, a oposição pediu a destituição do Presidente argentino que após a queda da moeda apagou a publicação.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Da inflação à atividade económica, como está a Argentina do ultraliberal Milei?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião