Tempestade nas obrigações europeias dispara alarmes nos mercados

As yields das obrigações do Tesouro de França e do Reino Unido atingem máximos históricos, enquanto Portugal destaca-se pela sua resiliência e pelo diferencial mínimo de taxas de juro face à Alemanha.

Enquanto as praças financeiras europeias enfrentam uma das mais severas crises obrigacionistas dos últimos anos, Portugal consegue manter-se como um dos raros “portos seguros” numa tempestade que está a elevar as yields das obrigações do Tesouro de grandes economias para máximos históricos não vistos desde a crise da dívida soberana de 2011.

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No epicentro desta tempestade está a segunda maior economia da Zona Euro, que atravessa o momento mais delicado desde a crise financeira global. Sinal disso mesmo ficou espelhado esta terça-feira, com as yields das obrigações francesas a 30 anos a atingiram os 4,5%, o nível mais elevado desde 2009, enquanto o primeiro-ministro François Bayrou se prepara para enfrentar uma moção de confiança no parlamento na próxima segunda-feira (8 de setembro), que deverá resultar na queda do governo.

A instabilidade política francesa contaminou praticamente todo o mercado europeu de obrigações. O diferencial entre as obrigações alemãs e francesas a 10 anos alargou-se para 80 pontos base.

O impasse centra-se no orçamento de 2026, que prevê cortes de 44 mil milhões de euros para reduzir o défice de 5,8% do PIB para 4,6%. Entre as medidas mais polémicas está a eliminação de dois feriados nacionais – a segunda-feira de Páscoa e o 8 de maio, que comemora o fim da Segunda Guerra Mundial.

A instabilidade política francesa contaminou praticamente todo o mercado europeu de obrigações mas também de ações. O diferencial entre as obrigações alemãs e francesas a 10 anos alargou-se para 80 pontos base, após ter tocado os 82 pontos base na semana anterior – um nível que não se via desde a crise da dívida soberana. No mercado de ações, os principais índices europeus fecharam esta terça-feira pintados de vermelho, contando quedas entre 0,7% (Paris) e 2,29% (Frankfurt).

Nem a Alemanha, tradicionalmente vista como o bastião da disciplina fiscal europeia, está a escapar à pressão dos investidores. As yields das obrigações alemãs a 30 anos chegaram a tocar esta terça-feira máximos de 14 anos nos 3,42%, enquanto os títulos a 10 anos – referência para a zona euro – subiram para 2,799%, renovando máximos de março.

Esta subida reflete as preocupações dos investidores com os planos de Berlim para aumentar significativamente as despesas militares, numa altura em que o presidente Trump pressiona os aliados da NATO a incrementar os orçamentos de defesa.

Portugal surge como uma exceção. As obrigações a 20 anos negoceiam atualmente com uma queda da yield de 2 pontos base para 3,907%, enquanto os títulos a 30 anos mantêm-se praticamente inalterados nos 4,153%.

Do outro lado do Canal da Mancha, a situação é ainda mais dramática. As yields das obrigações britânicas (Gilts) a 30 anos dispararam para 5,69%, o valor mais elevado desde 1998. A libra chegou a desvalorizar 1,48% face ao dólar, enquanto os mercados avaliam as reformas governamentais da ministra das Finanças Rachel Reeves.

Os analistas apontam para uma composição peculiar dos detentores de Gilts – particularmente fundos especulativos estrangeiros – que exigem prémios mais elevados para absorver o risco orçamental britânico. Ken Egan, da Kroll Bond Rating Agency, alerta que alguns meses de fluxo noticioso negativo podem “adicionar milhares de milhões à fatura de financiamento do governo, suficiente para anular as receitas de fluxos fiscais inteiros”.

Neste cenário conturbado, Portugal surge como uma exceção. As obrigações a 20 anos negoceiam atualmente com uma queda da yield de 2 pontos base para 3,907%, enquanto os títulos a 30 anos mantêm-se praticamente inalterados nos 4,153%. Apenas as maturidades intermédias – a 9, 10 e 15 anos – registam ligeiras subidas entre 1,2 e 1,9 pontos base.

Esta estabilidade contrasta fortemente com a turbulência generalizada e reforça a posição de Portugal entre os países menos arriscados da Zona Euro. O spread das obrigações portuguesas a 10 anos face às alemãs mantém-se em mínimos históricos de 45 pontos base, confirmando a confiança dos investidores na trajetória das contas públicas nacionais.

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