A economia, Portugal e a Europa. O legado de Ernâni Lopes

O marcante economista é agora homenageado numa conferência e num livro que recorda a sua visão acerca de temas estruturais para a economia portuguesa

Ernâni Lopes, Vida e PensamentoHugo Amaral/ECO

Ou a Europa encontra um rumo se apaga“. Ernâni Lopes falava assim em 2010, numa das últimas entrevistas antes de falecer, precedendo uma discussão que, 15 anos depois, voltamos a ter. A Europa, a sua posição no mundo e o lugar de Portugal nesse processo foi um dos temas que mais interessou o economista, que é agora relembrado num livro a ser apresentado na próxima quarta-feira.

Lendo a obra, que é muito marcada pelos processos concretos do Portugal do último quarto do século anterior e pelo início do atual, é possível identificar vários problemas diagnosticados há muito, como a perda de competitividade europeia e como teria de conciliar transformação para uma nova economia mais competitiva e preservar o que pudesse do seu estado social. Mas não só. “Certamente que há um problema de insuficiência de liderança. Podemos mesmo dizer que as classes políticas na Europa não são de excelência (…). O problema é se, sim ou não, as nações e a sociedade europeia no seu conjunto são capazes de produzir elites dirigentes. E aí é que eu digo que está o problema central”, afirmou em entrevista ao Expresso em 1997.

Ainda sobre a Europa: “perante uma situação que se poderá definir como “the end of good life”, os europeus parecem afinal continua a acreditar em “la doceur de vivre” e, em lugar de prepararem o futuro reinventando o seu modelo económico-social, limitam-se a constatar esporadicamente que é preciso tomar medidas”, afirmou em março de 2003. E já em 1991 se falava de outro tema que, tanto tempo depois, voltou a estar quente, o perigo de os Estados Unidos da América se começarem a desinteressar dos problemas europeus e haver, do lado de cá, um vazio por preencher se tal acontecesse. Soa-lhe atual?

Esta sua visão dos problemas é um ponto forte de “Ernâni Lopes: vida e pensamento”, o livro que será editado na próxima semana e que recolhe testemunhos de pessoas com quem ele trabalhou mas sobretudo dá corpo às próprias palavras do economista, através da publicação de entrevistas saídas na imprensa ou de intervenções públicas do próprio.

Para além da Europa, Ernâni Lopes deu atenção aos temas da nossa relação com o resto do mundo, nomeadamente com a Ásia e sobretudo o continente africano, defendendo um aprofundamento real e concreto da CPLP que, na verdade, ainda não aconteceu.

Não afirmava qualquer posicionamento de esquerda ou de direita, preferindo olhar para problemas concretos de forma analítica e propor soluções. Ainda assim, acreditava e trabalhou para que Portugal se inserisse na economia de mercado ocidental, defendendo um equilíbrio entre políticas liberalizantes e o papel do Estado, cujo peso o tornou sempre central em qualquer política económica.

Depois da intervenção do FMI dos anos 80 e da nossa entrada na CEE, o economista centrou-se na busca de uma melhoria da organização e competitividade portuguesas. Pedia planeamento e contribuía para o mesmo, pedindo a definição de prioridades e o desenho de medidas concretas de aplicação efetiva. Talvez pela sua ligação histórica à Marinha, defendeu de forma muito assertiva – e até prolongada no tempo – que o “Hypercluster do Mar” devia ser uma das nossas prioridades, desenhando uma estratégia para esse fim.

Dar-se ou não um sentido de festa à vida é uma opção. Não tem sido a minha. O que me norteia é a construção do futuro. O que desde sempre me preocupou e interessou é a nossa existência como Nação e o conjunto de Portugal.

Ernâni Lopes

Em 1983, numa entrevista ao Expresso, acabou por dar uma resposta curiosa e significativa a uma pergunta de Maria João Avillez, que queria saber se, debaixo da capa de homem sério e trabalhador, não havia também um gosto “pela festa, pelo prazer”. “Dar-se ou não um sentido de festa à vida é uma opção. Não tem sido a minha. Valorizo mais o lado… bem… aquele que você chama “sério”. O que me norteia é a construção do futuro”, afirmou então, acrescentando que “o que desde sempre me preocupou e interessou é a nossa existência como Nação e o conjunto de Portugal”.

Economista de formação, Ernâni Lopes acabou por estar ligado a vários momentos críticos da história da transição do Portugal do pós-25 de abril para a entrada na então Comunidade Económica Europeia (CEE).

Nascido em 1942, foi um aluno exemplar e licenciou no ISCEF (atual ISEG) em 1964, terminando com a melhor prestação da turma. Seguiu-se o serviço militar na Armada, durante três anos, e que lhe deixou uma ligação às Forças Armadas, nomeadamente à Marinha, de grande proximidade durante toda a vida.

Em 1967, integra o Banco Portugal, inicialmente como assistente técnico do Serviço de Estatística e Estudos Económicos, chegando em 74 a diretor dessa unidade. Logo um ano depois, e após o 25 de abril, aceita uma missão internacional que se revelaria importante para o próprio País. É nomeado embaixador português em Bona, na então República Federal Alemã. Esteve no cargo até 1979 e, nos anos pós-revolução portuguesa, foi essencial para assegurar o apoio alemão e europeu aos esforços nacionais para um caminho democrático. Em julho de 1975 foi convidado pelo governo alemão a participar numa importante reunião com a presença do presidente norte-americano, Gerald Ford, e do seu secretário de Estado Henry Kissinger, na qual a situação portuguesa foi analisada e Ernâni Lopes impressionou pela sua defesa do apoio internacional à consolidação do modelo democrático em Portugal.

Entre 1979 e 1983 foi embaixador enquanto chefe de Missão de Portugal junto das Comunidades Europeias, contribuindo largamente para o processo prévio que resultaria à adesão portuguesa à CEE, em 1986, juntamente com Espanha.

Antes disso, em 1983, regressa a Portugal aceitando o convite de Mário Soares para ser ministro das Finanças e do Plano, num momento em que o País estava numa situação de grave desequilíbrio financeiro. Coube a Ernâni Lopes negociar com o FMI e implementar um plano de austeridade, que apresentou de forma crua e realista. “Não vos escondo que a terapêutica será dolorosa, nem ignoro a exata dimensão dos novos sacrifícios que o Governo pedirá aos portugueses, a todos os portugueses“, afirmou na apresentação do Programa do Governo, em junho desse ano. “Não existe, porém, outro caminho , exceto nas quimeras dos eternos vendedores de ilusões. E creio que nenhum esforço nem nenhum sacrifício podem ser excessivos, quando estão em causa a independência nacional e a nossa condição de povo que sabe querer o seu lugar na História“, acrescentou.

É do seu período no Governo o lançamento de várias iniciativas marcantes, como a introdução do IVA, o início da abertura do setor bancário a privados, a reabertura do mercado de capitais ou a criação do Conselho Permanente da Concertação Social.

Para além do combate aos desequilíbrios da nossa economia, foi muito importante no processo de adesão à CEE, que foi assinada a 12 de junho de 1985. O Governo, que já estava em gestão, terminou mandato em novembro desse ano. Voltou então ao Banco de Portugal, instituição na qual foi consultor até 1989 e posteriormente membro do Conselho Consultivo até 2003.

Não voltaria a desempenhar cargos de nomeação política, apesar dos vários convites. Uma constante do seu percurso, tirando nesses momentos de responsabilidade política, é a atividade de professor, começando pelo ISCEF mas com particular ênfase na relação com a Católica.

Foi consultor de empresas, nacionais e estrangeiras, e em 1988 fundou a SaeR – Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco, da qual foi sócio-gerente até ao fim da vida. Foi ainda autor e coordenador de inúmeros estudos sobre a economia portuguesa e a cooperação internacional.

Outra das facetas mais fortes da sua vida foi a sua fé, tendo colaborado em muitas iniciativas da igreja católica e procurando encontrar o lugar onde a economia e a gestão se cruzam com o credo religioso.

Ernâni Lopes faleceu em 2010, aos 68 anos, depois de uma vida dedicada ao ensino e ao serviço público, em inúmeros papéis. O homem que admitiu, numa entrevista, que à entrada para a universidade se confrontou “com a opção entre ser monge, ser militar ou ser professor universitário”, é agora alvo de uma homenagem por parte da Universidade Católica Portuguesa, instituição com a qual teve uma longa relação, na qual se doutorou e na qual foi professor, fundador e diretor do Instituto de Estudos Europeus.

Na próxima quarta-feira, decorre uma conferência que lhe é dedicada, e na qual lhe será atribuído o título de Economista Emérito, com a sua presença da sua família. O evento, que será encerrado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, servirá também para o lançamento do livro que recorda o seu pensamento.

 

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