Projeto offshore da EDP e da Engie nos EUA arrisca atrasos “significativos” e custos mais elevados
Projeto da EDP e Engie nos EUA "continua viável", mas enfrenta um teste de stress político e jurídico. "O mais provável é que sobreviva com atrasos e custos acrescidos", escrevem os analistas.
Na passada terça-feira, a Reuters noticiou que a administração norte-americana, liderada por Donald Trump, vai reconsiderar as licenças concedidas à Ocean Winds — empresa conjunta entre a EDP Renováveis e a Engie — relativas ao projeto de energia eólica offshore SouthCoast Wind.
A agência de notícias citava um documento que consta de um processo que havia dado entrada no tribunal federal daquele país. Contactada pelo ECO/Capital Verde, a Ocean Winds confirma que está “a par” de uma moção apresentada pelo Departamento de Justiça, numa ação movida pela cidade de Nantucket.
“Os procedimentos judiciais correntes estão a ser geridos através dos meios legais apropriados e podem demorar várias semanas“, acrescenta a OW. A mesma sublinha que “o projeto SouthCoast Wind ainda não tem uma decisão final de investimento“.
A empresa indica que o plano de construção e operações da Southcoast Wind foi aprovado a 17 de janeiro pelo Departamento de Gestão de Energia do Oceano, depois de uma avaliação “rigorosa” que se prolongou por quatro anos, e que incluiu a contribuição de agências governamentais e federais, assim como entidades comerciais ligadas ao oceano e outras partes interessadas.
Independentemente disto, “a decisão do Departamento do Interior dos EUA de reavaliar a aprovação do SouthCoast Wind cria um quadro de incerteza significativo para a Ocean Winds“, entende João Queiroz, Head of Trading do Banco Carregosa. Na sua visão, o projeto está perante um “risco político-regulatório que poderá alterar profundamente o seu calendário e sua viabilidade económica”.
O SouthCoast Wind continua viável, mas enfrenta um teste de stress político e jurídico. O mais provável é que sobreviva com atrasos e custos acrescidos.
Para o responsável do Banco Carregosa, “o SouthCoast Wind continua viável, mas enfrenta um teste de stress político e jurídico. O mais provável é que sobreviva com atrasos e custos acrescidos”, isto é, sem anulação formal do plano de construção e operação. Para Henrique Tomé, analista na XTB, os atrasos na execução podem ser “significativos”. Isto “comprometeria a entrada em operação na data prevista, com reflexos diretos na geração de receita“, assim como na credibilidade perante entidades reguladoras, parceiros institucionais e investidores.
Já “o pior cenário passa por uma anulação que obrigue a reiniciar o processo [com novos estudos e condições ambientais], com perdas crescentes“, entende Queiroz. As perdas económicas, contabiliza o analista Henrique Tomé, da XTB, podem passar tanto por custos já incorridos em estudos, licenciamento e contratos, “dificilmente recuperáveis”, como também por penalizações contratuais e deterioração das condições de financiamento, com custos de capital mais elevados.
A possibilidade de o investimento ser cancelado pode ser particularmente negativa para as contas da empresa, tendo em conta que em 2024 a EDP Renováveis fechou o ano com prejuízo superior a 500 milhões de euros.
Em paralelo, para a EDPR, enquanto empresa cotada, “acresce o risco de uma perceção negativa nos mercados, com impacto na valorização das ações e na capacidade de atrair novos investidores”, complementa Henrique Tomé, que fala também na possibilidade de a rentabilidade esperada ficar aquém do previsto, reduzindo a criação de valor para os acionistas.
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Questionada sobre o investimento feito, até ao momento, no projeto, assim como sobre possíveis perdas económicas decorrentes da ação em tribunal, a EDPR remeteu para a OW, a qual por sua vez optou por não adiantar números.
Queiroz estima que a exposição da EDPR e da Ocean Winds nos Estados Unidos e no segmento da energia eólica offshore “é relevante, mas, até ao momento, controlada”. Como o SouthCoast Wind ainda não atingiu a decisão final de investimento (FID), as perdas diretas concentram-se sobretudo em custos de desenvolvimento capitalizados, pagamentos de arrendamento e compromissos iniciais com a cadeia de fornecimento, enumera.
O responsável de Trading do Banco Carregosa alerta ainda que “é plausível” que surjam imparidades sobre intangíveis ou direitos de desenvolvimento, “mas dificilmente se aproximarão dos casos extremos já vistos”, como os da Ørsted, que reconheceu imparidades de vários milhares de milhões de dólares quando cancelou Ocean Wind 1 e 2. Espera que, no caso da EDP, as imparidades se fiquem pelas “dezenas a poucas centenas de milhões, caso se confirme um cenário de atraso prolongado ou anulação”.
A empresa antecipava um aumento de 13% no lucro recorrente em 2025, que tinha em conta este novo investimento. “A possibilidade de o investimento ser cancelado pode ser particularmente negativa para as contas da empresa, tendo em conta que em 2024 a EDP Renováveis fechou o ano com prejuízo superior a 500 milhões de euros”, relembra ainda Henrique Tomé.
O projeto, com potencial até 2,4 gigawatts e localizado a 20 milhas náuticas de Nantucket, já enfrentava desafios após a saída da Shell do capital (a petrolífera detinha 50% do projeto, que vendeu à OW) e um cancelamento dos contratos de compra de energia em 2023, recorda o Banco Carregosa.
Agora, reapreciação e ‘charme’ institucional
Na ótica do Banco Carregosa, a OW tem duas ‘frentes de ataque’, face ao processo. Por um lado, no plano jurídico, a EDPR e a Ocean Winds deverão procurar que o tribunal permita a reapreciação sem anular o plano. Por outro lado, ao nível comercial, será fundamental “reancorar” o projeto ao mercado através de novos contratos e condições que ofereçam maior previsibilidade aos financiadores, incluindo maior flexibilidade contratual com fornecedores e potenciais parceiros de capital.
Em termos institucionais, uma frente unida com partes interessadas locais — desde autoridades regionais a comunidades de pescadores — pode ser importante para contrariar possíveis alianças entre a administração e estados federais, defende Queiroz. A ideia é elevar o nível de transparência e demonstrar benefícios económicos claros, transparentes e diretos. “É essencial reforçar o diálogo com entidades reguladoras e governamentais, garantindo transparência e colaboração no processo de licenciamento e aprovação”, reforça Henrique Tomé.
Olhando à estratégia, Queiroz afirma que “é também o momento para reavaliar a alocação de recursos dentro do “portefólio” de ativos, privilegiando geografias mais estáveis ou ativos regulados“. Já Henrique Tomé indica que a solução de situações semelhantes tem passado pelas empresas aumentarem o seu investimento na economia americana, de forma a que a administração Trump possa desmaterializar os bloqueios apresentados.
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