Dos mercados de capitais às ‘stablecoins’: o guia de Cavaco Silva para enfrentar um mundo em mudança
Antigo Presidente da República defende avanços nas reformas estruturais e no aprofundamento do mercado de capitais, mas também do reforço do euro e do investimento em Defesa.
O antigo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva defendeu esta quinta-feira que é “mais difícil ter convicções claras” neste novo momento de mudança do que aquando da queda de Muro de Berlim e deixou um guia de recomendações para enfrentar os atuais desafios.
“Antes falávamos de paz e de desarmamento, hoje fala-se de guerra e de rearmamento e o posicionamento estratégico das potências mundiais era então bastante mais claro do que é hoje“, afirmou o antigo Chefe de Estado, durante uma conferência do Financial Times sobre “a posição de Portugal numa ordem global em mudança”, na Nova SBE, em Lisboa, onde participou como orador.
Neste sentido, considerou que “o reforço da posição internacional de Portugal numa ordem mundial em mudança é indissociável do seu contributo para o aumento do poder global da União Europeia e para a redução dos seus atrasos em relação aos Estados Unidos da América e à China”.
Na sua intervenção, Cavaco Silva deixou nove ideias-chave:
Avançar com reformas estruturais
O antigo Presidente da República apelou a que o poder político português concretize “as reformas estruturais há muito reconhecidas como indispensáveis ao aumento do crescimento da produção interna, da produtividade, da competitividade externa e da atração do investimento estrangeiro”, argumentando que o aumento da dimensão média das empresas é uma variável “da maior importância”.
Aprofundamento do mercado interno europeu
Para Cavaco Silva é essencial aprofundar o mercado interno europeu, “reduzindo os obstáculos burocráticos e regulatórios ao desenvolvimento do comércio em bens e serviços dentro do espaço da União Europeia. Por isso, considera que “reduzir as barreiras ao comércio inter-regional é uma medida decisiva para reforçar a produtividade e a competitividade europeia.
Integração dos mercados de capitais
O antigo Chefe de Estado considerou “urgente completar a arquitetura da União Económica e Monetária“, aprofundando e integrando “os mercados de capitais dos Estados-membros, de modo a aumentar a liquidez de uma ampla oferta de ativos financeiros sem risco”.
“É uma medida decisiva para reduzir os custos e para diversificar as fontes de financiamento do investimento produtivo das empresas, aumentar a oferta de capital de risco, travar a emigração da poupança das famílias europeias para os Estados Unidos da América“, elencou.
Cavaco Silva defende aprofundamento do mercado de capitais para estancar fuga de poupanças das famílias para os Estados Unidos.
BCE não deve atrasar decisão sobre Euro digital
O reforço do papel do Euro também foi defendido pelo ex-Presidente da República, que considerou ainda que “o Banco Central Europeu (BCE) não deve atrasar-se na sua decisão sobre os criptoativos, o euro digital, e sobre a criação ou não de stablecoins ligadas ao euro”.
“Os benefícios do aumento do estatuto mundial do Euro são enormes, o que pressupõe força económica e credibilidade geopolítica das instituições que o suportam, como afirmou em junho passado Christine Lagarde”, recordou.
Investimento em Defesa
A ameaça da Rússia e a nova Administração norte-americana “tornaram evidente a urgência de a União investir mais em defesa” considerou. É por isso que defende que a Europa “não pode hesitar no apoio à Ucrânia e na imposição de sanções à Rússia“, apelando a uma “coordenação efetiva entre os Estados-membros, de modo a reduzir a fragmentação da indústria europeia de defesa e para que ganhe escala competitiva a nível internacional”.
Sobre esta matéria, considera ainda que “a dimensão do esforço financeiro que é necessário fazer vai exigir certamente o recurso à mutualização da dívida europeia”.

“Potencialidades” dos acordos de livro comércio com países terceiros
Perante a atual incerteza internacional, da qual é especialmente crítico, considerou que o acordo entre a União Europeia e os Estados Unidos não significa o fim da tensão comercial e que é também necessária uma posição firme face à China.
Segundo o antigo Presidente é estratégico para Portugal “o pleno aproveitamento das potencialidades dos acordos de comércio livre da União com países terceiros, como é o caso do Canadá, do Japão, da Coreia do Sul, do México e do Mercosul“.
Investimento em inovação
O antigo Presidente destacou também, como opção estratégica, que “Portugal deve defender no quadro europeu, a expansão do investimento em inovação para o mercado e nas tecnologias digitais, o apoio às indústrias de futuro, o reforço da coordenação entre os Estados-membros na área industrial”, bem como “a criação de uma união europeia da energia que promova a redução dos custos energéticos para as empresas e para os cidadãos”.
Alargamento da UE aos países dos Balcãs
Para Cavaco Silva, uma outra opção estratégica europeia que Portugal deve assumir é a do alargamento da União aos países dos Balcãs ocidentais”. Neste sentido, argumentou que, além da necessidade de os países estarem preparados para a adesão e de cumprirem os critérios de Copenhaga, “é fundamental que a União esteja preparada para os acolher sem pôr em causa o seu funcionamento”.
Assim, defende “uma alteração do Tratado da União Europeia que elimine a regra da unanimidade nas decisões do Conselho“, argumentando que “do alargamento deve resultar uma União mais forte e não uma União enfraquecida”.
Cavaco Silva defende “uma alteração do Tratado da União Europeia que elimine a regra da unanimidade nas decisões do Conselho”.
Renovação da ambição
Aníbal Cavaco Silva propõe também “uma frente europeísta, com convicção, que contrarie os desenvolvimentos eurocéticos e populistas em alguns Estados-membros da União“. “Creio também que a União Europeia não pode cair numa nova “esclerose”, como existia antes do Acto Único Europeu de 1985, em que se dá por satisfeita com o que existe. Há que renovar a ambição e o ímpeto de tornar a União mais forte, mais coesa e visível”, apontou, acrescentando que “Portugal deve estar na linha da frente dessa frente europeísta”.
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