Vista Alegre vende empresa na Índia e ‘assina’ com gigante do luxo. Energia corta 8% ao lucro

Empresa detida pela Visabeira e Cristiano Ronaldo fecha acordo com retalhista Oma Living após alienar participação na subsidiária indiana. Exportações valem três em cada quatro euros faturados.

A Vista Alegre desfez-se da participação de 50% que tinha na subsidiária na Índia que exercia a atividade comercial naquele país e em que tinha como sócio o conglomerado Shree Sharda Group. O negócio foi concretizado durante o primeiro semestre deste ano, período em que a empresa viu os lucros baixarem 8,4% em termos homólogos, para 3,6 milhões de euros, pressionados pelo crescimento de 35% nos custos com energia.

Contactada pelo ECO, a empresa controlada pela Visabeira recusou esclarecimentos sobre o valor e as motivações para a venda, assim como pronunciar-se sobre o futuro dessa sociedade na Ásia, mas confirmou que “foi redefinida a estratégia em termos de presença no canal retalho, estabelecendo uma nova parceria” com a Oma Living, que apresenta como “o maior player indiano na área da casa & decoração”.

“Com a sua rede alargada de lojas de luxo deste segmento, nas principais cidades da Índia, permitirá um incremento da exposição dos produtos da marca Vista Alegre, um aumento da notoriedade da marca e crescimento das vendas naquele país”, apontou a administração da empresa portuguesa, que “encara a Índia como um mercado absolutamente relevante para o seu crescimento na Ásia”.

A Vista Alegre encara a Índia como um mercado absolutamente relevante para o seu crescimento na Ásia. Foi redefinida a estratégia em termos de presença no canal retalho, estabelecendo uma nova parceria com o maior player indiano na área da casa & decoração.

Administração da Vista Alegre

No relatório financeiro intercalar relativo ao primeiro semestre deste ano, a empresa de Ílhavo descreveu que foi “formalizada a venda de 49% da participação detida pela Vista Alegre Atlantis S.A. à Shree Sharda” e que “a 7 de abril de 2025 foi formalizada a venda pela Vista Alegre de 1% do capital social da sociedade”.

Com sede em Deli, a Shree Sharda Vista Alegre Private Limited era responsável pela comercialização dos produtos de porcelana, cristal, louça de forno, faiança e vidro manual no mercado indiano, como descrito em anteriores comunicações ao mercado. Porém, segundo a informação mais recente consultada pelo ECO, nos últimos dois anos não teve qualquer atividade ou contributo para os resultados.

Reportagem Fábrica Vista Alegre em Ílhavo - 29NOV24
Fábrica de porcelana emprega 650 pessoas em ÍlhavoHugo Amaral/ECO

Na primeira metade deste ano, em que a despesa energética subiu cerca de 1,4 milhões de euros e impactou negativamente a margem EBITDA (21,2%) e os lucros da companhia — caso esses custos se tivessem mantido, os resultados teriam sido “superiores em cerca de um milhão de euros face a 2024”, descreveu à CMVM –, o volume de negócios progrediu 9,6% face ao período homólogo até aos 70,2 milhões de euros.

Embora a comercialização em Portugal até tenha subido 240 mil euros até junho, os mercados internacionais continuam a ser o principal motor de crescimento: equivalem a 76% da faturação, com Alemanha, Espanha e França como os principais destinos. Excluindo os países europeus, o Brasil e os EUA, que são desagregados nas contas, contabiliza que as restantes geografias, em que se destacam a Ásia e o Médio Oriente, somaram 4,7 milhões de euros às vendas da empresa.

É precisamente no Médio Oriente e na Ásia que a empresa portuguesa está a montar “em partes iguais” com Cristiano Ronaldo uma filial com o objetivo de fazer crescer as marcas Vista Alegre e Bordallo Pinheiro naquelas geografias. Uma parceria que avançou no âmbito do acordo fechado no verão do ano passado e que levou o futebolista a entrar como investidor ao comprar 10% da holding Vista Alegre Atlantis e ao ficar também com 30% do capital da subsidiária em Espanha.

Bazuca ‘aquece’ descarbonização

Com seis fábricas em Portugal e perto de 2.400 funcionários, a empresa comprada em 2009 pelo grupo Visabeira, que controla a companhia com uma posição de 82%, reduziu em meio ano e no montante de 3,2 milhões de euros a dívida líquida consolidada, considerando o valor de incentivos não reembolsáveis a receber. A 30 de junho, este indicador batia nos 70,7 milhões de euros.

No final do primeiro semestre contabilizava 3,2 milhões de euros em subsídios ao investimento atribuídos ao grupo no âmbito das agendas mobilizadoras do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Além de liderar o projeto Ecocerâmica e Cristalaria de Portugal, que envolve 30 entidades representativas do setor, também participa no consórcio dedicado às tecnologias de produção (Produtech R3) em que está a ‘demonstrar’ na fábrica uma máquina para detetar defeitos em pratos cerâmicos.

Reportagem Fábrica Vista Alegre em Ílhavo - 29NOV24

Por outro lado, na frente da descarbonização, que assume como “prioridade” nos 7,5 milhões investidos entre janeiro e junho, a empresa que trocou Marques Mendes por José Luís Arnaut na presidência da assembleia geral está a adaptar os principais fornos a novas fontes e vetores de energia, como biocombustíveis e hidrogénio verde, ou a aproveitar o ar quente dos fornos para pré-aquecimento e secagem, reduzindo a necessidade de energia para que atinjam a temperatura máxima.

No relatório financeiro intercalar relativo ao primeiro semestre, a empresa contabilizou ainda que, a 30 de junho, existiam prestações suplementares efetuadas pela Visabeira Indústria SGPS no montante de 38,2 milhões de euros, mas que “não poderão ser reembolsadas ao acionista se, após essa operação, os capitais próprios individuais da empresa ficarem inferiores à soma do capital social e da reserva legal”.

Reportagem Fábrica Vista Alegre em Ílhavo - 29NOV24
Fábrica Vista Alegre em ÍlhavoHugo Amaral/ECO

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