Das gigafábricas ao Mercosul, economia europeia “já está a responder” às medidas de Draghi

  • Joana Abrantes Gomes
  • 16 Setembro 2025

Comissão Europeia diz que já adotou 47 medidas do relatório elaborado pelo ex-presidente do BCE, mas Draghi critica a “lentidão” e a “inércia” do bloco europeu no que respeita à competitividade.

Numa altura em que se assinala um ano desde a divulgação do relatório sobre a competitividade económica da União Europeia (UE), elaborado por Mario Draghi, a Comissão Europeia dá conta de que, desde janeiro, já foram adotadas 47 medidas propostas no documento, das quais 33 iniciativas principais e 14 iniciativas legislativas.

Entre os “resultados tangíveis” mencionados pelo Executivo comunitário num relatório divulgado esta terça-feira incluem-se 200 mil milhões de euros de investimento em inteligência artificial (IA), sendo que 20 mil milhões destinaram-se às gigafábricas (cujo lançamento do concurso está previsto para o final do ano); 150 mil milhões de euros no âmbito do SAFE, o instrumento para Segurança e Defesa; e mais de 100 mil milhões de euros para a produção de tecnologias limpas e a descarbonização industrial.

Adicionalmente, são também referidos os 70 mil milhões de euros, através do TechEU, para empresas inovadoras; os 500 milhões de euros para atrair os melhores cientistas mundiais através do Choose Europe; e ainda a assinatura dos acordos comerciais com o Mercosul e o México, estando próximos de concluir os acordos com a Índia e a Indonésia.

Quanto aos projetos transfronteiriços já em curso, a Comissão Europeia destaca “o lançamento das primeiras cinco gigafábricas de IA”, “a implantação de uma infraestrutura de carregamento de camiões em 11 Estados-membros para descarbonizar o transporte de mercadorias” e “o desenvolvimento de interligações estratégicas para expandir a eletricidade limpa e barata e garantir um abastecimento estável”.

Há cerca de um ano, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o antigo primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, apresentavam o relatório final sobre o futuro da competitividade da UE, em Bruxelas.EPA/OLIVIER HOSLET

O Executivo comunitário diz ainda que a economia da UE já está a responder a estes investimentos, nomeadamente com um crescimento do PIB da UE de 1,1% este ano e de 0,9% na Zona Euro, prevendo aumentos de 1,5% e 1,4%, respetivamente, em 2026. No campo do emprego, foram criados 732 mil postos de trabalho, enquanto o desemprego no bloco está nos 6,2%.

A produtividade, por sua vez, cresceu 0,4% no último trimestre de 2024, e os empréstimos e obrigações internacionais aumentaram 40%, para quase 900 mil milhões de dólares, o que equivale ao valor mais alto desde 2007-2009, período marcado pelo espoletar da crise do euro.

“Com mais de metade das iniciativas já concretizadas e mais de um bilião de euros mobilizados em inovação, tecnologias limpas e segurança, a Comissão Europeia está a garantir que a UE se mantém competitiva, sustentável e resiliente — e no bom caminho para atingir a sua meta de adoção de 75 % até ao final de 2025“, refere a instituição no documento publicado esta terça-feira.

Numa conferência em Bruxelas, esta terça-feira, sobre a implementação das recomendações do relatório Draghi, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, comprometeu-se com uma “mentalidade de urgência” até que as propostas do documento sejam tornadas realidade.

“A minha nova Comissão tomou posse há nove meses e a primeira iniciativa do novo mandato foi a nossa Bússola para a Competitividade, que traduz o relatório [Draghi] em políticas práticas. Depois, esforçámo-nos por correr na sua implementação. (…) Esta é a mentalidade de urgência que prometemos e manteremos implacavelmente o rumo até que tudo isso seja feito“, afirmou.

Von der Leyen reconhece, contudo, que a UE deve concentrar-se “no impacto real no terreno”. “A competitividade tem a ver com empregos. Trata-se de bons salários para as pessoas e bons lucros para as empresas. É sobre o nosso modo de vida”, acrescentou.

A líder do Executivo comunitário defendeu também a remoção de obstáculos para aproveitar o potencial de atividades como startups de IA ou do lítio em Portugal e do corredor do Lobito em Angola.

Draghi critica lentidão da UE

Não obstante, apesar dos dados revelados esta terça-feira pelo Executivo comunitário, Draghi criticou a lentidão e a inércia do bloco no que respeita à competitividade, apelando a uma nova dinâmica para que sejam obtidos resultados “em meses, não em anos”.

As empresas e os cidadãos […] manifestam uma frustração crescente, estão desiludidos com a lentidão com que a UE atua”, apontou o ex-primeiro-ministro italiano e antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE), intervindo na mesma conferência.

Draghi defende que a opção por uma nova via de competitividade significa que os Estados-membros devem “atuar em conjunto e não fragmentar os esforços” e “concentrar os recursos onde o impacto é maior”.

Antes de ser apresentado o relatório da Comissão Europeia, dados divulgados pela organização europeia de lóbi Conselho Europeu para a Inovação Política (EPIC, na sigla em inglês) revelavam que, do total de 383 recomendações apresentadas no relatório Draghi, apenas 11,2% (43 medidas) foram totalmente cumpridas.

Contando com os progressos parciais, o EPIC estima que a UE já tenha implementado 31,4% (77 medidas) das iniciativas defendidas por Mario Draghi, estando o resto em curso (46%, 176 medidas) ou por aplicar (22,7%, 87 medidas).

Esta organização fala em “disparidades setoriais marcantes”, especificando que os transportes e as matérias-primas críticas estão à frente, impulsionados pela segurança da cadeia de abastecimento e pela transição para veículos elétricos, enquanto as áreas da energia e da digitalização estão atrasadas devido às diferentes sensibilidades políticas na UE, à regulamentação complexa e à propriedade fragmentada.

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