Corticeira Amorim reconhece perda financeira de três milhões com fecho da fábrica em Silves

Corticeira faz “balanço muito positivo” da reestruturação dos segmentos não rolha. Contas mostram melhoria da rentabilidade na nova unidade de negócios do grupo, que cortou 238 empregos no último ano.

O encerramento da unidade de produção de cortiça em Silves, no Algarve, teve um impacto financeiro de quase três milhões de euros para a Corticeira Amorim COR 0,58% , em resultado de gastos não recorrentes de 947 mil euros e uma imparidade extraordinária de dois milhões de euros, reconhecida na rubrica de depreciações.

“Estávamos conscientes que a deslocalização da unidade de Silves para Vendas Novas acarretaria custos associados a rescisões com colaboradores, desmontagem e transporte de ativos e redundâncias de equipamentos”, refere ao ECO a gigante corticeira, garantindo que os valores indicados no relatório e contas do primeiro semestre ficaram “em linha com o que tinha sido previsto”.

O fecho desta fábrica implantada nos anos 1960 apanhou de surpresa a Câmara de Silves e o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR). Iniciada a 9 de junho, a transferência para a unidade industrial no distrito de Évora, que também fabrica produtos de isolamento, foi decidida após uma “avaliação das capacidades produtivas” existentes nas instalações fabris da Amorim Cork Solutions.

Estávamos conscientes que a deslocalização da unidade de Silves para Vendas Novas acarretaria custos associados a rescisões com colaboradores, desmontagem e transporte de ativos e redundâncias de equipamentos.

Corticeira Amorim

Fonte oficial

Em maio, num comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o grupo corticeiro liderado por António Rios de Amorim explicou que a decisão se baseou “unicamente na eficiência operacional, considerando exclusivamente questões de mercado, capacidade instalada vs. dimensão do mercado e a localização do montado de sobro”.

No mesmo documento, a líder mundial do setor perspetivou ainda que a centralização da operação em Vendas Novas “beneficiará da maior proximidade da produção às matérias-primas utilizadas e da concentração dos investimentos necessários à obtenção de maior produtividade e competitividade no relançamento do negócio de cortiça expandida”.

Aos 31 trabalhadores foi dada a possibilidade de passarem a laborar nessa fábrica alentejana, a mais de 200 quilómetros, mas o grupo de Santa Maria da Feira reconheceu ainda antes do verão que essa solução não seria “viável para todos” e dizia estar disponível para “negociar condições justas de indemnização com os trabalhadores” que optassem por não o fazer.

Afinal, quantos funcionários aceitaram essa transferência e quais as indemnizações negociadas com os que optaram por sair? “A produção na unidade de Silves terminou no final de junho, como anunciado, mas o seu desmantelamento ainda se encontra em curso, pelo que só no final poderemos fazer um balanço, sendo que se mantêm as possibilidades anunciadas previamente”, responde ao ECO através de fonte oficial.

António Rios de Amorim, presidente da Corticeira AmorimPaulo Duarte/Bloomberg

Melhoria da rentabilidade na nova unidade de negócio

O encerramento desta fábrica no Algarve foi enquadrado na reestruturação que concentrou numa nova unidade de negócios (Amorim Cork Solutions) os três segmentos “não rolhaprodução de pavimentos, isolamentos e compósitos de cortiça. Iniciada em maio de 2024, foi concretizada através da incorporação da Amorim Cork Flooring (ACF) e da Amorim Cork Insulation (ACI) na sociedade Amorim Cork Composites (ACC), depois renomeada e reestruturada, passando o seu CEO João Pedro Azevedo a liderar esta nova estrutura em janeiro deste ano.

Ao fim de ano e meio faz um “balanço muito positivo” da criação da Amorim Cork Solutions, convicta de que o novo modelo organizativo vai permitir “assegurar uma maior integração, agilidade e foco estratégico”. “A melhoria da rentabilidade desta nova unidade de negócio irá demonstrar os efeitos de uma gestão mais efetiva das operações, da otimização dos ativos existentes e das sinergias geradas pela partilha de meios e recursos”, sublinha.

Por outro lado, a Corticeira Amorim assinala ainda ao ECO que este novo enquadramento está também a permitir “elevar os níveis de eficiência, tirando o máximo partido da capacidade instalada e das tecnologias disponíveis, com o objetivo de expandir a presença da empresa em novas geografias, com produtos diferenciados e de maior valor acrescentado”.

A Amorim Cork Solutions produz e comercializa artigos que utilizam a matéria-prima sobrante ou a cortiça que não pode ser utilizada da produção de rolhas. É o caso de revestimentos de solo, cortiça com borracha para a indústria automóvel e para aplicações antivibráticas, aglomerado expandido para isolamento térmico e acústico, aglomerados técnicos para a construção civil e calçado, ou granulados para a fabricação de rolhas técnicas e de champanhe.

Na primeira metade deste ano, as vendas desta nova unidade de negócios encolheram 25,6%, para 81,7 milhões de euros, impactadas negativamente pela alienação da dinamarquesa Timberman ao conglomerado sueco Volati. Excluindo este efeito, teriam baixado ‘apenas’ 11,9%. Apesar do aumento marginal nos preços de venda, o desempenho em volume continuou a ser o principal fator da queda orgânica neste indicador – com Portugal, EUA e Alemanha como os mercados em maior perda.

O EBITDA da Amorim Cork Solutions ascendeu a 7,1 milhões de euros até junho, acima dos 6,4 milhões no período homólogo. Apesar do impacto adverso da redução da atividade operacional, o relatório salienta a melhoria na margem EBITDA “impulsionada principalmente pela redução dos custos operacionais (em especial com pessoal, marketing, transporte e manutenção), refletindo os benefícios do processo de reorganização iniciado no ano passado”.

Menos 238 trabalhadores no espaço de um ano

Nas contas do primeiro semestre, o histórico grupo nortenho calcula uma diminuição aproximada de 1,1 milhões de euros nos gastos com pessoal (-1,1%) face à primeira metade do ano passado, que explica com a redução do número médio de colaboradores e a diminuição das despesas com fornecimentos e serviços externos (-9,6%) e nos transportes (-7,6%).

“A reestruturação do segmento de revestimentos e dos isolamentos é um processo iniciado já no ano passado, que resultou naturalmente numa gestão mais eficiente das operações. Relativamente à evolução dos custos no primeiro semestre de 2025, reflete também a redução dos níveis de atividade em alguns segmentos, em resposta à atual conjuntura dos respetivos mercados e à alteração do modelo de distribuição do segmento de revestimentos”, explica a empresa.

Segundo os dados facultados ao ECO pela Corticeira Amorim, a 30 de junho de 2025 contava com 4.640 trabalhadores em todo o mundo, o que compara com 4.878 um ano antes. A empresa sublinha, no entanto, que esta redução de 238 empregos de um ano para o outro reflete também a alteração, operada em alguns mercados, do modelo de distribuição próprio assente em filiais para um modelo assente em distribuidores.

Num “contexto de mercado desfavorável e de elevada incerteza decorrente das tarifas dos EUA”, a Corticeira Amorim segurou lucros de 36,8 milhões de euros no primeiro semestre, apesar da quebra de 5,5% nas vendas consolidadas. E a segunda metade do ano segue “desafiante”, influenciada por tensões geopolíticas e alterações nas dinâmicas do comércio internacional e nos padrões de consumo de álcool, “determinante” para a evolução do setor vitivinícola.

“Neste contexto, os esforços da Corticeira Amorim estarão concentrados na redução do nível de endividamento e na proteção da rentabilidade, através de iniciativas focadas na melhoria da estrutura de custos e na eficiência operacional”, perspetiva. Em paralelo, o grupo de Mozelos diz que continua a investir em Investigação e Desenvolvimento, com “foco na melhoria contínua dos produtos e na criação de novas soluções e aplicações da matéria-prima cortiça”.

Das folhas de Excel para o montado de sobro, a campanha de compra de cortiça de 2025 teve volumes de extração inferiores aos inicialmente esperados – a líder de mercado justifica-a com o mercado menos favorável nos vinhos e a consequente diminuição das necessidades desta matéria-prima — e trouxe uma nova redução dos preços, depois de no ano passado cerca de 10% da cortiça ter ficado por extrair na sequência da descida de 15% no preço médio pago à produção.

Sem querer comentar o potencial impacto no próprio negócio da empresa e para os consumidores finais da nova diminuição dos preços nesta campanha, que decorreu entre meados de maio e meados de agosto, a Corticeira Amorim prefere falar ao ECO numa “normalização dos custos da cortiça, após os aumentos significativos registados nas campanhas de 2022 e 2023”.

Espalhado um pouco por todo o território nacional, mas com o volume principal concentrado no eixo Beira Interior, Ribatejo, Alentejo e até ao Algarve, o montado de sobro ocupa uma área superior a 700 mil hectares, o que equivale a mais de 20% da floresta nacional. A Filcork, associação interprofissional desta fileira, calcula perto de 15 mil produtores de cortiça no país, embora muitos se dediquem também a outras atividades de exploração.

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