Francisco Pinto Balsemão (1937-2025), o jornalista, político e empresário que ambicionou deixar o mundo um lugar melhor
Jornalista, ex-primeiro-ministro e empresário, Balsemão deixou um legado indelével na política e na comunicação social do país. Morreu esta terça-feira, aos 88 anos.
“A Impresa atravessa ainda uma fase difícil e há um longo e, por vezes, sinuoso caminho a percorrer. Mas estou convencido de que estamos em boas mãos e que chegaremos, mais uma vez, a bom porto. E eu cá estarei, enquanto puder me sentir útil, na torre de comando para ajudar a difícil navegação. Se, um dia, que espero não chegue, concluir que não há outro remédio, cá estarei também para tomar decisões drásticas, isto é, com toda a franqueza, para vender, ficando claro que prefiro vender tudo a aceitar uma solução minoritária, mesmo que tentem disfarçá-la com Presidências honorárias ou coisas do género. Quando eu morrer, o assunto, como previsto e tratado, será resolvido no âmbito da Balseger.
Para não acabar este capítulo num tom fúnebre, transcrevo a seguir uma parte do discurso que fiz num encontro de Quadros da Impresa em 3 de fevereiro de 2018.
“Temos hoje em dia na empresa duas grandes árvores, a SIC e o Expresso. São árvores frondosas com diversos ramos que dão bons frutos, mas precisam de crescer, robustecer-se, dar ainda mais frutos.
Temos, além disso, plantados em desenvolvimento, vários arbustos. Estes arbustos também precisam de crescer e dar frutos. Não devemos, nem podemos, por outras palavras, menos florestais, viver apenas das receitas da SIC e do Expresso. Temos de criar e desenvolver novas fontes de receita.
Podem ser pequenas a princípio, mas podem crescer, se conseguirmos ser inovadores sem perder a nossa personalidade, a nossa cultura, os nossos valores.”
É isso que continuamos a fazer”
As palavras são de Francisco Pinto Balsemão e encerram o capítulo que dedica à SIC em “Memórias”, livro escrito em 2021 e no qual procura retratar a forma como, ao longo da sua vida, procurou deixar o mundo um lugar melhor do que o encontrou. “Hoje e sempre, a única obrigação moral que poderá ser exigida ao Homem, para que seja “mais do que matéria físico-química” é que procure deixar o Mundo onde nasceu, seja este a Terra ou algo mais vasto, melhor do que o encontrou”, escreve o ex primeiro ministro no final das quase mil páginas da obra.
Durante décadas conhecido como “o patrão dos media”, e apresentando-se como jornalista até ao final dos seus dias, Francisco Pinto Balsemão será sempre recordado como o fundador do Expresso e da SIC, meios sem os quais — e não é exagero afirmá-lo — Portugal teria sido um país diferente. Pior, certamente.
Jornalista, ex-primeiro-ministro e empresário, Balsemão deixou um legado indelével na política e na comunicação social do país. Morreu no dia 21 de outubro, aos 88 anos.
Francisco José Pereira Pinto de Balsemão nasceu em Lisboa a 1 de setembro de 1937. Era casado com Mercedes Presas Balsemão e pai de cinco filhos – Mónica, Henrique, Francisco Maria, Joana e Francisco Pedro, o atual CEO do grupo Impresa – e avô de 14 netos.
Estudou no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, e licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Cumpriu o serviço militar na Força Aérea Portuguesa, onde foi chefe de redação do meio de informação oficial da instituição, a revista “Mais Alto”, de 1961 a 1963, recorda a sua biografia.
Em simultâneo com a sua atividade de advogado, iniciou a carreira como jornalista no “Diário Popular”, jornal detido maioritariamente pelo seu tio, Francisco Balsemão, tendo ocupado os cargos de secretário da direção, de 1963 a 1965, e administrador da empresa, de 1965 a 1971.
Em 1969, integra a chamada “Ala Liberal”, como deputado independente na Assembleia da República, funções que ocupa até 1973. A 6 de janeiro de 1973, aos 35 anos, lança o semanário “Expresso”, do qual foi diretor até 1980.
Um ano depois, a 6 de maio de 1974, funda com Francisco Sá Carneiro e Joaquim Magalhães Mota o Partido Popular Democrático (PPD), agora Partido Social Democrata, sendo o seu militante n.º 1.
Foi deputado à Assembleia Constituinte em 1975 e vice-presidente, tendo sido membro da comissão que elaborou a Lei de Imprensa de 1975, a primeira após o 25 de abril de 1974. Em 1979 e em 1980, foi eleito deputado à Assembleia da República, pelo círculo do Porto. Em 1980, é nomeado ministro de Estado Adjunto do primeiro-ministro no VI Governo Constitucional e, na sequência da morte de Francisco Sá Carneiro, assume o cargo de primeiro-ministro de Portugal, de 9 de janeiro de 1981 a 9 de junho de 1983.
Em 1987, torna-se professor associado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, cargo que ocupa até 2002. No mesmo ano lança o Prémio Pessoa, importante galardão na área da cultura.
A 6 de outubro de 1992, com 55 anos, lança a SIC, o primeiro canal de televisão privado em Portugal, que rapidamente se tornou o canal mais visto do país, e em 2001 a SIC Notícias, o primeiro canal de informação.
Em simultâneo, ocupou algumas dezenas de cargos e funções, tanto a nível nacional como internacional. A título de exemplo, foi membro do Steering Comitttee dos Bilderberg Meeting de 1983 até 2015, vice-presidente da Fundação Journalistes em Europe de 1995 a 2003; presidente do Conselho Consultivo da Fundação Oriente de 1988 a 2000; membro do Conselho Geral da Fundação Mário Soares, desde 1991 até 2020; presidente do European Publishers Council, de 1999 a 2004; membro não-executivo do Conselho de Administração do Daily Mail, de 2002 a 2017; membro do Conselho Assessor Internacional do Banco Santander, de 2004 a 2014; membro do Comité de Direção do Foro Iberoamérica (2004 – 2022) e Copresidente (2018 – 2022); presidente do Conselho Geral da PMP – Plataforma de Media Privados (desde 2014); presidente da Comissão Diretiva dos Encontros de Cascais (desde 2018); membro do Conselho Geral da APDSI – Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação (desde 2019).
Em 2008, nas comemorações dos 35 anos do Expresso, é convidado para voltar a dirigir o jornal por uma semana no número de aniversário. Também nesse ano, por unanimidade, o Secretariado da Comissão da Carteira Profissional do Jornalista decidiu entregar a Francisco Pinto Balsemão a carteira profissional de jornalista, com o seu número original da década de 60, o nº18, por, entre outras razões, “ser público e notório que Francisco Pinto Balsemão sempre defendeu a liberdade de expressão do pensamento, o direito à informação e os valores éticos e deontológicos da profissão”.
Em 2021, lança o seu livro “Memórias”, que chegou à quarta edição e se tornou num dos livros de biografias/memórias de autores portugueses mais vendidos, convertido em podcast em 2025 e com a sua voz clonada por inteligência artificial.
Dois anos depois, em 2023, cria um dos primeiros podcasts do Expresso, “Deixar o Mundo Melhor”, por ocasião das comemorações dos 50 anos do jornal. Francisco Pinto Balsemão entrevistou 50 personalidades marcantes dos mais diversos setores da sociedade. Seguiu-se em 2024 o podcast “IA – A próxima vaga”, com uma série de debates sobre o impacto atual e futuro da Inteligência Artificial em diversas áreas da nossa vida em sociedade.
Ao longo da sua vida, Francisco Pinto Balsemão recebeu dezenas de prémios e várias ordens honoríficas, tanto em Portugal como no exterior. “Senti-me muitas vezes injustiçado. Todos nós, exceto talvez os santos (e mesmo esses…), gostamos, precisamos, já não digo da gratidão, mas, pelo menos, de reconhecimento das diversas comunidades profissionais, culturais, sociais onde, ao longo da vida, nos inserimos e, com ou sem remuneração monetária, procuramos dar a nossa melhor contribuição para que determinados objetivos sejam alcançados. Por isso, quem escreve umas Memórias (que, insisto, não têm a preocupação científica de uma autobiografia) procura também assinalar o que os outros, que, por natureza, são ingratos, esqueceram ou fingiram esquecer ou mesmo escondem, por inveja, por despeito, por medo que isso prejudique o que pretendem que deles próprios permaneça. As condecorações compensam em parte essa sensação de ingratidão, de que fizemos muito e ninguém o reconhece e, muito menos, agradece”, escreve no capítulo final das suas Memórias.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Francisco Pinto Balsemão (1937-2025), o jornalista, político e empresário que ambicionou deixar o mundo um lugar melhor
{{ noCommentsLabel }}