Novobanco e Montepio ‘enterram’ 65 milhões de euros no Parque Marconi

Parque Marconi foi vendido por 40 milhões que serão repartidos por Novobanco e Montepio. Banco perdem 65 milhões na insolvência de fundo imobiliário de José Guilherme. Terrenos têm novo projeto.

O Novobanco e o Banco Montepio deverão ter perdas de 65 milhões de euros com a insolvência do fundo imobiliário criado com o construtor José Guilherme há 20 anos, isto depois de a venda do Parque Marconi – a joia da coroa do fundo — ter rendido ‘apenas’ 40 milhões de euros, cerca de metade do valor a que estava registado nas contas do Invesfundo II, que está agora mais perto de ser liquidado.

Com mais de 80 lotes de terreno, o parque, localizado na Venteira, Amadora, foi colocado à venda há dois anos pelo administrador de insolvência do Invesfundo II, tendo mandatado a consultora imobiliária JLL para avançar com a operação. E só no início deste ano se encontrou um comprador, o grupo português Zume, uma promotora imobiliária do Centro e que já tem um projeto para aqueles terrenos: o condomínio Alto do Tejo, que prevê a construção de mais de 700 fogos entre apartamentos e moradias.

Alto do Tejo é o projeto que o Grupo Zume está a desenvolver no antigo Parque Marconi.DR Grupo Zume

Nem Novobanco nem Montepio, os dois maiores credores do fundo com exposições de 51,8 milhões e 52,4 milhões de euros, respetivamente, quiseram fazer comentários sobre este processo.

Da venda do Parque Marconi, os dois bancos receberão uma quantia de cerca de 19,5 milhões de euros. O administrador de insolvência já ordenou o pagamento de 18,5 milhões a cada uma das instituições. Agora, num rateio final, apresentou a proposta ao tribunal para um pagamento adicional de perto de um milhão de euros – que de pouco servirá para suavizar as perdas de mais de 32 milhões de euros que tanto Novobanco como Montepio irão ter com a insolvência do fundo imobiliário cujos ativos consistiam na prática aos lotes de terreno comprados em 2005 ao Fundo de Pensões da Companhia Portuguesa Rádio Marconi. Estavam avaliados em mais de 80 milhões nas contas do fundo.

Atrasos nas obras, PER e insolvência

O Invesfundo II faz parte de uma “família” de fundos criados na década de 2000 no seio do Grupo Espírito Santo (GES) para diversas apostas no setor imobiliário. Eram nove os Invesfundos ao todo, dos quais sobra apenas um, de acordo com a lista de registos da CMVM.

Em relação ao segundo dos Invesfundo, juntou o BES e o Banco Montepio no financiamento ao construtor José Guilherme, que faleceu no ano passado e que ficou conhecido pela “liberalidade” de 14 milhões de euros a Ricardo Salgado, o antigo presidente do BES.

O fundo já havia sido alvo de um PER em 2018 perante as dificuldades financeiras e para as quais contribuíram os vários atrasos na urbanização dos terrenos, disputas judiciais alguns episódios mais peculiares, como aqui demos conta. Em 2009, por exemplo, quando ameaçou ir para tribunal contra o Fundo de Pensões da Rádio Marconi por lhe ter adquirido um terreno adicional por oito milhões, quando o terreno em causa não pertencia ao fundo de pensões, mas a outra entidade.

Nos últimos anos, o Invesfundo II manteve esforços para desenvolver os terrenos e recebeu inclusivamente propostas pelo parque. Contudo, o preço e as condições “especiais” do mercado levaram as negociações com os interessados a um desfecho desfavorável.

Em 2022, e depois de a pandemia ter provocado novos atrasos, o fundo entrou num caminho sem retorno: foi para insolvência e está agora a um passo da liquidação.

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