Crescimento da Zona Euro tropeça em Paris

A atividade económica da área do euro acelerou em outubro para o ritmo mais forte dos últimos 17 meses, com a indústria e os serviços em alta, enquanto França derrapa e mina a confiança empresarial.

A economia da Zona Euro surpreendeu em outubro ao acelerar para níveis que não se viam há quase um ano e meio, impulsionada por um setor de serviços particularmente robusto e por uma indústria transformadora que regressou finalmente ao território de expansão. Mas nem tudo é animador: França continua a afundar-se e a fragilidade persiste, com a confiança empresarial a recuar e as perspetivas futuras ainda envoltas em incerteza.

Segundo os dados mais recentes do índice composto de gestores de compras (PMI) da Zona Euro, divulgados esta sexta-feira pela S&P Global e pelo Hamburg Commercial Bank (HCOB), o PMI subiu para 52,2 pontos em outubro, contra 51,2 em setembro, marcando o décimo mês consecutivo de expansão e atingindo o valor mais elevado desde maio de 2024. O resultado ficou também acima das previsões dos analistas, que esperavam uma descida para 51 pontos.

A boa notícia chegou tanto do lado dos serviços como da indústria transformadora. O PMI dos serviços subiu para 52,6 pontos, o nível mais alto em 14 meses, enquanto o PMI da indústria transformadora atingiu exatamente os 50 pontos — a fronteira entre contração e expansão — após meses em território negativo.

A França está cada vez mais a tornar-se um entrave à economia da Zona Euro (…) Enquanto a situação económica na Alemanha melhorou significativamente em outubro, a taxa de contração acelerou durante dois meses consecutivos em França.

Cyrus de la Rubia

Economista-chefe do Hamburg Commercial Bank

“Este é um início inesperadamente bom para o trimestre final”, afirma Cyrus de la Rubia, economista-chefe do Hamburg Commercial Bank, em comunicado. O especialista sublinha ainda que “a atividade no setor de serviços aumentou significativamente e a produção no setor transformador subiu pelo oitavo mês consecutivo. Isto significa que a economia como um todo também está a mostrar um crescimento acelerado”.

Em termos de países, se a Alemanha foi uma boa surpresa — com o crescimento da atividade privada a atingir o nível mais alto em quase dois anos e meio — França tornou-se um verdadeiro travão, com a economia a registar o 14.º mês consecutivo de declínio na produção, sendo a contração de outubro a mais acentuada desde fevereiro.

“A França está cada vez mais a tornar-se um entrave à economia da Zona Euro”, salienta Cyrus de la Rubia. “Enquanto a situação económica na Alemanha melhorou significativamente em outubro, a taxa de contração acelerou durante dois meses consecutivos em França. Como resultado, o crescimento económico na Zona Euro, embora acelere um pouco, tem sido muito mais fraco do que poderia ter sido”.​

O economista aponta o dedo à incerteza política. “A incerteza sobre se o atual governo sob Sébastien Lecornu pode permanecer no poder por muito mais tempo, tendo em conta as disputas sobre o orçamento de 2026, está a causar mal-estar e a contribuir significativamente para a fraca situação económica em França”, notando “a fraqueza de França contribui para a fragilidade da recuperação no resto da Zona Euro”.

Do lado da inflação, o panorama é misto. Embora os custos de produção tenham aumentado a um ritmo mais suave, as empresas elevaram os preços de venda ao ritmo mais rápido em sete meses, sugerindo uma ligeira pressão inflacionista do lado do consumidor. Esta dinâmica pode reforçar a decisão do Banco Central Europeu (BCE) de manter as taxas de juro estáveis na próxima reunião de governadores.

Apesar dos ganhos sólidos na atividade e nas novas encomendas, a confiança empresarial caiu para um mínimo de cinco meses, com o sentimento a enfraquecer nas principais economias face a incertezas persistentes e uma procura externa frágil. “O sentimento foi relativamente moderado na Alemanha e em França, mas as empresas no resto da zona euro continuaram fortemente confiantes de que a produção aumentará ao longo do próximo ano”, lê-se no comunicado.

Os dados preliminares de outubro sugerem que a economia da Zona Euro pode ter acelerado ligeiramente no início do quarto trimestre, mas a recuperação continua hesitante e vulnerável aos choques externos e às divisões internas do bloco.

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