Pedro Reis: “Portugal poderá ser porto de abrigo ou plataforma estratégica”

O ex-ministro da Economia explicou porque 2026 será globalmente um ano definidor, com uma nova matriz de riscos e oportunidades. Portugal tem um espaço próprio, e pode até correr bem.

Pedro Reis, considera que “Portugal tem fatores de atração para investidores como a estabilidade, PMEs sólidas, instrumentos de financiamento como o Banco de Fomento, as linhas verdes e os incentivos fiscais”.

“Os investidores veem que a proatividade do Banco de Fomento ou a linha dos mil milhões de apoio à reindustrialização verde, concorrem para Portugal ser um caso interessante de investimento”, disse Pedro Reis, ex-ministro da Economia, durante a sua intervenção “Riscos na Incerteza Global” a encerrar a 6ª Conferência Anual ECOseguros que se realizou esta semana em Lisboa.

Para Pedro Reis, “Portugal devia pensar o quanto deve incrementar as munições de apoio de incentivos ao investimento, de maneira a captar no leilão internacional, que é extremamente agressivo, de ter mais para dar para trazer mais”, recomendando reforçar os incentivos ao investimento produtivo, com maior verba pública — entre 4 e 6 mil milhões — para captar grandes projetos.

Ainda em relação à competitividade de Portugal, o ex-governante afirmou que o país pode ser visto como porto de abrigo (em tempos de crise) ou plataforma estratégica (em tempos de crescimento) tendo como fatores de atração para investidores como “a estabilidade, PME sólidas, instrumentos de financiamento como o Banco de Fomento, as linhas verdes e os incentivos fiscais”.

  • Nem G7 nem G20, há um G0

Constatou que o mundo vive um aumento da volatilidade, complexidade e incerteza geopolítica e económica e deteta uma “falta de liderança global equilibrada — o chamado G0, em contraste com o G7 ou o G20”.

Da sua análise, Pedro Reis relatou que relações internacionais tornaram-se “mais transacionais e instáveis, marcadas por guerras híbridas e desinformação”. Nota que as cadeias de abastecimento estão a ser redesenhadas e “quem quiser pensar com a cabeça tradicional não vai decifrar, a meu ver, não é o futuro, é o próximo ano”.

Também destacou que surgem novos atores, “países não alinhados”, com geometrias variáveis de alianças e sem regras claras, enquanto se assiste a uma redefinição das sociedades e da economia mundial com “novos axiomas, novas armas e novas dinâmicas”.

  • Conflito na Ucrânia é decisivo para a estabilidade global

Pedro Reis considera o conflito na Ucrânia é visto como decisivo para a estabilidade global: “A Ucrânia está a lutar por nós”, mas chama a atenção para dilemas pendentes de competitividade europeia entre segurança e flexibilidade, regulação e inovação, sustentabilidade e competitividade.

“A concentração produtiva aumenta riscos, diversificar é necessário, mas complexo”, lembrando que na Europa “há um problema estrutural de burocracia e lentidão que trava produtividade e escala”.

“É fundamental a Europa ter uma só posição, mas essa posição tem de entrar na planilha pautal, e aí a morfologia e o DNA das economias não é todo igual”, concluindo mesmo que “existe uma heterogeneidade inultrapassável”.

  • China também tem graves problemas por resolver

A China também tem assuntos internos por resolver. Enfrenta problemas de demografia, dívida, sobrecapacidade produtiva, o que é um desafio para a Europa “de não se tornar ingénua, como às vezes somos, vazador da sobreprodução e capacidade da China”, disse Pedro Reis. Também destacou a redefinição do modelo social chinês: “As pessoas esquecem-se que a China tem hoje um pouco falado problema de demografia, salientou o ex-ministro, acrescentando que “está abaixo de 1 em taxa de fertilidade, mais baixo que os Estados Unidos, Europa, Japão.”

Começa a falar-se no deep state chinês de sustentabilidade do modelo social, de queda de produtividade. E é uma das razões da aposta na inteligência artificial que começa a entrar nos business plans”, afirmou,

Destacou ainda que “a China ainda está a digerir a dívida mal parada, quando rebentou a bolha imobiliária e está-se a discutir qual é o nível total de bailout dos bancos, dos governos provinciais, dos developers de real estate“, concluiu.

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