Sem oposição à vista, analistas antecipam sucesso na OPA da Bondalti em Espanha
Com luz verde da concorrência espanhola e sem sinais de oposição do Governo de Sánchez, analistas preveem que negócio seja concluído num prazo de três a seis meses, criando um líder ibérico no setor.
- Sem oposição do Governo espanhol e com aprovação da autoridade da concorrência, analistas antecipam que a OPA da Bondalti sobre a Ercros avance sem entraves e seja concluída nos próximos três a seis meses, criando um líder ibérico no setor químico.
- A oferta de 3,505 euros por ação, que representa um prémio de cerca de 10% face ao valor de mercado, é vista como atrativa para os acionistas e estratégica para a Bondalti, que ganha escala e sinergias operacionais em Portugal e Espanha.
- Especialistas preveem uma aprovação final do Governo e elevada adesão dos pequenos acionistas, embora alertem que o sucesso dependerá de atingir os 75% do capital, etapa decisiva para consolidar a expansão europeia da empresa portuguesa.
Com a oferta pública de aquisição (OPA) da Bondalti sobre a Ercros a entrar na reta final e não se antecipando oposição do Governo espanhol, os analistas já acreditam que a operação pode ter um desfecho positivo, destacando que o negócio é bom tanto para a gigante espanhola como para os acionistas. Caso a química portuguesa consiga alcançar 75% do capital, abre-se porta à criação de um “líder ibérico com maior escala” e oportunidade para escalar o negócio na Europa.
“A oferta está em cima da mesa desde março de 2024 e agora chegou à sua fase final. Com o risco regulatório amplamente superado, vemos uma elevada probabilidade de que a transação seja concluída“, disse Pablo Victoria Rivera, analista sénior da Lighthouse – Instituto Español de Analistas, em respostas ao ECO. “Tendo em conta que o Conselho de Ministros já autorizou o investimento estrangeiro em junho de 2024, não esperamos obstáculos políticos ou regulatórios nesta fase“, acrescenta o analista.
Pablo Victoria Rivera realça que, “para a Bondalti, a aquisição tem uma forte lógica industrial: ambas as empresas operam no setor do cloro e seus derivados (hipoclorito de sódio e soda cáustica), e a combinação criaria um líder ibérico com maior escala, sinergias operacionais e complementaridade geográfica entre Portugal e Espanha“, explica. O analista sénior da Lighthouse – Instituto Español de Analistas, nota que os títulos negoceiam em torno de 3,20 euros por ação, o que representa um desconto de cerca de 10% face à contrapartida de 3,505 euros por ação. “O nosso cenário base é que a oferta pública de aquisição seja concluída a 3,5 euros por ação nos próximos 3 a 6 meses.”
A autoridade da concorrência espanhola, a Comissão Nacional de Mercados e Concorrência (CNMC), aprovou a oferta da empresa do Grupo José de Mello sobre a Ercros, enviando o processo para o Ministério da Economia espanhol, que tem 15 dias para decidir se envia a operação para o Conselho de Ministros. Se isso não acontecer, a OPA segue para o regulador do mercado, a CNMV, para aprovação do prospeto e publicação do anúncio da oferta, iniciando-se, posteriormente, o período de aceitação.

Os compromissos apresentados pela empresa portuguesa foram suficientes para convencer a CNMC a aceitar a oferta, sem a necessidade de ficar sujeita a condições impostas pela autoridade da concorrência. A química portuguesa comprometeu-se com o fornecimento de hipoclorito a fabricantes terceiros a preço de custo, num máximo de 85.000 toneladas por ano. Este fornecimento anual será realizado com base uma proposta-quadro aprovada pela CNMC e que detalha as condições básicas de compra e fornecimento aplicáveis a todos os compradores. Este compromisso assumido terá um prazo inicial de cinco anos, sendo prorrogável por um período máximo de 15 anos.
Mais de ano e meio depois do anúncio da oferta de 3,505 euros [ajustados aos dividendos] sobre 100% do capital da Ercros, em março do ano passado, as perspetivas são hoje mais animadoras para a empresa portuguesa. Depois de uma primeira reação negativa por parte dos acionistas — um grupo de 150 acionistas, com cerca de 27% do capital da gigante espanhola, chegou a anunciar que não aceitava nem a oferta da Bondalti, nem da italiana Esseco, entretanto retirada –, os analistas defendem que as condições oferecidas pela companhia lusa beneficiam as duas empresas e os investidores, abrindo caminho a um desfecho positivo para o negócio.
Para a Bondalti, a aquisição tem uma forte lógica industrial: ambas as empresas operam no setor do cloro e seus derivados (hipoclorito de sódio e soda cáustica), e a combinação criaria um líder ibérico com maior escala, sinergias operacionais e complementaridade geográfica entre Portugal e Espanha.
“A transação tem uma clara lógica industrial para a Bondalti e reforçaria a sua posição no mercado químico ibérico. Para os acionistas da Ercros, a oferta proporciona liquidez e visibilidade de curto prazo num momento desafiador do ciclo da indústria”, remata o mesmo analista ao ECO.
João Cruz, analista de mercados da XTB Portugal, concorda que, “não havendo sinais de oposição política, a probabilidade de a OPA seguir em frente sem entraves significativos é alta”. “O sucesso da operação dependerá, sobretudo, da adesão dos acionistas da Ercros. A Bondalti apresentou um prémio generoso (em torno de 40%) face ao valor de mercado da empresa, o que torna a oferta atrativa, especialmente num contexto em que o setor químico europeu enfrenta desafios de custos energéticos e margens reduzidas”, defende.
Para o analista, “a aprovação regulatória e a boa reputação industrial da Bondalti também “jogam” a seu favor”, destacando que “as condições atuais são favoráveis a um desfecho positivo”, num negócio que “aparenta ser uma boa oportunidade para ambas as partes“. Para os acionistas da Ercros, o prémio oferecido pela Bondalti representa uma “valorização considerável das suas ações, num momento em que a empresa espanhola tem enfrentado resultados piores face àquilo que são as expectativas dos investidores”.
Para a Bondalti, diz João Cruz, “a operação oferece a possibilidade de a empresa reforçar a sua presença na Península Ibérica, escalar o seu negócio e diversificar o seu portfólio de produtos”. “Trata-se de um passo estratégico que pode consolidar a posição da empresa portuguesa como um dos principais players a nível europeu dentro do setor químico“, destaca, identificando várias vantagens competitivas na integração da Ercros.
A operação oferece a possibilidade de a empresa reforçar a sua presença na Península Ibérica, escalar o seu negócio e diversificar o seu portfólio de produtos. Trata-se de um passo estratégico que pode consolidar a posição da empresa portuguesa como um dos principais players a nível europeu dentro do setor químico.
Em primeiro lugar, “a fusão aumentará significativamente a escala do grupo, permitindo que haja uma diluição dos custos fixos e reforçar o poder de negociação junto de fornecedores e clientes (economias de escala)”, aponta. “Além disso, a complementaridade entre os portefólios das duas empresas cria oportunidades para otimizar processos produtivos, eliminar sobreposições e explorar novos mercados”.
Com a operação, a Bondalti fortalece ainda a sua presença no mercado espanhol, “ampliando assim a sua capacidade industrial e comercial num setor altamente competitivo”, explica o mesmo analista. “A longo prazo, esta fusão poderá ainda acelerar projetos ligados à sustentabilidade, inovação química e transição energética, áreas nas quais a Bondalti tem vindo a investir de forma consistente”, conclui.
Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, alerta que “a autorização da CNMC representa um passo decisivo, mas não garante ainda a conclusão imediata da operação”. “O processo segue agora para o Governo espanhol, que irá, com certeza, avaliar a operação com base em critérios de interesse geral, e não apenas concorrenciais (por exemplo, impacto industrial, segurança de abastecimento, emprego, ou investimento estrangeiro em setores estratégicos)”, salienta.
Dito isto, Paulo Monteiro Rosa admite que, “até ao momento, não há sinais de oposição formal do Governo” — “pelo contrário, a Bondalti é vista em Espanha como um investidor industrial estável, com presença consolidada na Península Ibérica e historial positivo em matérias de sustentabilidade e inovação química”, aponta. “Assim, é provável que a operação acabe por ser aprovada em definitivo, embora o processo administrativo ainda possa prolongar-se algumas semanas até à abertura do período de aceitação da OPA”, acrescenta.
“A probabilidade de sucesso é elevada, embora ainda existam algumas variáveis a limar e pontas soltas que precisam de ser cabalmente resolvidas”, defende o economista sénior do Banco Carregosa. Para Paulo Monteiro Rosa, o principal desafio é alcançar os 75%, o limite de capital definido para que a operação seja bem-sucedida. “Se os pequenos acionistas aceitarem a proposta e o Governo espanhol não levantar objeções adicionais, a OPA tem condições para ser bem-sucedida”, afirma.
A operação permite ganhar escala no mercado ibérico e reforçar a posição da Bondalti nos segmentos de cloro, soda cáustica e derivados, onde a Ercros já tem uma presença relevante.
“A operação permite ganhar escala no mercado ibérico e reforçar a posição da Bondalti nos segmentos de cloro, soda cáustica e derivados, onde a Ercros já tem uma presença relevante”, criando sinergias industriais e logísticas, redução de custos e maior eficiência, sintetiza o economista. “Em suma, esta operação fortalece a competitividade da indústria química ibérica e cria uma plataforma sólida para o crescimento europeu“.
O setor químico tem enfrentado grandes desafios, penalizado por custos crescentes e menor procura. Enquanto os lucros da Bondalti baixaram para 41 milhões de euros no ano passado, com um EBITDA de 71 milhões de euros, a Ercros passou de lucros de 27,6 milhões em 2023 a prejuízos de 12 milhões de euros, em 2024.
Com unidades industriais em Estarreja (Portugal) e Cantábria (Espanha) e instalações logísticas em Aveiro, Barreiro (Portugal) e Vigo (Espanha), a Bondalti, caso consiga comprar a Ercros, garante que vai manter a sede da empresa em Barcelona, bem como os postos de trabalho e a presença local nas comunidades onde a empresa opera.
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