Navigator reestrutura operação industrial no Reino Unido após aquisição de 152 milhões
Papeleira da Semapa fecha fábrica de rolos de papel higiénico e cozinha em Blackburn e transfere produção para Leyland e Leicester, onde terá instalações maiores. Plano concluído até ao verão de 2027.
- A Navigator vai encerrar a fábrica de rolos de papel higiénico e de cozinha em Blackburn e transferir a produção para Leyland e Leicester, no âmbito de uma reestruturação a concluir até ao verão de 2027.
- O plano visa consolidar a operação britânica herdada da Accrol, reduzindo de seis para duas localizações e integrando produção e armazenagem para aumentar a escala, reduzir custos e reforçar a eficiência logística e operacional.
- Por outro lado, a reorganização irá elevar a capacidade produtiva em Leicester e Leyland em até 50% e 25%, respetivamente, garantindo uma transição suave para os clientes e preparando o negócio de tissue no Reino Unido para crescer de forma mais competitiva.
Ano e meio depois de comprar a Accrol por 152 milhões de euros na sequência de uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre 100% do capital do grupo britânico, a portuguesa The Navigator Company NVG 0,26% está a avançar com um plano de reestruturação para “consolidar as operações” de rolos de papel tissue (higiénico e de cozinha) no Reino Unido. A empresa confirma ao ECO que prevê completar a implementação deste programa “entre o final de 2026 e o fim do segundo trimestre de 2027”.
A empresa de pasta e papel vai passar das atuais seis localizações (três polos fabris em Blackburn, Leyland e Leicester, e três armazéns externos em Leicester) para apenas duas (em Leyland e numa nova localização em Leicester), alegando que este novo modelo “integra capacidade fabril e de armazenagem num sistema mais ágil e eficiente, preparado para aumentar a escala, reduzir custos fixos e melhorar a fluidez da cadeia de abastecimento”.
Com a justificação de “reforçar a eficiência operacional e a competitividade do negócio de tissue no Reino Unido, alinhada com as melhores práticas da Navigator”, a subsidiária vai encerrar a fábrica de rolos tissue em Blackburn e transferir essa produção para Leyland e Leicester, onde passará a ocupar uma nova unidade fabril e logística, em Optimus Point, que substituirá a que existia até agora em Thurmaston.
O atual plano de reestruturação em curso incide apenas no segmento de rolos e não abrange a fábrica de lenços faciais de Blackburn. (…) Prevemos concluir a implementação entre o final de 2026 e o fim do segundo trimestre de 2027.
“A Navigator Tissue UK opera atualmente vários sites industriais e armazéns em diversas localizações do Reino Unido, com vários contratos de arrendamento – prática comum em Inglaterra – e que expiram em 2025 e 2026, nomeadamente em Leicester. Esta situação obrigou-nos a repensar a localização geográfica e o nosso perímetro operacional, visando otimizar as eficiências produtivas dos ativos industriais e criar condições para continuar a crescer o negócio no futuro”, relata a Navigator.
Fonte oficial descreve ao ECO que desenvolveu um “plano de consolidação geográfica dos ativos industriais” dedicados aos rolos de papel higiénico e aos rolos de cozinha, que inclui a “cessação dos contratos de arrendamento dos armazéns em Leicester e a transferência das instalações industriais de Thurmaston, juntamente com os recursos humanos afetos, para um edifício maior situado próximo das atuais instalações em Leicester”.

Questionada sobre quantos trabalhadores vão ser dispensados e reafetados a outras funções na sequência desta reorganização respondeu que “a implementação do plano e respetivo calendário, em conformidade com o previsto na lei inglesa, implicou a realização de consultas coletivas com os trabalhadores” em Blackburn, Thurmaston (Leicester) e Leyland. Um processo que “ainda está em desenvolvimento”. No último relatório financeiro comprometeu-se a “preservar ao máximo os postos de trabalho e a prestar suporte integral durante a transição”.
“Transição suave” com aumento da capacidade em duas regiões
O plano inclui então a transferência dos ativos de produção de rolos de Blackburn para a atual localização de Leyland, assim como para as novas instalações em Leicester. Explica que “as duas localizações foram selecionadas por estarem estrategicamente posicionadas para fornecer eficientemente quer o Sul quer o Norte de Inglaterra”, assegurando desta forma a proximidade aos principais centros de consumo e uma melhor cobertura logística do mercado britânico.
Na apresentação das contas até setembro, que mostraram os lucros a descer 51% para 118 milhões de euros, a empresa liderada por António Redondo indicou também que “o aumento da escala produtiva em Leicester permitirá igualmente capturar poupanças logísticas tanto em produto acabado — por via da maior proximidade à “representativa” carteira de clientes do centro e sul do Reino Unido –, como em bobines pela proximidade ao porto de Felixstowe.
Uma vez implementada esta reorganização do perímetro de ativos industriais de rolos, a participada da Semapa estima ao ECO que “a capacidade produtiva atual de Blackburn será transferida para o site Optimus em Leicester com incremento de capacidade em cerca de 30% a 50%, e para o site de Leyland com incremento de capacidade em cerca de 15% a 25%”.
“Este plano foi concebido para garantir a continuidade no fornecimento de produtos acabados a todos os nossos clientes, sem comprometer a qualidade dos produtos nem os níveis de serviço. Além disso, a Navigator Tissue UK tem trabalhado em estreita colaboração com os fornecedores e prestadores de serviços de modo a assegurar uma transição suave para a nova configuração industrial e a fortalecer ainda mais as relações comerciais com todas as partes interessadas”, ressalva.
De fora deste plano de reestruturação industrial fica a unidade de produção especializada em lenços faciais, que integrou igualmente o portefólio comprado à Acroll e irá continuar em funcionamento. Localizada em Blackburn, esta fábrica produz este género de artigos para a maioria das principais retalhistas no Reino Unido. “O atual plano de reestruturação em curso incide apenas no segmento de rolos e não abrange a fábrica de lenços faciais de Blackburn”, confirma a papeleira.

Foi em 2014, quando ainda usava o nome de Portucel/Soporcel, que a empresa controlada pela holding da família Queiroz Pereira decidiu entrar no mercado do tissue. Logo no ano seguinte comprou a unidade industrial da AMS Star Paper em Vila Velha de Rodão. E em 2018 construiu de raiz uma unidade de produção de papel tissue no complexo industrial de Aveiro, integrada com a sua fábrica de pasta.
Em 2023 avançou para a aquisição da Gomà-Camps Consumer, com uma unidade fabril em Saragoça (Espanha), e no ano passado lançou a OPA sobre a Accrol, fundada em 1993, que no exercício anterior tinha gerado receitas de 242 milhões de libras e um EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) ajustado de 15,6 milhões de libras.
A integração da operação no Reino Unido, segundo relatou na última comunicação aos investidores, “prossegue com o reforço da colaboração entre as equipas locais e da Ibéria, visando potenciar oportunidades de cross-selling entre mercados, otimizar o portefólio para comercialização de produtos de maior rentabilidade, captar novos clientes e, paralelamente, rever a estrutura de custos para tornar a operação mais eficiente”.
Neste segmento, enquanto a operação Ibéria é integrada, isto é, engloba também a produção de papel, no Reino Unido dedica-se em exclusivo à transformação em produto acabado, pelo que a margem de negócio dessa operação é estruturalmente mais baixa.
Vendas de tissue até setembro de 2025 (vs. 9M 2024)

Até setembro, o volume de vendas no tissue (produto acabado e bobines) atingiu 177 mil toneladas, 14% acima do período homólogo, com o crescimento a atingir os 17% em valor. Uma performance que beneficiou da comercialização e da extensão da gama no Reino Unido, que alargou também a base de clientes e “gerou ganhos em sinergias de integração” para a companhia.
As aquisições têm sido o motor de crescimento deste segmento de negócio e as vendas internacionais já pesam cerca de 80% do total. Nos primeiros nove meses deste ano, o mercado britânico ascendeu à liderança: valeu 35%, o espanhol 30% e o francês 14%, baixando Portugal para uma quota de 20%. Os clientes do retalho respondem por mais de 80% das vendas, sendo o restante canalizado via restauração e hotelaria (Horeca) e escritórios.
Em conjunto, o tissue e o packaging – segmento em que está a reconverter uma máquina na fábrica de Setúbal para passar a ser o quarto maior produtor europeu de papéis de embalagem flexível de baixas gramagens – representam já perto de 30% do volume de negócios e do EBITDA da companhia, contribuindo para reduzir a pressão sobre os resultados num contexto de queda de preços de pasta e papel.
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