Repressão financeira sobre detentores de dívida está de regresso, diz Ricardo Reis

  • Lusa
  • 7 Novembro 2025

Para o economista, "as receitas da repressão" podem "ser significativas e serão tentadoras para os decisores políticos que lutam para equilibrar o orçamento".

A repressão financeira dos Estados sobre os detentores de dívida pública está a regressar, depois de quatro décadas de tréguas no mundo, defendeu esta sexta-feira o economista português Ricardo Reis numa conferência do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Por repressão financeira, entende-se a faculdade dos Estados endividados em “extrair excedentes dos detentores da dívida, desvalorizar essa dívida inesperadamente e receber um desconto nessa dívida devido ao fluxo de serviços que proporciona aos seus detentores que vivem em mercados financeiros segmentados”.

A repressão financeira é, em termos gerais, um imposto sobre os detentores da dívida”, sintetizou Reis na comunicação escrita que serviu de base à palestra.

Falando no segundo e último dia da 26th Jacques Polak Annual Research Conference, subordinada ao tema “O Cenário em evolução do Comércio Global e da Integração Financeira”, o economista e professor na London School of Economics (LSE) lembrou que, entre o final da Segunda Guerra Mundial e meados da década de 1980, “a repressão financeira era a norma em todo o mundo”.

“Quatro décadas de tréguas depois” o fenómeno está de regresso, segundo afirmou, em consequência de “uma combinação de elevados níveis de endividamento, de grandes e crescentes desequilíbrios macroeconómicos globais, da disponibilidade de políticas de repressão através dos muitos mecanismos financeiros criados após a grande crise financeira e de uma recente subida da inflação”.

Para o economista, “as receitas da repressão” podem “ser significativas e serão tentadoras para os decisores políticos que lutam para equilibrar o orçamento”. Partindo do pressuposto de que “grandes stocks de dívida pública e passivos externos brutos” – que caracterizou como “dívidas gémeas” – levam os decisores políticos a extrair recursos dos detentores de dívida”, Reis caracterizou três formas de repressão financeira.

A primeira são os impostos diretos que recaem sobre o setor financeiro, “que podem ser elevados quando os países atravessam crises financeiras”. No entanto, os governos geralmente só recorrem a impostos tão pesados “em circunstâncias extremas”. A segunda é “a inflação ou depreciação inesperada da moeda”, que reduz o valor real da dívida e que foi particularmente significativa entre 2021 e 2024. Nesse período, “uma grande parcela do aumento da dívida pública durante a pandemia foi absorvida pela inflação”.

A inflação desvaloriza todas as dívidas do governo, uma vez que são normalmente definidas em unidades da moeda nacional. Como a inflação vem de mãos dadas com a depreciação da moeda, também afeta os estrangeiros, relaxando a restrição da dívida externa”, acrescentou.

Por fim, o terceiro conjunto de políticas de repressão financeira são as que criam ” descontos no retorno que o governo ou o país paga aos credores”, designadamente em relação aos juros das dívidas, abaixo do que seria justo ou expectável. Em relação à dívida externa, a repressão financeira “consiste em políticas governamentais que atuam sobre os estrangeiros e que permitem ao país sustentar mais dívida externa com menores excedentes comerciais”.

São exemplos as tarifas alfandegárias, a depreciação da moeda e os regulamentos financeiros “que exigem que os estrangeiros detenham títulos do governo para conceder empréstimos na moeda local, aumentando os descontos”. Avaliando o potencial dos diferentes tipos de repressão de que os governos dispõem para angariar recursos, Reis analisou as políticas de repressão recentes e o papel do FMI caso este tipo de repressão se torne “mais ativa”.

Para concluir que “hoje, em 2025, poderá ser mais difícil desvalorizar significativamente as dívidas pública e externa. Gerar inflação inesperada é mais difícil do que era em 2021, os bancos centrais institucionalmente independentes teriam dificuldades em fomentar muitos anos de surpresas inflacionistas persistentes de subida, ao contrário da década de 1970, e a curta duração da dívida privada não indexada limita a medida em que pode ser desvalorizada”.

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