Nexperia. Escassez de chips obriga a gestão diária e reservas estão a esgotar-se

Apesar da pressão na produção provocada pelos problemas no fornecimento de chips, não há notícias de mais lay-offs, além da Bosch. Fábricas da Volkswagen e da Stellantis em Portugal sem paragens.

Os problemas no fornecimento de semicondutores associados à situação da Nexperia estão a ameaçar a produção de vários setores, nomeadamente os que produzem para o automóvel, com as empresas a serem forçadas a gerir as operações numa base diária e a recorrer às reservas de chips. Apesar da pressão, para já apenas a Bosch recorreu a um lay-off, mandando para casa cerca de 2.500 trabalhadores. Autoeuropa e a fábrica da Stellantis de Mangualde mantêm a produção, sem previsões de paragens.

A intervenção dos Países Baixos na fornecedora de chips Nexperia, controlada pela China, no passado mês de setembro, levou o governo chinês a retaliar, proibindo as exportações dos produtos acabados da empresa. Depois de semanas marcadas por escassez no fornecimento de chips da Nexperia, importantes para o setor automóvel, o Executivo neerlandês cedeu, no final da semana passada, adiantando que estava disposto a deixar cair o controlo da empresa de ponta, caso a China retomasse as exportações. E assim foi.

Segundo o primeiro-ministro dos Países Baixos, a China concordou em retomar as entregas de chips da Nexperia a partir das suas fábricas no país. Apesar deste entendimento, que poderá ser o primeiro passo para restabelecer a normalidade, Dick Schoof adiantou que ainda não se sabe “a que velocidade irão retomar as entregas“, mantendo-se a pressão nos stocks de semicondutores das empresas.

“O setor está a ajustar as suas operações numa base diária e a recorrer às reservas existentes, mas se não existir uma alteração das condições atuais, os fornecimentos irão esgotar-se rapidamente“, admite Aurélio Caldeira, diretor-geral da ANIMEE, a associação que representa o setor elétrico e eletrónico, incluindo a Bosch.

O setor [elétrico e eletrónico] está a ajustar as suas operações numa base diária e a recorrer às reservas existentes, mas se não existir uma alteração das condições atuais, os fornecimentos irão esgotar-se rapidamente.

Aurélio Caldeira

Diretor-geral da ANIMEE

De acordo com o mesmo responsável, “existem empresas que estão a tentar encontrar fornecedores alternativos, mas na indústria automóvel, a substituição ou introdução de novos fornecedores não é apenas uma decisão de sourcing, é um processo estruturalmente complexo e demorado”, o que não coaduna “com a velocidade necessária para responder a estas crises conjunturais quando elas acontecem”.

Sobre a notícia que os Países Baixos estão a preparar-se para suspender a “ordem ministerial” que lhe conferia controlo da Nexperia, “um sinal inequívoco de tentativa de desanuviar as tensões com Pequim”, o diretor-geral da ANIMEE destaca que “a eventual suspensão dessas restrições pode ser vista como um primeiro passo diplomático para restaurar a confiança entre as partes; contudo, o dano sistémico já está feito”.

“A normalização não significará um simples regresso ao status quo pré-crise, mas sim um processo lento e complexo de reconstrução de confiança entre governos, fabricantes e fornecedores — algo que, inevitavelmente, levará tempo e não se resolverá de uma semana para a outra. Na prática, o que as empresas estão a fazer nesta fase é a prepararem-se para o pior, esperando o melhor”, acrescenta Aurélio Caldeira.

A eventual suspensão dessas restrições pode ser vista como um primeiro passo diplomático para restaurar a confiança entre as partes; contudo, o dano sistémico já está feito. A normalização não significará um simples regresso ao status quo pré-crise, mas sim um processo lento e complexo de reconstrução de confiança entre governos, fabricantes e fornecedores — algo que, inevitavelmente, levará tempo e não se resolverá de uma semana para a outra.

Aurélio Caldeira

Diretor-geral da ANIMEE

Em termos de despedimentos, ou lay-offs, Aurélio Caldeira informa que, além da Bosch que já entrou em lay-off, a associação ainda não tem “conhecimento de mais empresas que tenham comunicado essa intenção”.

Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP, assume que “começam a sentir-se sinais de tensão: redução de horizontes de abastecimento, reconfiguração de turnos, paragens pontuais e dificuldades de tesouraria, com efeitos que rapidamente se propagam da montagem e dos grandes fornecedores para as pequenas e médias empresas da cadeia”.

O responsável refere que “a indústria automóvel europeia vive um contexto exigente, marcado pela volatilidade da procura, pela transição tecnológica e por uma crescente pressão competitiva, em particular dos fabricantes chineses”.

“A atual escassez de semicondutores vem agravar de forma sensível este cenário, ao introduzir um choque de fornecimento que é exógeno às empresas portuguesas e que escapa ao seu controlo“, lamenta.

A atual escassez de semicondutores, vem agravar de forma sensível este cenário, ao introduzir um choque de fornecimento que é exógeno às empresas portuguesas e que escapa ao seu controlo.

Luís Miguel Ribeiro

Presidente da AEP

“A incerteza no fornecimento de chips tem testado a capacidade de produção de várias empresas que dependem destes componentes. Estando em causa um cenário de paragem de produção, em última instância, as empresas veem-se forçadas a adotar medidas imediatas de contenção de custos, como o recurso ao lay-off“, explica Luís Miguel Ribeiro.

Para o presidente da AEP, esta “situação evidencia uma perspetiva mais estrutural, a forte dependência europeia de fornecedores externos e, consequentemente, a necessidade urgente de reforçar a autonomia tecnológica europeia e de acelerar o investimento na produção de componentes críticos.

Autoeuropa e Stellantis sem previsão de paragens

Apesar das dificuldades, tanto a fábrica da Volkswagen de Palmela, a Autoeuropa, como a fábrica de Mangualde da Stellantis garantem ao ECO que mantêm a produção e não preveem nenhuma paragem na sua atividade.

Segundo adiantou ao ECO fonte oficial da Autoeuropa, “mantém-se tudo igual” e não existe previsão de paragem. Uma situação semelhante na fábrica Stellantis em Mangualde, que “está a realizar a produção planeada e não há nenhuma indicação de que a questão dos chips afetará a sua atividade“, segundo informou fonte oficial.

Apesar de não ter realizado qualquer paragem na produção, a Autoeuropa adiantou num comunicado interno, na semana passada, que “tendo em vista a dinâmica da situação, não é possível descartar impactos de curto prazo na Volkswagen Autoeuropa”.

“Assim, os colaboradores e fornecedores serão informados sobre este tema sempre que haja mais informação relevante”, acrescentava a mesma nota.

Já a Bosch, que mandou para casa cerca de 2.500 dos 3.300 colaboradores que emprega em Braga, disse ao ECO que, neste momento, não há nada a acrescentar em relação ao que foi adiantado aquando da confirmação do lay-off.

A Nexperia é um importante fornecedor de chips usados por gigantes do setor automóvel, como a Volkswagen ou a BMW, assim como a Bosch, o que levou, desde logo, a associação que representa a indústria automóvel europeia a avisar que os problemas no fornecimento de chips poderiam causar uma perturbação significativa no setor.

“Sem estes chips, os fornecedores automóveis europeus não conseguem fabricar as peças e componentes necessários para abastecer os fabricantes de veículos”, o que poderá levar a uma paralisação da produção, alertou a associação.

Com a retoma das exportações por parte da China, o setor poderá começar a receber, aos poucos, os chips que tanto precisa, mas regresso à normalidade deverá demorar.

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