Autocarros chineses suspeitos de “espionagem” pressionam autarquias. IL pede esclarecimentos ao Governo
Iniciativa Liberal entregou um requerimento para que Luís Montenegro esclareça que medidas foram já tomadas num caso que o partido considera ser um problema de cibersegurança.
Os autocarros da marca chinesa Yutong estão a criar uma onda de preocupações pela Europa e Portugal não é exceção. “Questões de cibersegurança e soberania” levaram a Iniciativa Liberal (IL) a entregar esta terça-feira na Assembleia da República um requerimento para que o primeiro-ministro detalhe que ações já tomaram as autoridades nacionais, diz ao ECO/Local Online o deputado Rui Rocha. “O interesse nacional exige que este tema seja tratado com total transparência, responsabilidade e celeridade. É uma questão de segurança nacional, onde a ingenuidade não tem lugar”, escreve a IL.
O ex-líder do partido é igualmente vereador na Câmara de Braga, eleito há um mês, e nessa condição questionou o Executivo do social-democrata João Rodrigues sobre os 35 autocarros da Yutong contratualizados pela empresa municipal de transportes públicos do concelho, a TUB (Transportes Urbanos de Braga).
Na reunião de segunda-feira, Rui Rocha considerou “muito grave” a possibilidade de os autocarros que a TUB colocará ao serviço estarem equipados com o dispositivo que permite o controlo remoto pelo fabricante, a partir da China. Lembrando dúvidas anteriores sobre a confiabilidade do poder decisório das empresas chinesas perante o poder do Governo de Pequim, designadamente relativas à Huawei e à utilização de scanners de origem chinesas em portos nacionais, Rui Rocha fala de “questões de cibersegurança e soberania”.
“Imagine-se uma guerra comercial, ou um conflito de outra natureza” com a China, diz, temendo que se possa mesmo “isolar passageiros dentro desses autocarros dentro autocarros. Podemos estar a falar de um problema de segurança sério, no limite de paralisia de países se tiverem uma frota extensa”.
O ECO/Local Online questionou o Instituto de Mobilidade e Transportes (IMT) sobre eventuais iniciativas que a entidade reguladora tenha já tomado, seja no contacto com os representantes nacionais do fabricante, seja com entidades que utilizem autocarros desta marca, mas ainda não obteve resposta até à publicação deste artigo. Entre os países a analisar a situação com os veículos Yutong está o Reino Unido, onde o Departamento de Transporte e o Centro Nacional de Cibersegurança estão já a analisar os passos dados pelas autoridades da Dinamarca e da Noruega.
Foi precisamente na Noruega que a empresa de transportes urbanos Ruter detetou um cartão SIM nos veículos a partir do qual o fabricante chinês poderá comandar remotamente algumas funções dos autocarros. Citado pelo jornal The Guardian, um porta-voz do Departamento de Transportes referiu que esta entidade “leva os assuntos de segurança de forma extremamente séria e trabalha de forma próxima com a comunidade de serviços de inteligência para identificar e mitigar potenciais riscos”.
Do lado das autarquias, a de Braga emitiu esta terça-feira um comunicado, no seguimento das questões de Rui Rocha na reunião de Câmara, e assegura que “não existe atualmente qualquer viatura do fabricante Yutong em circulação no concelho. O concurso público lançado em fevereiro de 2025, com contrato assinado em agosto de 2025 encontra-se em fase de execução contratual e prevê o fornecimento faseado de dez autocarros elétricos MIDI e 25 autocarros elétricos Standard, estando a primeira entrega prevista para o final deste ano”.
O Executivo bracarense assegura haver no caderno de encargos “regras rigorosas que impedem qualquer forma de acesso remoto não autorizado às viaturas”, informação que Rui Rocha não encontrou na documentação por si consultada. Ainda assim, garante a autarquia, “toda a informação extraída das mesmas [viaturas] é propriedade exclusiva da entidade adjudicante, incluindo dados recolhidos através da ‘caixa negra’”
Também nesta terça-feira, o presidente da Câmara de Viana do Castelo, o socialista Luís Nobre, afirmou à Lusa estar tranquilo com as garantias de segurança dadas pela Yutong relativamente aos autocarros em circulação deste setembro. Após ser interpelado pelo vereador do Chega Eduardo Teixeira, o autarca refere, citado pela Lusa, que “há notícias que só servem para criar alarido e agitação social”.
IL quer saber o que Montenegro conhece deste processo
As questões enviadas a Luís Montenegro são ainda “iniciais”, diz Rui Rocha. O objetivo é perceber “a sensibilidade do Governo num tema” que a IL considera “especialmente relevante”. Rocha diz ainda que para já quer saber que informações surgem.
Entre as questões levantadas pela IL estão, esclarece o deputado e vereador em Braga, se o Governo contactou Oslo para recolher informações junto do Executivo norueguês, e que medidas vai tomar. “Queremos saber se as autoridades estão atentas”.
No requerimento, a que o ECO/Local Online teve acesso, a IL escreve que “Portugal já tomou uma decisão significativa em matéria de cibersegurança, em 2023, ao excluir a participação da Huawei e de outros fornecedores não europeus da implementação da rede 5G nacional. Tal como noticiado na altura, esta decisão, seguindo-se a indicações europeias, baseou-se em pareceres técnicos que alertavam para o risco de controlo externo da infraestrutura nacional de comunicações”.
Adicionalmente, escreve a IL “é importante recordar que a Autoridade Tributária e Aduaneira tem vindo a adquirir e implementar, nos portos nacionais, scanners da empresa chinesa Nuctech. Outros países pararam a aquisição de material a esta empresa e, em alguns casos, os scanners foram retirados, após ser detetado que os equipamentos emitiam sinal, contrariando especificidades técnicas dos cadernos de encargo. Embora governos tenham sido confrontados, os equipamentos estão instalados”.
“Fazemos este requerimento ao primeiro-ministro e veremos que novas informações surgem”, esclarece Rui Rocha.
A Yutong já reconheceu a recolha de informações, mas diz que estes são armazenados na Europa e só podem ser acedidos com autorização dos clientes. “Ninguém pode aceder ilegitimamente ou visualizar os dados sem a autorização dos clientes [empresas de viação]. A Yutong cumpre estritamente as leis de proteção de dados e regulamentos”, pode ler-se num comunicado a que a Lusa teve acesso.
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