Buffett abandona o trono, mas lança um último desafio

Na sua última carta aos acionistas da Berkshire Hathaway, Warren Buffett celebra um percurso lendário, transformando a sorte numa lição e a sua empresa num império de valores duradouros.

Aos 95 anos, Warren Buffett escreveu aquela que será a sua última carta anual enquanto CEO da Berkshire Hathaway. O Oráculo de Omaha, como é conhecido nos mercados financeiros, anunciou que deixará de escrever o relatório anual da empresa e de “falar incessantemente” nas assembleias de acionistas. Passa o testemunho a Greg Abel que, como anunciado em maio, assumirá a liderança da empresa no final deste ano.

Numa mensagem publicada por ocasião da celebração do Dia de Ação de Graças nos EUA (Thanksgiving), Buffett revela que doou mais de 1,34 mil milhões de dólares através da conversão de 1.800 ações da Berkshire Hathaway da classe A em 2,7 milhões de ações classe B para distribuir pelas quatro fundações familiares — incluindo a Susan Thompson Buffett Foundation, que recebeu 1,5 milhões de ações –, marcando mais um passo na estratégia de redistribuição da sua fortuna.

Mas a carta é muito mais do que um anúncio de sucessão: é um testamento pessoal, recheado de memórias, conselhos e reflexões sobre a vida, a sorte e a forma como se constrói um legado duradouro. “Estou grato e surpreendido pela minha sorte de estar vivo aos 95 anos”, escreve Buffett, recordando que em criança quase não sobreviveu e que a pessoa da família que viveu mais anos faleceu aos 92 anos.

Sob a liderança de Buffett, a Berkshire Hathaway registou retornos médios anuais de 20% entre 1965 e 2024, quase o dobro do desempenho do índice acionista norte-americano S&P 500 no mesmo período.

Em 1938, uma apendicite de emergência levou-o ao hospital St. Catherine’s, em Omaha, onde passou três semanas cercado de freiras — ele era um dos primeiros meninos protestantes que elas conheciam, recorda. Foi nessa altura que a sua professora do terceiro ano, Miss Madsen, pediu aos 30 colegas de turma que lhe escrevessem cartas. “Provavelmente deitei fora as cartas dos rapazes, mas li e reli as das raparigas; a hospitalização teve as suas recompensas”, confessa, com o humor característico que atravessa toda a mensagem.

Buffett dedica várias páginas a Omaha, a cidade do centro dos EUA onde nasceu, onde sempre viveu e de onde nunca quis verdadeiramente sair. “Olhando para trás, sinto que tanto a Berkshire como eu fizemos melhor por termos a nossa base em Omaha do que se eu tivesse residido em qualquer outro lugar. O centro dos EUA foi um lugar muito bom para nascer, para criar uma família e para construir um negócio. Por pura sorte, tive uma vida ridiculamente longa desde o nascimento”, resumiu.

A ligação de Buffett a Omaha não é apenas geográfica. É pessoal e profissional. Foi ali, a poucos quarteirões da casa que comprou em 1958 e onde ainda vive, que cresceram muitas das figuras que moldaram a sua vida e a história da Berkshire Hathaway. Charlie Munger, o seu melhor amigo durante 64 anos e parceiro inseparável na construção da empresa que faleceu há dois anos com 99 anos, viveu a um quarteirão da sua casa atual na década de 1930, embora só se tenham conhecido em 1959.

Don Keough, que viria a ser presidente da Coca-Cola e diretor da Berkshire, morava em frente à casa de Buffett nos anos da década de 1950, quando ainda era um vendedor de café a ganhar 12 mil dólares por ano e a criar cinco filhos. E até Greg Abel, o canadiano que em breve assumirá o comando da empresa, viveu a poucos quarteirões dele na década de 1990, embora nunca se tenham cruzado na altura. “Será que há algum ingrediente mágico na água de Omaha?”, questiona Buffett na carta enviada aos acionistas.

Greg Abel
Warren Buffett destaca que Greg Abel, que assumirá a liderança da Berkshire Hathaway no final do ano, compreende os negócios da empresa e o seu pessoal muito melhor do que ele próprio, e que é “um gestor extraordinário, um trabalhador incansável e um comunicador honesto”.

Da indústria têxtil ao império dos investimentos

A história de Buffett com a Berkshire Hathaway começou em 1962, quando começou a comprar ações da empresa têxtil, então em dificuldades. Originalmente fundada em 1839 como Valley Falls Company, a Berkshire era o resultado da fusão, em 1955, entre a Hathaway Manufacturing Company e a Berkshire Fine Spinning Associates, duas fábricas têxteis da Nova Inglaterra que enfrentavam graves problemas financeiros.

Buffett, que identificou uma oportunidade de lucro com as recompras de ações que a gestão vinha fazendo, acabou por assumir o controlo total da companhia em 1965, após um desentendimento com Seabury Stanton, então diretor da empresa, que incumpriu uma oferta oral de recompra de ações.

O que começou como um investimento em ações descontadas transformou-se no principal veículo de alocação de capital de Buffett. Em 1967, a Berkshire fez o seu primeiro grande investimento fora do setor têxtil ao adquirir a seguradora National Indemnity Company, marcando o início das operações de seguros que se tornariam o pilar financeiro do conglomerado.

Greg Abel superou em muito as elevadas expectativas que tinha para ele quando pensei pela primeira vez que ele deveria ser o próximo CEO da Berkshire (…) Não consigo pensar num CEO, num consultor de gestão, num académico, num membro do governo — o que quer que seja — que eu escolhesse em vez do Greg para gerir as vossas poupanças e as minhas.

Warren Buffett

Carta do Dia de Ação de Graças de 2025

Buffett manteve as operações têxteis até 1985, mas o foco há muito que tinha mudado. A Berkshire passou a investir e a adquirir empresas de setores diversos — seguros, ferrovias, energia, retalho, alimentação –, construindo um portefólio que hoje inclui participações relevantes em gigantes como Apple, Bank of America e Coca-Cola.

Sob a liderança de Buffett, a Berkshire Hathaway registou retornos médios anuais de 20% entre 1965 e 2024, quase o dobro do desempenho do índice S&P 500 no mesmo período. A empresa, que em 1965 era uma fábrica têxtil moribunda, é hoje uma das 10 maiores empresas de capital aberto do mundo, com uma capitalização bolsista superior a 930 mil milhões de euros.​

Na carta do Dia de Ação de Graças, Buffett faz questão de sublinhar a confiança total que deposita em Greg Abel, o executivo canadiano de 62 anos que assumirá em breve o comando da Berkshire. “Greg Abel superou em muito as elevadas expectativas que tinha para ele quando pensei pela primeira vez que ele deveria ser o próximo CEO da Berkshire”, escreve. E vai mais longe: “Não consigo pensar num CEO, num consultor de gestão, num académico, num membro do governo — o que quer que seja — que eu escolhesse em vez do Greg para gerir as vossas poupanças e as minhas”.

Buffett destaca que Abel compreende os negócios da Berkshire e o seu pessoal muito melhor do que ele próprio, e que é “um gestor extraordinário, um trabalhador incansável e um comunicador honesto”. A sua esperança, diz, é que a saúde de Abel se mantenha boa durante várias décadas, sublinhando que “com um pouco de sorte, a Berkshire deverá precisar apenas de cinco ou seis CEO ao longo do próximo século”.

O objetivo para o futuro da Berkshire Hathaway é, segundo Buffett, evitar líderes cujo objetivo seja reformar-se aos 65 anos, tornarem-se ricos de forma ostensiva ou iniciarem uma dinastia. Além disso, faz ainda uma advertência dura sobre os riscos de CEO que sucumbem a doenças debilitantes como a demência ou o Alzheimer. “Charlie e eu encontrámos este problema várias vezes e falhamos em agir. Esta falha pode ser um erro enorme. O conselho de administração deve estar atento a esta possibilidade ao nível do CEO – e o CEO deve estar atento à possibilidade nas subsidiárias”, alerta.

Warren Buffett considera que “a grandeza não vem de acumular grandes quantidades de dinheiro, grandes quantidades de publicidade ou grande poder no governo”, sublinhando na carta do Dia de Ação de Graças deste ano que “quando ajudamos alguém de qualquer uma das milhares de formas possíveis, ajudamos o mundo. A gentileza não tem custo, mas também não tem preço.”thetaxhaven/Flickr

Conselhos para investidores

Como é hábito de Buffett, também esta última mensagem está recheada de conselhos práticos e filosóficos, dirigidos tanto aos acionistas como a qualquer pessoa que queira construir uma vida com sentido. Um dos mais marcantes surge quando reflete sobre o seu próprio percurso: “Estou feliz por dizer que me sinto melhor em relação à segunda metade da minha vida do que em relação à primeira. O meu conselho: não se castiguem por erros passados — aprendam pelo menos um pouco com eles e sigam em frente. Nunca é tarde demais para melhorar. Arranjem os heróis certos e copiem-nos”. E reforça: “Escolham os vossos heróis com muito cuidado e depois imitem-nos. Nunca serão perfeitos, mas podem sempre ser melhores”

Buffett recorda o caso de Alfred Nobel, que, segundo relatos, leu acidentalmente o seu próprio obituário quando um jornal se enganou após a morte do seu irmão, ficando horrorizado com o que leu e decidindo mudar de comportamento. “Não contem com uma confusão de redação: decidam o que gostariam que o vosso obituário dissesse e vivam a vida para o merecer”, aconselha.

O Oráculo de Omaha também deixa uma reflexão sobre o que verdadeiramente importa. “A grandeza não vem de acumular grandes quantidades de dinheiro, grandes quantidades de publicidade ou grande poder no governo. Quando ajudamos alguém de qualquer uma das milhares de formas possíveis, ajudamos o mundo. A gentileza não tem custo, mas também não tem preço”. E acrescenta: “Quer sejam religiosos ou não, é difícil superar a Regra de Ouro como guia de comportamento”.

A sorte é inconstante e – não há outro termo que se encaixe melhor – extremamente injusta. Em muitos casos, os nossos líderes e os ricos receberam muito mais do que a sua parte de sorte, o que, com demasiada frequência, os beneficiários preferem não reconhecer.

Warren Buffett

Carta do Dia de Ação de Graças de 2025

Buffett admite ter sido descuidado inúmeras vezes e ter cometido muitos erros, mas diz ter tido muita sorte ao aprender com amigos maravilhosos como se comportar melhor. E deixa um último recado: “Lembrem-se de que a mulher da limpeza é tanto um ser humano quanto o presidente do conselho”.

Numa das passagens mais reflexivas da carta, Buffett aborda diretamente o papel da sorte e da injustiça na distribuição de riqueza e oportunidades. “Aqueles que chegam à velhice precisam de uma enorme dose de boa sorte, escapando diariamente a cascas de banana, desastres naturais, motoristas bêbados ou distraídos, raios — o que quer que seja”, escreve. Mas salienta que “a sorte é inconstante e – não há outro termo que se encaixe melhor – extremamente injusta”, lembrando “em muitos casos, os nossos líderes e os ricos receberam muito mais do que a sua parte de sorte, o que, com demasiada frequência, os beneficiários preferem não reconhecer”.

Buffett refere que herdeiros dinásticos alcançaram independência financeira vitalícia no momento em que nasceram, enquanto outros nasceram enfrentando situações de miséria ou deficiências físicas e mentais que lhes roubaram o que ele sempre deu por garantido. “Em muitas partes do mundo densamente povoadas, eu teria provavelmente tido uma vida miserável e as minhas irmãs teriam tido uma ainda pior”, reconhece. “Nasci em 1930 saudável, razoavelmente inteligente, branco, homem e na América. Uau! Obrigado, sorte”, declara. E nota que as suas irmãs tinham igual inteligência e melhores personalidades, mas enfrentaram perspetivas muito diferentes.

Apesar de reconhecer que o tamanho da Berkshire agora limita as oportunidades de crescimento, Buffett mantém a confiança no futuro da empresa. “No conjunto, os negócios da Berkshire têm perspetivas moderadamente melhores do que a média, liderados por algumas joias não correlacionadas e de dimensão considerável. No entanto, daqui a uma ou duas décadas, haverá muitas empresas que terão feito melhor do que a Berkshire; o nosso tamanho cobra o seu preço”.

Quanto às oscilações das cotações das ações, Buffett alerta que o preço dos títulos “mover-se-á caprichosamente, caindo ocasionalmente 50% ou mais, como já aconteceu três vezes em 60 anos sob a gestão atual”, alertando ao mesmo tempo que os investidores “não desesperem” porque “a América voltará e as ações da Berkshire também”.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Buffett abandona o trono, mas lança um último desafio

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião