“É surpreendente que as tecnológicas só agora tenham percebido que estão a ser limitadas pela energia”
António Coutinho, CEO da EDP Inovação, alerta que a IA traz novos desafios à rede energética e sublinha que a capacidade da mesma não cresceu ao ritmo da tecnologia.
“É surpreendente que as grandes empresas tecnológicas só agora tenham percebido que estão a ser limitadas pela energia”, afirmou esta terça-feira, na Web Summit, António Coutinho, CEO da EDP Inovação.
Para o responsável que protagonizou uma intervenção intitulada “AI’s power problem” (em português, “O problema energético da IA”) o crescimento exponencial da inteligência artificial (IA) e da digitalização global está a “chocar” com limites físicos que já não podem ser ignorados. “Por detrás de um conjunto de placas gráficas existe uma infraestrutura elétrica complexa, dependente de cobre, aço, pessoas, fábricas capazes de suportar uma procura cada vez maior”. Em suma, “sem energia não há inteligência artificial”.
António Coutinho sublinhou que, nos últimos anos, o setor digital tem escalado de forma exponencial, mas a infraestrutura energética cresce de forma “apenas incremental”. Para o executivo, esta divergência está a criar uma nova tensão entre a tecnologia e a realidade física, já que as capacidades de computação aumentam a passos largos, enquanto a rede elétrica, os transformadores e a capacidade de armazenamento não acompanham no mesmo ritmo.
Além disso, o CEO da EDP Inovação destacou que a Europa continua a depender significativamente de energia externa, importando cerca de 60% do consumo, e deu o exemplo da Irlanda, onde os centros de dados já consomem cerca de 20% da eletricidade do país, e novas ligações à rede só serão possíveis a partir de 2028. “Também em Singapura e na Virgínia do Norte a situação é semelhante: a energia disponível para grandes infraestruturas digitais está praticamente esgotada. Cada centro de dados de grande dimensão requer entre 300 e 500 megawatts, o equivalente a uma central elétrica de tamanho médio. E quando consideramos os sistemas de arrefecimento a necessidade de energia chega a duplicar”, explicou.

O executivo frisou que investir em inteligência artificial ou expandir serviços digitais depende agora da disponibilidade de energia confiável, sendo que esta situação tem implicações relevantes. “Hoje, 74% da população mundial vive em países que dependem de energia externa. A eletrificação é o caminho para a soberania e autoridade energética — e isso é geopoliticamente decisivo para o futuro”, afirmou o gestor.
A solução passa, para o responsável, não só pela eletrificação mas também por o reforço das energias renováveis. “A energia limpa não é apenas um símbolo ecológico — é simplesmente uma melhor aplicação da física”, disse, sublinhando que a transição energética oferece ganhos significativos de eficiência e sustentabilidade. “Um carro elétrico consome quatro vezes menos energia do que um veículo a combustão”, afirmou.
António Coutinho alertou, no entanto, que os principais desafios da transição energética não estão na tecnologia mas na estrutura do sistema, com redes elétricas desatualizadas, licenças demoradas e capacidade de armazenamento limitada. “A tecnologia já existe, o sistema é que não está preparado”, afirmou.
Para enfrentar estas limitações, a EDP Inovação lançou o programa Energy Starter que, segundo o executivo, testa soluções em contexto real e liga startups a problemas concretos de distribuição e armazenamento de energia. A empresa recorre também a drones, robótica e inteligência artificial para inspecionar infraestruturas e detetar problemas antes que se tornem críticos.
O executivo abordou também a dimensão económica da transição energética. “Na última década, o custo da energia solar caiu 65%, enquanto o armazenamento de eletricidade reduziu cerca de 65% nos últimos seis anos. Estes números mostram que investir em energias renováveis não é apenas sustentável, mas também financeiramente vantajoso”, afirmou. O CEO da EDP Inovação defende ainda que o solar e o eólico “já são as fontes mais baratas do mundo”, acrescentando que este tipo de investimento permite poupanças imediatas em combustíveis fósseis e garante independência energética a longo prazo.
“O próximo século será alimentado por eletrões, e a energia será a base de toda a inteligência artificial e da transformação digital”, concluiu António Coutinho.
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