Moedas toma posse em Lisboa sem maioria e dá vice-presidência a Gonçalo Reis
Na tomada de posse como presidente reeleito na Câmara de Lisboa, de novo sem maioria, Carlos Moedas deixou aviso à oposição: os lisboetas escolheram-no para governar.
A tomada de posse dos órgãos da Câmara Municipal de Lisboa decorreu nesta terça-feira na Gare Marítima de Alcântara, com Carlos Moedas a assumir o início do segundo mandato. Para lá de se conhecerem os pelouros entregues a cada um dos eleitos pela coligação de PSD, CDS e Iniciativa Liberal (IL), a expectativa estava igualmente no desvendar da dúvida sobre o nome do vice-presidente e, acima de tudo, na forma como Moedas se propõe resolver a ausência de uma maioria absoluta.
Segredo mais mal guardado da cerimónia – como o ECO/Local Online verificou, a marcação de lugares entre as centenas de cadeiras incluía uma folha A4 com a inscrição “acompanhante de Gonçalo Reis, vice-presidente da Câmara de Lisboa” –, Moedas escolheu o seu apoiante e número dois na lista para vice-presidente. Conforme confirmou o ECO/Local Online, isso vai mesmo acontecer.
Logo à chegada à tomada de posse, Mariana Leitão, líder da Iniciativa Liberal, esclareceu que, ao contrário do que sucede em Sintra, em Lisboa não haverá Executivo com presença do Chega. O partido de André Ventura obteve dois vereadores, que, somados aos oito da coligação PSD/CDS/IL, dariam um total de dez em 17. Contudo, se se excluíssem os eleitos da IL, os mesmos dois que os do Chega, o esforço negocial de Moedas seria em vão.
Assim, o presidente da Câmara segue, pelo segundo mandato consecutivo, para uma governação sem maioria absoluta – e com a esquerda a posicionar-se para liderar a Assembleia Municipal (AM), numa soma de 24 deputados entre os 18 da coligação liderada por Alexandra Leitão e os seis da CDU, ao passo que a coligação de direita obteve 21. Para fazer maioria na AM, Moedas necessitará do apoio do Chega, que tem seis deputados.
O Executivo “deve dialogar”, a oposição “deve deixar governar”, insta Moedas. “Não nos devemos esquecer quem os lisboetas mandataram para governar”. Deverá, frisa o autarca, haver diálogo para cumprir “vontade das pessoas” e “não as vontades partidárias”. “Serei o garante de que os lisboetas estarão em primeiro lugar”.
Numa tomada de posse com a Gare Marítima de Alcântara apinhada, contavam-se, entre outros, Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Leonor Beleza, os autarcas Pedro Duarte (Porto), Marco Almeida (Sintra), Hugo Luís (Mafra), Ricardo Leão (Loures) e Nuno Piteira Lopes (Cascais), e os presidentes do Sport Lisboa e Benfica e do Sporting Clube de Portugal.
Moedas e Gonçalo Reis à frente de uma equipa de combate
Lugar ocupado por Filipe Anacoreta Correia no primeiro mandato de Moedas, a vice-presidência caberá ao ex-deputado pelo PSD (durante o Governo de Durão Barroso), ex-vereador de Lisboa e mandatário financeiro da candidatura de Paulo Rangel à presidência do PSD (contra Rui Rio). Gonçalo Reis chegou a ser falado para candidato a presidente da autarquia em 2021.
No curriculum tem a presidência da RTP, o pelouro da administração financeira da Estradas de Portugal e o lugar de vogal não executivo da agência da cultura na capital, a EGEAC. Foi o rosto do movimento JuntarLisboa, que se propunha discutir a cidade nas suas diversas valências.
A 12 de outubro, a coligação de direita alcançou 41,69% dos votos e oito mandatos, a frente de esquerda encabeçada por Alexandra Leitão, com PS, BE, Livre e PAN, ficou-se pelos 33,95% e seis vereadores (o bloco de Moedas retirou um mandato ao PS, face à candidatura de Fernando Medina em 2021).
O Chega e o PCP elegeram o restantes três dos 17 vereadores, com uma disputa dramática até à 25.ª hora, da qual o Chega saiu vencedor por apenas um voto entre mais de 50 mil lisboetas que votaram nos dois partidos. Os primeiros ficaram com dois mandato e os comunistas com apenas um.
Além do presidente e do vice-presidente, o Executivo liderado por Carlos Moedas conta ainda com:
- Joana Baptista
Número 3 da lista, a até aqui vereadora em Oeiras é independente, indicada pelo PSD. Depois de 19 anos naquela autarquia, a oeirense muda-se para a vizinha Lisboa. Na vereação do Executivo de Isaltino Morais desde 2017, tinha o pelouro das Obras Municipais, Ambiente e Qualidade de Vida, Proteção Civil Municipal, Mobilidade e Transportes.
A “supervereadora” é a escolha de Moedas para tentar valorizar o espaço público na capital, um dos maiores focos de críticas ao primeiro mandato do autarca. O lixo foi um dos calcanhares de Aquiles, mas Moedas quer alterar essa realidade com a mão de Joana Baptista, nome “de combate” para um problema que o presidente tenciona atacar com seis dias de recolha de lixo e a retirada às juntas de Freguesia da competência de gestão dos resíduos dos ecopontos.
- Rodrigo Mello Gonçalves
Coordenador da Iniciativa Liberal de Lisboa e deputado na Assembleia Municipal, já esteve no PSD e na Aliança. Há dois anos juntou-se à coligação Novos Tempos (PSD/CDS) na votação na Assembleia Municipal da criação de um arruamento “25 de novembro de 1975”, a qual acabaria chumbada pela maioria de esquerda naquele órgão.
Em 2018 substituiu José Eduardo Martins no lugar de deputado municipal. Em fevereiro de 2019 desfiliou-se do PSD e passou a independente, sendo reeleito em 2021, mas já pela IL. Nas razões para abandonar os social-democratas esteve a discordância com o rumo do partido sob a presidência de Rui Rio. Considerava, segundo uma carta enviada ao partido e citada pela Lusa que o “PSD se reposicionou no espetro político, apresentando-se, por diversas vezes, como um partido de centro-esquerda, privilegiando o diálogo com o PS, em vez de procurar liderar uma dinâmica de mudança e de união da área do centro e da direita”.
- João Diogo Moura
Licenciado em Comunicação, consultor na Câmara desde 2002 e ex-autarca na freguesia da Encarnação, é secretário da Distrital e da Concelhia de Lisboa e ainda Conselheiro Nacional do CDS.
- Maria Aldim
Vice-presidente do CDS e líder da Concelhia de Lisboa dos centristas, já foi candidata à Junta do Areeiro e tem vários mandatos como deputada municipal. Faz parte do núcleo duro de Nuno Melo, que a escolheu para vice-presidente quando chegou a presidente do CDS. Esteve ao lado de Melo quando este manifestou intenção de se candidatar contra Francisco Rodrigues dos Santos – o que acabaria por não acontecer – e apresentou por escrito, num artigo de opinião no jornal Novo, as suas razões. A gestora em startups financeiras acusou “Chicão” de “fugir ao confronto democrático”.
- Vasco Moreira Rato
Independente indicado pelo PSD, foi o sétimo vereador eleito a 12 de outubro. Professor no ISCTE, licenciado em Arquitetura e com doutoramento em Engenharia, foi adjunto da vereadora responsável pela Habitação e Obras Municipais em Lisboa, Filipa Roseta, uma das grandes ausências neste novo Executivo face ao primeiro mandato de Carlos Moedas.
- Vasco Anjos
Tal como o CDS, a IL elegeu dois vereadores, beneficiando do oitavo mandato (em 2021, Moedas teve apenas sete). Vasco Anjos foi o oitavo e último vereador eleito pela coligação PSD/CDS/IL. No mandato anterior à chegada de Moedas esteve no departamento de aprovisionamentos da Câmara e em 2024 e 2025 regressou para fazer parte da direção de Recursos Humanos, Departamento de Saúde Higiene e Segurança. Pelo meio, passou pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
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