Presidente do unicórnio Remote critica humanização dos agentes de IA
Marcelo Lebre explica que a tecnologia permite fazer dez vezes mais dentro de uma empresa, com menos recursos, mas ainda não tem "senso comum" para decidir quando os trabalhadores precisam de apoio.
O cofundador e presidente do unicórnio Remote, que gere recursos humanos (RH) espalhados pelo mundo, considera que os agentes de inteligência artificial (IA) estão a ser mais humanizados do que deveriam pela opinião pública, mas recusa preocupação de que se tornem única força de trabalho das empresas.
“Esta onda de referir as coisas como IA agêntica pode ser problemática. Porquê? Acho que é uma maneira de os humanos de certa forma humanizarem ou antropomorfizarem algo que é amorfo. A IA está apenas a fazer coisas baseando-se em inputs e outputs com informação pré-carregada”, explicou Marcelo Lebre, numa intervenção durante a Web Summit 2025.
Na visão do cofundador do quinto unicórnio português, “não devíamos estar a olhar para os agentes como se fossem fazer todas as coisas”, apesar de a IA ser “ótima em termos gerais”, nomeadamente para obter valor acrescentado dentro da organização, medir a eficiência interna, rever a performance ou propor melhorias.
Questionado sobre como a Remote, que gere folhas de pagamento e contratos de trabalhadores a nível mundial, se posiciona nesta era dos agentes, Marcelo Lebre mantém-se convicto da missão da tecnológica fundada em 2019. “Faço este pitch em dois segundos: somos a espinha dorsal dos RH das empresas, porque elas passam para nós tudo o que tenha a ver com a gestão operacional da força de trabalho em todo o mundo.” E conta que fizeram uma revisão de performance numa empresa com 2.000 pessoas em menos de 48 horas.

O processo de delegar trabalho à tecnologia pode ser analisado em dois pontos de vista: redução de custos ou crescimento. Se se for ver o tema apenas na perspetiva de corte de custos, o que vai acontecer é que a força de trabalho “vai encolher”, começou por explicar, na sessão “Do more with less” (“Faz mais com menos”), moderada pelo ECO.
“O que está a acontecer além-fronteiras é que as empresas estão a perceber que a IA é uma espécie de armadura do Homem de Ferro em podem fazer muito mais do que faziam antes. Não precisam necessariamente de reduzir o tamanho das equipas, mas se calhar obténs dez vezes mais a execução que estás a obter das equipas do que há cinco ou mais anos”, assinalou Marcelo Lebre.
Máquinas só fazem “mímica” dos humanos
Marcelo Lebre afirma que os modelos de IA (L.L.M. – Large Language Models) que são utilizados atualmente funcionam como mímica, limitando-se a imitar os seres humanos.
“Os modelos que utilizamos hoje, chamamos-lhe IA, mas são IA mímica. Não são realmente inteligentes. Podem gerar informação com rapidez e precisão, mas não têm uma habilidade inata para perceber, como têm os humanos. Nós conseguimos processar informação de uma forma que as máquinas ainda não conseguem”, garantiu.
Ou seja, conseguem ler os documentos, produzir informação a partir daí e realizar tarefas, mas quando o “senso comum” entra no debate, a situação é diferente. Em temas de RH, essas diferenças denotam-se particularmente, como exemplificou o empreendedor.
Se estiveres numa situação em que um funcionário chega ao pé de ti e diz “tenho um familiar doente, não estava à espera desta situação, importas-te que tire o resto do dia?” o que a IA faria era ir ao livro de regras da empresa e vai dar a resposta que lê nas regras, que é que precisaria de ter pedido o dia off com 48 horas de antecedência
O presidente da Remote disse ainda que, enquanto solução de payroll internacional, grande parte do trabalho da empresa, é fiscalidade e compliance legal — e mesmo as interpretações fiscais e jurídicas “requerem um humano para dar o melhor” resultado.
Marcelo Lebre garantiu ainda que a Remote vai continuar remota (sem escritórios) e negou ser o 17º unicórnio a entrar em Lisboa. Aliás, garantiu que pretende manter este regime de trabalho, entre os Estados Unidos e Portugal, e desvaloriza as nomenclaturas criadas na pandemia para definir flexibilidade laboral. “Não interessa se trabalha no escritório ou se faz teletrabalho. Esta flexibilidade não é de agora. Já acontecia há décadas só que simplesmente não tinha um nome. Mesmo as empresas que se mostram contra o trabalho distribuído elas próprias são muito distribuídas”, concluiu, no palco People Summit, na 10.ª edição da cimeira tecnológica, na FIL.
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