Sem “drama”, empresários lamentam “timing” da greve e confiam em baixa adesão

Representantes de setores como a metalurgia, têxtil, calçado e cerâmica admitem que um dia de trabalho tem consequências, mas afastam maiores impactos ou atrasos nas entregas.

ECO Fast
  • • A greve geral de 11 de dezembro deverá ter impacto limitado, com associações do metal, têxtil, vestuário, calçado e cerâmica a preverem baixa adesão e poucos atrasos nas entregas, lamentando o “timing” da paralisação enquanto decorrem negociações na concertação social.
  • • Na metalurgia, a AIMMAP antecipa adesão inferior a 0,5%. No têxtil, a ATP e empresas como a Riopele e a Vista Alegre falam em impactos residuais, embora a ANIVEC alerte para ansiedade de clientes e possíveis antecipações ou cancelamentos de encomendas.
  • • Os empresários pedem revisão da lei laboral e dinamização da contratação coletiva, reconhecendo perturbações pontuais (transportes, lojas) mas descartando “drama”. O setor do calçado alerta para a incerteza externa e exposição exportadora, insistindo num acordo para evitar rutura nas conversações.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A greve geral marcada para o próximo dia 11 de dezembro deverá ter pouco impacto para setores como o metal, têxtil e vestuário ou calçado, antecipam representantes destas empresas. Num momento em que muitas destas indústrias enfrentam uma conjuntura de grande instabilidade, os empresários lamentam que os sindicatos tenham decidido avançar com uma paralisação, num momento em que os parceiros ainda negoceiam na concertação social.

“A marcação da greve geral não me surpreende, porque já nada me surpreende, mas é estranho. É uma prova de vida dos sindicatos, mas faz muito pouco sentido neste contexto. Prova que a lei laboral tem de ser ajustada”, critica Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da AIMMAP (Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal), o setor mais exportador da economia portuguesa, com vendas ao exterior na ordem dos 24 mil milhões de euros.

O representante da indústria metalúrgica e metalomecânica realça um “fosso entre trabalhadores e sindicatos”, acusando as entidades sindicais de discutirem temas “obsoletos, que não têm nada a ver com o que os trabalhadores sentem”.

Em termos de impacto no setor do metal, Rafael prevê “uma adesão inferior a 0,5%, o que mostra que [esta greve] não mobiliza“. “As empresas estão tranquilas”, admitindo “alguns impactos indiretos, na Grande Lisboa e Porto, de pessoas que não consigam ir trabalhar”.

César Araújo, CEO da Calvelex e presidente da ANIVEC (Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e de Confeção), lamenta a “má fé” dos sindicatos. “Marcar greve sem saber o que vai acontecer no desenrolar da negociação é má fé. Não está correto“, atira.

Os clientes vão forçar as empresas a antecipar entregas ou, com o receio que as fábricas não consigam entregar as encomendas a tempo, vão acabar por cancelar.

César Araújo

Presidente da ANIVEC

Independentemente de qual seja a adesão dos trabalhadores, o empresário destaca que, “para o setor, tudo o que seja parar cria atrasos”.

“O impacto da notícia cria ansiedade nos clientes. Os clientes vão forçar as empresas a antecipar entregas ou, com o receio que as fábricas não consigam entregar as encomendas a tempo, vão acabar por cancelar“, realça.

“O impacto nas empresas até pode ser fraco, mas os clientes já dão como dado adquirido que há greve”, reforça, acrescentando que “os agentes económicos e o setor empresarial privado estão a fazer um esforço enorme para colocar Portugal na linha da frente”, trabalhando para impedir o país de “mergulhar numa crise profunda”.

Ricardo Silva, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, concorda que houve “alguma precipitação” na marcação da greve, notando que as negociações começaram mal e “criou-se uma bolha que está algo descontrolada”. Mantendo fé que as conversações ainda podem ter um desfecho positivo, Ricardo Silva defende que “deve haver uma revisão laboral” para atualizar a lei.

Ricardo Silva, novo presidente da ATP, acredita que “não haverá paralisação significativa” no setor.Ricardo Castelo/ECO

Quanto ao impacto no têxtil e vestuário, o responsável acredita que “não haverá uma paralisação significativa“, fruto da proximidade entre as empresas e as pessoas.

José Alexandre Oliveira, presidente da Riopele, refere que “sempre houve greves, mas isto é só um anteprojeto. Ainda vai passar muita água debaixo da ponte para já estar apontada uma greve. É uma decisão antes de tempo“.

Naquilo que considera um jogo de forças políticas, o empresário que emprega mais de mil pessoas, diz que “não podemos continuar eternamente com os mesmos pressupostos. O mundo está a mudar. É preciso dinamizar a contratação coletiva”. Quanto à paragem em si, refere que impacto vai haver “sempre”.

“Um dia de trabalho é um dia de perturbação” e as “consequências vão cair para todos”.

“Gostava que houvesse uma harmonia entre as partes. Estou aqui para segurar os postos de trabalho e as coisas não estão fáceis“, atira o empresário.

Reportagem Fábrica Vista Alegre em Ílhavo - 29NOV24
Fábrica Vista Alegre em ÍlhavoHugo Amaral/ECO

Com seis fábricas em Portugal, cinco filiais e 2.450 funcionários, a Vista Alegre também deverá ser afetada pela greve, mas Teodorico Pais, ainda que admita alguma “preocupação legítima com uma greve geral”, diz que o “peso das adesões não tem sido muito relevante“.

“Atendendo ao histórico e à relação com os nossos trabalhadores com greves gerais, não têm tido grande impacto, adesão”, realça o administrador da Vista Alegre Atlantis, em declarações ao ECO, embora note que no negócio mais ligado ao vidro e ao cristal sente-se mais as movimentações sindicais.

A preocupação existe, vamos estar atentos, para que o impacto não seja muito grande”, esclarece. Quanto a um eventual impacto nas vendas para a quadra festiva, o administrador da Vista Alegre explica que, neste negócio, a empresa começa “a produzir, nalguns casos, no início do ano para acumular estas peças que historicamente vão ocorrer em dezembro. Não é um dia de produção” que vai atrasar as entregas.

Caso distinto é se as lojas encerrarem: “Aí temos um grande problema”.

“Mas não temos no decurso de qualquer greve um caso em que tenha havido encerramento de lojas. Há aqui, derivado à relação com os colaboradores, um compromisso muito grande com a marca”, conclui.

No calçado, Paulo Gonçalves, porta-voz da APICCAPS, realça que “a greve é um direito da Constituição”, mas lamenta “é que tenham chegado aqui quando as propostas deviam ser discutidas em profundidade” em sede de concertação social. “Esperamos que não chegue a uma rutura”, diz.

Lamentamos que [os sindicatos] tenham chegado aqui quando as propostas deviam ser discutidas em profundidade em sede de concertação social. Esperamos é que não se chegue a uma rutura.

Paulo Gonçalves

Porta-voz da APICCAPS

Quanto ao impacto, o porta-voz do calçado diz que o setor vai “ter de pagar a fatura de pelo menos um dia de trabalho”, mas não fará “disso um drama“.

“Historicamente não costuma haver uma adesão muito grande no setor, mas afetará sempre”, destaca.

Num momento marcado por conflitos geopolíticos e tensões comerciais, Paulo Gonçalves sublinha que há que perceber que existe “um cenário de incerteza” internacional. “O calçado é um setor que exporta mais de 90% da produção e estamos expostos à concorrência internacional”, alerta o responsável.

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