Portugal acelera nas renováveis mas tropeça na rede elétrica, alerta a Agência Internacional de Energia

A Agência Internacional de Energia elogia Portugal pelo avanço nas renováveis, mas alerta para o risco de estrangulamentos na rede elétrica que podem travar a transição energética e digital.

Portugal está entre os países europeus que mais rapidamente avançou na transição para energias renováveis, mas é também um dos mais expostos a estrangulamentos na rede elétrica, adverte a Agência Internacional de Energia (AIE) no relatório “World Energy Outlook 2025”, publicado esta quarta-feira. Este alerta da AIE é particularmente relevante numa altura em que o país procura atrair investimentos massivos em infraestruturas digitais altamente intensivas em energia.

A agência, que tem Portugal como país membro, identifica no documento um padrão repetido em várias economias avançadas: apesar do progresso na instalação de energia renovável, as redes de transmissão e distribuição não estão a acompanhar o ritmo necessário, criando congestionamentos que põem em risco tanto a integração de novas fontes de eletricidade como a ligação de grandes consumidores industriais, entre os quais os prometidos centros de dados.

“As redes elétricas enfrentam vários desafios. Estes incluem congestionamentos regionais, estrangulamentos nas cadeias de fornecimento, oposição pública e desafios de localização”, refere a AIE no relatório, sublinhando que “o risco de atraso na expansão da rede evidencia-se nas crescentes filas de interligação”, apontando para que cerca de 2.800 GW de projetos solares e eólicos globalmente, mais de metade deles numa fase avançada, aguardarem ligação à rede.

Grandes partes das redes de transmissão e distribuição na Europa e América do Norte datam de meados do século XX. Apenas cerca de 20% da infraestrutura da rede tem menos de dez anos, enquanto mais de 50% está em serviço há mais de 20 anos.

World Energy Outlook 2025

Portugal tem apostado fortemente na atração de investimento em centros de dados, explorando vantagens competitivas como a abundância de energia renovável — mais de 70% da eletricidade é já produzida a partir de fontes limpas –, preços industriais abaixo da média europeia e uma posição geográfica estratégica com múltiplos cabos submarinos de telecomunicações. Projetos como o complexo desenvolvido em Sines pela Start Campus, que prevê 1,2 GW de capacidade, representam uma aposta ambiciosa para transformar o país num hub digital europeu.

Contudo, esta estratégia colide frontalmente com a realidade das infraestruturas energéticas existentes. O relatório da AIE avisa que “pontos de procura concentrada como clusters de centros de dados podem sobrecarregar redes locais”, referindo que “em partes dos EUA já representam mais de 10% da procura de eletricidade, e na Irlanda cerca de 20%”.

De acordo com a associação que representa os ‘data centers’ em Portugal (Portugal DC), o país deverá captar cerca de 12 mil milhões de euros de investimento desta indústria nos próximos cinco anos. Mas o consumo de energia previsto é substancial: um estudo recente publicado pela Portugal DC, os centros de dados em Portugal, a mobilidade elétrica e o hidrogénio verde consumirão 8,5 terawatts-hora(TWh) de eletricidade até 2031, exigindo um fornecimento de energia para tecnologias de informação que crescerá mais de 40 vezes, atingindo 1,5 gigawatt (GW).

A União Europeia expandiu a sua rede em mais de 10% na última década, impulsionada menos pelo aumento da procura de eletricidade e mais pela necessidade de conectar novas fontes de energia renovável variável, frequentemente localizadas longe das linhas existentes. Ainda assim, a AIE constata que “grandes partes das redes de transmissão e distribuição na Europa e América do Norte datam de meados do século XX”, sublinhando que “apenas cerca de 20% da infraestrutura da rede tem menos de dez anos, enquanto mais de 50% está em serviço há mais de 20 anos”.

O envelhecimento das infraestruturas torna as redes mais vulneráveis a falhas e exige investimentos para prolongar a sua vida operacional, alerta o relatório. Entre 2024 e 2035, cerca de 20 milhões de quilómetros de linhas de rede terão de ser substituídas globalmente, dos quais 20 milhões em economias avançadas, principalmente nos EUA, estimam os analistas da AIE no relatório “World Energy Outlook 2025”. Até 2050, este número sobe para 45 milhões de quilómetros, com 90% das substituições a concentrar-se em linhas de distribuição, apontam as projeções da AIE.

Investimento insuficiente e prazos longos

Segundo os cálculos da AIE, o investimento anual em redes de transmissão e distribuição de eletricidade deverá aumentar a uma taxa média anual de 5%, passando de 390 mil milhões de dólares em 2024 para cerca de 650 mil milhões em 2035. Na União Europeia, o investimento atingiu quase 70 mil milhões de dólares em 2024, tendo crescido 60% desde 2013 e sido focado na integração de renováveis variáveis e no desenvolvimento transfronteiriço da rede. ​Mas o ritmo pode não ser suficiente.

Os técnicos da AIE sublinham ainda que “a rápida expansão do investimento em redes elétricas está já a sobrecarregar as cadeias de fornecimento”, notando que “os prazos de entrega para grandes transformadores de potência e cabos de alta tensão quase duplicaram em muitas regiões e os tempos de espera para sistemas HVDC (Corrente Contínua em Alta Tensão) estendem-se pela década de 2030”, ao mesmo tempo que “os preços de materiais-chave como cobre e alumínio permanecem elevados.”​

Na Europa, os fabricantes de cabos operam a capacidade máxima, com carteiras de encomendas comprometidas para os próximos anos devido à forte procura de projetos de interligação e eólica offshore, destaca a AIE. A escassez de mão-de-obra qualificada, associada a obstáculos de licenciamento, causa atrasos consideráveis e aumenta custos, notam os especialistas.

A vulnerabilidade das redes europeias tornou-se evidente a 28 de abril de 2025, quando um apagão generalizado afetou a Península Ibérica, interrompendo o fornecimento de eletricidade em Espanha, Portugal e partes do sul de França, afetando mais de 50 milhões de pessoas, destaca o “World Energy Outlook 2025”.

[O apagão de 28 de abril na Península Ibérica] demonstra que a segurança elétrica nos sistemas elétricos modernos depende não apenas da geração, mas também da qualidade da operação da rede e do comportamento de todos os ativos conectados.

World Energy Outlook 2025

O evento, analisado pela AIE no relatório, foi desencadeado por uma rápida sequência de falhas técnicas que expuseram fragilidades sistémicas. “O incidente demonstra que a segurança elétrica nos sistemas elétricos modernos depende não apenas da geração, mas também da qualidade da operação da rede e do comportamento de todos os ativos conectados”, observam os técnicos da AIE.

Em resposta, o Governo português anunciou um pacote de medidas de reforço da segurança do sistema elétrico nacional, incluindo a duplicação do número de centrais de arranque autónomo (black start), melhorias e modernização da rede elétrica com um investimento de 137 milhões de euros, e o lançamento até janeiro de 2026 de um leilão de 750 MVA baseado em armazenamento em baterias.

Apesar destes passos, o relatório da AIE aponta para a necessidade de muito mais ser feito, desenhando um quadro amplo de desafios que Portugal e a Europa enfrentam nos próximos anos, que tem como cenário base o aumento de 40% da produção de eletricidade na região até 2035, com a eletricidade a representar uma fatia crescente do consumo final de energia — de 21% atualmente para 25% em 2035.

O relatório destaca que as energias renováveis continuarão a liderar a expansão da capacidade de geração, com as fontes de baixas emissões a passarem de 40% da geração elétrica global em 2024 para mais de 60% em 2035, no cenário de políticas declaradas da AIE. Segundo as projeções, na União Europeia, a quota combinada de nuclear, eólica e solar fotovoltaico garantirá que as fontes de baixas emissões ultrapassem 50% do mix elétrico até 2035.

Contudo, o relatório adverte que “alcançar esta transformação não é isento de desafios”, salientando que “as redes estão a tornar-se mais complexas, e os longos prazos para o desenvolvimento da rede, frequentemente superiores a uma década para grandes projetos de transmissão, estão já a causar atrasos”. A AIE conclui que “a trajetória de descarbonização da União Europeia depende fortemente do seu sistema elétrico”.

Significa que o sucesso desta transição dependerá da capacidade de expandir e modernizar rapidamente as infraestruturas de rede, integrar armazenamento de energia, reformar mercados e garantir investimentos suficientes nas redes de transmissão e distribuição – precisamente as áreas onde Portugal se destaca pelas energias renováveis, mas onde os estrangulamentos de rede representam um risco real à concretização das suas ambições económicas e climáticas.

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