De velhos conhecidos a novos candidatos. Quem são os rivais de Centeno para a vice-presidência do BCE?
O nome mais forte é o ex-comissário europeu Olli Rhen, mas há um número anormalmente grande de candidatos ao lugar de vice-presidente do Banco Central Europeu.
- O processo de escolha do novo vice-presidente do Banco Central Europeu foi formalmente aberto, com Mário Centeno entre os candidatos e já apoiado por Portugal, numa corrida que inclui vários nomes de peso europeus.
- O finlandês Olli Rehn surge como o principal rival, seguido por Boris Vujčić, Christina Papaconstantinou e Mārtiņš Kazāks, refletindo a tentativa de equilibrar geografias, géneros e perfis técnicos entre os países do euro.
- A decisão final caberá ao Conselho Europeu após audições no Parlamento Europeu, num processo que poderá redefinir equilíbrios de poder na liderança do BCE antes da sucessão de Christine Lagarde em 2027.
Nesta quarta-feira, tanto o ministro das Finanças como o primeiro-ministro verbalizaram pela primeira vez o apoio a Mário Centeno na sua corrida ao lugar de vice-presidente do Banco Central Europeu, tal como o ECO havia noticiado em primeira mão. Nesta última reunião do Eurogrupo o processo foi finalmente aberto e definido o calendário, e acelerou a clarificação portuguesa para um posicionamento que outros países estão também a fazer.
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Mário Centeno é considerado um candidato forte mas está longe de estar sozinho nesta disputa, que depende do currículo, sim, mas também de negociações políticas entre os vários países. Mas, afinal, quem são os nomes já conhecidos (ou mais fortemente apontados) para ficar com o lugar de Luis de Guindos, o espanhol que termina mandato a meio do próximo ano?
Olli Rehn
Rehn é o mais velho dos candidatos até agora conhecidos, e um veterano das instituições europeias. Nascido em 1962, chegou a jogar futebol nas camadas jovens do Mikkelin Palloilijat, clube local da região de origem de Rehn, no este do País, e então na primeira divisão finlandesa. Desde cedo começou um percurso internacional, estudando nos Estados Unidos e posteriormente em Oxford, partilhando com Centeno o selo de uma universidade de topo mundial. Entra para a política na segunda metade dos anos 80, através do Partido do Centro, considerado de centro-direita no espetro político habitual.
Teve cargos na juventude partidária e ao nível municipal na capital do país, Helsínquia. A sua ascensão política levou-o a ser deputado no parlamento finlandês mas o salto dá-se de seguida, quando passa para o Parlamento Europeu. Em 2004 torna-se comissário europeu para as empresas e sociedade de informação ao substituir o também finlandês Erkki Liikanen, que saiu para liderar o banco central do seu país. Ficou no cargo durante os quatro meses finais do mandato da Comissão liderada pelo italiano Romano Prodi. Foi de seguida comissário europeu com a pasta do alargamento de 2004 a 2010 e com a pasta de assuntos económicos e monetários de 2010 a 2014, sempre sob a liderança de José Manuel Durão Barroso. É dessa altura o seu papel na defesa dos programas de austeridade aplicados a Portugal e à Grécia, ainda que com o passar dos anos tenha passado a ter uma postura mais conciliatória.

Em 2015 volta à Finlândia, sendo brevemente ministro das Finanças e posteriormente deputado. É governador do banco central da Finlândia desde 2018 e, em 2024, concorreu à Presidência da República, tendo ficado em quarto lugar.
Boris Vujčić
É praticamente um desconhecido a nível europeu mas é a cartada que a Croácia decidiu jogar agora, assente no argumento de que os chamados países do alargamento precisam de começar a ter uma representação mais relevante a nível comunitário e das suas principais instituições. Nascido em 1964, tem um currículo sobretudo local, com a sua formação a fazer-se em Zagreb, a capital do seu país, ainda que tenha sido professor visitante em instituições em Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. O seu primeiro emprego foi enquanto professor universitário e entrou para o banco central da Croácia em 1996, para liderar o departamento de research económico, continuando por vários anos a ser professor.

A ascensão no banco central levou-o a vice-governador em 2000 e a governador a partir de 2012, estando no primeiro ano de um terceiro mandato de seis anos. Teve um papel considerado muito importante no processo de adesão da Croácia à União Europeia e posteriormente com a entrada na Zona Euro. É visto como uma figura muito respeitada entre os banqueiros centrais do leste da Europa.
Christina Papaconstantinou
A vice-governadora do banco central da Grécia tem um percurso diferente dos restantes candidatos, até porque vem de uma formação jurídica e não económica. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Atenas e fez em Londres o mestrado em Direito Comunitário, antes de enveredar pelo mundo mais financeiro. Entre 2012 e 2014 foi secretária-geral do ministério das Finanças grego e, nesse cargo, teve um papel importante nas negociações entre a Grécia e os financiadores internacionais, com o correspondente desenho das medidas de austeridade e do plano de transformação económica do país.
Foi ainda consultora governamental em dossiers jurídicos e financeiros, ao longo dos anos. Em 2017 foi nomeada presidente do PQH Single Special Liquidation S.A, veículo encarregue da liquidação de várias instituições financeiras que sucumbiram à crise e da venda de ativos das suas carteiras. Entre 2019 e 2021 foi membro da comissão gestora do mercado de capitais grego e, nesse último ano, foi nomeada vice-governadora do banco central grego, cargo que ainda ocupa. Tem participado em vários comités internacionais, nomeadamente europeus, em áreas como a estabilidade financeira.

Tem como um dos trunfos ser mulher, o que é importante perante a habitual subrepresentação do género feminino na cúpula dom BCE. No entanto, o Politico noticiou recentemente que uma eventual candidatura sua pode ser condicionada pela alegada ambição de Kyriakos Mitsotakis, o primeiro-ministro grego, em assegurar para si um lugar europeu de topo, em 2027, pelo que poderia não colocar em campo todos os esforços diplomáticos do país neste momento e para este lugar específico da vice-presidência do BCE.
Mārtiņš Kazāks
Foi o último nome a surgir em público, embora já se especulasse que a Letónia teria interesse em propor um candidato. Com 52 anos, tem como outros candidatos formação académica no estrangeiro: licenciou-se em Economia em Cambridge e fez mestrado e doutoramento, na mesma àrea, na Queen Mary University, em Londres. Teve um longo e bem sucedido percurso na banca do seu país, nomeadamente no Hansabank Group (hoje em dia Swedbank), com presença relevante na Letónia. Em 2018 saiu de economista-chefe da instituição para integrar o conselho de supervisão do banco central da Letónia. Colaborou também, na área de previsões económicas e de desenho de políticas fiscais, com o ministério das Finanças do seu país.

Em dezembro de 2019 foi nomeado governador do Banco da Letónia, tornando-se o mais jovem de sempre a ocupar esse posto. Tem chamado a atenção por ser relativamente vocal nas suas declarações acerca do rumo das taxas de juro do banco central europeu.
Uma corrida que começa agora
Na reunião desta quarta-feira, foi feita formalmente a comunicação, por parte do BCE, do início do processo, tendo em atenção o final do mandato de De Guindos. No encontro não foram discutidos nomes mas sim explicado o calendário, que tem um ponto alto daqui a cerca de um mês, em nova reunião. Então os estados-membros da Zona Euro propõem nomes, que são depois debatidos pelos ministros das Finanças no âmbito do Ecofin. Quando houver um nome escolhido, este é proposto ao Conselho Europeu, órgão atualmente presidido pelo ex-primeiro-ministro português, António Costa.
De seguida o candidato(a) é ouvido formalmente pelo Parlamento Europeu, no comité de assuntos económicos e monetários. No final, é emitida uma opinião tanto pelo Parlamento Europeu como pelo Conselho do BCE, constituído pelos seis membros da Comissão Executiva e pelos governadores dos bancos centrais dos 19 países da área do euro. Só depois termina o processo, correndo tudo bem, com a nomeação por parte do Conselho Europeu, através de aprovação por maioria reforçada.
Com relógio finalmente a correr, é de esperar que possam surgir mais nomes como possíveis candidatos, mas é igualmente possível que alguns possam estar em cima da mesa mas acabem por não avançar, por falta de apoios. Para além disso, é relativamente comum haver uma lista mais reduzida quando se aproxima o momento decisivo, e há nomes lançados agora que, mesmo falhando, possam ser lançados mais tarde para outros cargos. Ou até que um estado-membro lance um nome e, este falhando, acabem por ganhar uma espécie de créditos de negociação para o futuro, mesmo que com outro responsável como figura de proa.
No BCE, Luis de Guindos é o próximo a sair mas haverá mais vagas de seguida. O irlandês Philip Lane, economista-chefe do BCE, termina mandato em junho de 2027 e, cinco meses depois, será a vez da própria presidente, a francesa Christine Lagarde.
Não é obrigatório que os estados apoiem em público um candidato, uma vez que o que conta é o que se passa nas reuniões decisivas e no lóbi político atrás de portas fechadas. Ainda assim, a Finlândia foi o primeiro país a anunciar formalmente um apoio, a Olli Rehn, pela voz da vice-primeira-ministra Riikka Purra.
Seguiu-se, na quarta-feira, Portugal a apoiar Mário Centeno, pelas vozes de Luís Montenegro e de Joaquim Miranda Sarmento, ainda que de forma mais contida e salientando que há que respeitar o calendário, que não está ainda na fase oficial da proposta de nomes pelos países.
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