Morreu António Mota (1954-2025). O engenheiro que se fez empresário

O "patrão da Mota", como era conhecido, morreu este domingo. Foi líder e presidente do maior grupo construtor português entre 1995 e 2023.

8ª edição da conferência anual do ECO "Fábrica 2030"
António Mota foi distinguido pelo ECO com o prémio Lifetime Achievement, em dezembro de 2024Hugo Amaral/ECO

António Mota, antigo presidente da Mota-Engil, morreu este domingo. O engenheiro que teve a “vantagem de ser o filho do patrão”, mas que também o obrigou a “provar o dobro”, dedicou a vida inteira a engrandecer a construtora da família. Mais do que dinheiro, dizia ter herdado “muito trabalho para fazer”; aos filhos e sobrinhos, entrega um legado de “tanto trabalho” quanto o fundador tinha deixado a si e às três irmãs.

O empresário, que assumiu a presidência da maior construtora portuguesa entre 1995 e 2023, tinha abandonado o cargo de vice-presidente do conselho de administração em abril deste ano, deixando de ter lugar na administração da construtora criada pelo seu pai, Manuel António da Mota, que é agora liderada pela terceira geração, com o sobrinho Carlos Mota dos Santos como CEO desde 2023.

Há pouco mais de dois meses, António Mota decidiu transferir para os quatro filhos 28% do capital da Mota Gestão e Participações, SGPS (MGP), a dona da construtora fundada pela família Mota. Em setembro, cedeu ainda o seu lugar na administração da sociedade familiar ao filho Manuel Mota, que já tinha ocupado o lugar do pai no board da construtora.

António Manuel Queirós Vasconcelos da Mota nasceu em 1954, em Amarante, onde viveu até aos 15 anos de idade. Filho de Manuel António da Mota e Maria Amália Guedes Queiroz de Vasconcelos, até aos 10 anos sonhava ser polícia. Depois, engenheiro. Mas o destino de António Mota estava traçado desde que nasceu: dar continuidade à empresa criada pelo pai, a sua grande referência.

À semelhança das irmãs, andou num colégio de freiras, o Colégio de S. Gonçalo. Licenciado em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, António Mota iniciou a sua carreira em 1976 como estagiário na Mota & Companhia. Na empresa passou por diversas direções operacionais, até suceder ao pai na liderança. Em 1981 assumiu a direção geral da Mota & Companhia, tendo depois, entre 1987 e 1995, assumido o cargo de vice-presidente executivo, até suceder ao pai, em 1995, ao assumir a presidência da empresa fundada em 1946.

Com a fusão dos grupos Mota e Engil, em 2000, assumiu a presidência executiva da Mota-Engil SGPS. A união destas duas empresas foi decisiva para acelerar o crescimento da construtora que hoje conhecemos, dando um impulso ao negócio. “O que foi mais importante para a Mota-Engil foi a fusão da Mota & Companhia e da Engil. Continuo a chamar-lhe fusão. O primeiro passo foi a tentativa de uma fusão amigável. Costuma haver dois teimosos para haver teimosia. Eu acho que neste caso só havia um teimoso que era o outro lado. Depois não houve fusão amigável e teve de ser um pouco à força“, recordou António Mota quando recebeu o prémio Lifetime Achievement do ECO, em dezembro de 2024.

Em 2008, António Mota decide fazer uma alteração importante na maior construtora portuguesa, criando o cargo de CEO, distinguindo a presidência executiva e não executiva. Com apenas 53 anos, chamou Jorge Coelho, então antigo ministro das Obras Públicas, para o suceder na liderança executiva, por entender que era necessário fazer uma remodelação, corrigir erros, e criar as condições para uma nova fase do grupo.

Indiferente à polémica gerada em torno da escolha de um antigo político, com influência no setor, o empresário sempre defendeu a sua escolha, considerando que entregar a liderança a alguém exterior à família, num momento em que a empresa já tinha crescido muito – dentro e fora do país – mas queria continuar a galgar fronteiras, foi fundamental para construir um portefólio ainda mais robusto.

 

“O Dr. Jorge Coelho teve um papel fundamental em tudo isto. Formalizou a aposta na formação. Pegou na parte internacional e reorganizou-a. Partiu de três polos estratégicos: Polónia e Europa Central, África (Angola e os outros países), América Latina. Criou condições para que a gestão fosse descentralizada – é lá que está a ser feita, não é feita daqui. Criou esta filosofia: temos de partir destes polos para o crescimento internacional, e não de Portugal. Portugal é pequeno demais para que a internacionalização parta daqui”, disse à jornalista Anabela Mota Ribeiro.

Na mesma entrevista, o “patrão da Mota”, que sempre partilhou o conselho de administração e o capital da empresa com as três irmãs (Maria Manuela, Maria Teresa e Maria Paula), dizia que “quis meter um segundo patamar” – “para que as decisões e evolução da terceira geração seja mais distante de mim” – antes da escolha familiar do seu sucessor da terceira geração, o que aconteceu em 2023, com a nomeação do sobrinho Carlos Mota dos Santos.

Ficar afastado da gestão não foi fácil, segundo o próprio. “Desde há dois anos, que passei a administração executiva para o meu filho e para o meu sobrinho, tentando não me meter. O que não é fácil. A gente não se meter ao barulho ao fim de tantos anos é difícil. Mas tento fazer isso”, disse na cerimónia da entrega do Lifetime Achievement Award do ECO.

Abertura do capital e novo acionista chinês

Apesar de sempre defender que a Mota-Engil é uma empresa familiar, António Mota não teve medo de abrir o capital em bolsa, nem de acolher um novo acionista chinês, a China Communications Construction Company (CCCC), que detém uma participação de 32,4%. “Há uma coisa muito clara: a Mota-Engil vai continuar a ser aquilo que sempre foi, uma empresa familiar, portuguesa, europeia, com sede em Lisboa. Embrenhada na cultura portuguesa, que é um aspeto fundamental. Portugal tem 500 anos de história em África e na América Latina”, garantiu em entrevista ao Expresso, após o anúncio do acordo, em dezembro de 2020.

Há uma coisa muito clara: a Mota-Engil vai continuar a ser aquilo que sempre foi, uma empresa familiar, portuguesa, europeia, com sede em Lisboa. Embrenhada na cultura portuguesa, que é um aspeto fundamental. Portugal tem 500 anos de história em África e na América Latina.

António Mota

Empresário e antigo presidente da Mota-Engil

Desenvolvimento. Crescimento. Ambição. Estas eram palavras que compunham o seu discurso e que o guiaram à frente da empresa, recorrendo sempre à referência deixada pelo pai. “Uma empresa familiar define-se por haver referências. Aqui há uma muito forte, a do fundador. Há a referência de um acionista que está sempre presente, nos bons e nos maus momentos, junto dos gestores”. “E há uma cultura que, além de ser empresarial, voltada para os resultados, é uma cultura humanista”, a qual reforçou com a criação da Fundação Manuel António da Mota, que tem como enfoque o desenvolvimento social, a educação e cultura.

Mesmo afastado da gestão — por decisão própria –, o empresário, juntamente com as suas irmãs, mantinham-se presentes, preservando essa cultura familiar do negócio. Ao contrário do que acontece noutros grupos familiares, onde há desavenças que forçam a que um dos irmãos assuma o controlo da empresa, António Mota e as irmãs sempre mantiveram uma relação de grande proximidade e os 10 filhos (e futuros sucessores do grupo) foram criados juntos, são “quase irmãos”. Um “clã” unido que quer preservar a herança da família.

O que as minhas irmãs e eu pensamos é deixar aos nossos filhos (entre nós temos dez) tanto trabalho quanto o pai nos deixou a nós. Que haja desafogo financeiro para as pessoas terem uma vida confortável, mas que, para continuar a ter essa vida desafogada, tenham que trabalhar. Que não seja dinheiro fácil.

António Mota

Empresário e antigo presidente da Mota-Engil

“O meu pai dizia que não nos deixava muito dinheiro: deixava-nos muito trabalho. Muito trabalho para fazer. O que as minhas irmãs e eu pensamos é deixar aos nossos filhos (entre nós temos dez) tanto trabalho quanto o pai nos deixou a nós. Que haja desafogo financeiro para as pessoas terem uma vida confortável, mas que, para continuar a ter essa vida desafogada, tenham de trabalhar. Que não seja dinheiro fácil”, disse na mesma entrevista a Anabela Mota Ribeiro.

Quanto a Portugal, António Mota, que assumia que tinha “alguma influência” no país, pedia o mesmo que defendia para a sua empresa: ambição. Num vídeo publicado pela Business Roundtable Portugal, da qual a Mota-Engil também é associada, António Mota deixou uma mensagem bem clara: “Todos nós começámos pequenos, fomos crescendo. Nunca faltou a ambição e é isso que falta a este país, é a ambição para todos os portugueses, para todas as empresas e para todos os empresários. Achamos que podemos contribuir para a criação de um espírito ambicioso para Portugal”.

António Mota e as irmãs no aniversário dos 30 anos da Mota-Engil na bolsa portuguesa em 2017.Paula Nunes/ECO

Em junho deste ano, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, agraciou o empresário e gestor com as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, que visam distinguir os “serviços relevantes prestados a Portugal, no país e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores”. Já este domingo, numa nota oficial ao seu desaparecimento, Marcelo Revelo de Sousa evocou as qualidades do empresário. “Juntou a liderança à empatia, a humanidade ao dinamismo, a simplicidade à eficácia. Sem ele as últimas décadas da nossa economia teriam sido diferentes. Finalmente soube preparar a tempo a sua sucessão. Assim, as jovens gerações saibam corresponder à visão do seu antepassado“.

O engenheiro civil que se fez empresário era um defensor da engenharia portuguesa. “A engenharia portuguesa tem uma qualidade que mede meças com qualquer engenharia em qualquer parte do mundo. Com uma vantagem: nós temos uma capacidade de nos adaptar às culturas locais que mais ninguém tem”, elogiou, na cerimónia em que recebeu o prémio Lifetime Achievement promovido pelo ECO. António Mota foi, aliás, o primeiro dos acionistas da Swipe News, dona do ECO, aceitando o desafio de contribuir para o nascimento de um meio de comunicação social independente, princípio que sempre protegeu.

As cerimónias fúnebres vão ter lugar na segunda-feira, dia 1 de dezembro, em Amarante. O Velório será a partir das 10h30 em S. Gonçalo-Amarante e funeral às 15h.

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