Lucros da bolsa travam até setembro mas 2026 já cheira a recuperação
Cotadas do PSI encerraram os primeiros nove meses do ano com uma quebra dos resultados líquidos de 5% para 4,2 mil milhões de euros. Descida dos lucros do Grupo EDP e das papeleiras determinou quebra.
- As empresas do PSI encerraram a 'earnings season' com uma quebra de 5% nos lucros até setembro, refletindo um ambiente de incerteza global.
- A EDP e suas subsidiárias destacaram-se negativamente, com perdas significativas, enquanto a Galp, o BCP e as retalhistas mostraram resultados positivos.
- As perspetivas para 2026 são de otimismo cauteloso, com a expectativa de recuperação gradual nas margens e estabilização dos custos em vários setores.
Está terminada mais uma earnings season na bolsa de Lisboa. Num ano marcado por tarifas, tensão geopolítica e custos elevados, as empresas do PSI apresentaram uma quebra, esperada, dos lucros até ao final de setembro, com as descidas das contas da família EDP e da indústria a pesarem. Perante um clima de incerteza, as perspetivas das cotadas apontam para um “otimismo prudente e razoável relativamente a 2026”. Para os analistas, a expectativa é que os últimos meses de 2025 tragam algum alívio, após em período complicado, e o próximo ano seja de recuperação.
As 15 cotadas do PSI que apresentaram contas — a Teixeira Duarte não apresenta resultados trimestrais — divulgaram um resultado líquido de 4,2 mil milhões de euros até ao final de setembro, uma descida de 5% face aos 4,4 mil milhões reportados em igual período do ano passado. A quebra não surpreendeu os analistas, que já antecipavam que as contas das cotadas fossem afetadas pelo ambiente de instabilidade global.
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O ano tem sido marcado pelos temas das tarifas, conflitos geopolíticos, custos elevados, nomeadamente com o trabalho, e quebra de consumo, devido à incerteza em torno do impacto na economia. “O balanço que faço desta earning season é positivo com algumas notas positivas e outras nem tanto, mas na maioria dos casos, dentro daquilo que era esperado“, resume Pedro Barata.
O gestor do GNB Portugal Ações realça a NOS “pela resiliência apresentada”, “a Sonae pelo desempenho da sua área de retalho alimentar e os CTT pelo forte desempenho no segmento de express & parcels”. Pela negativa, o analista, realça “as empresas mais cíclicas como a Altri, Navigator e Corticeira Amorim”.
“Efetivamente o calendário de resultados termina com a Ibersol a confirmar um quadro misto, mas benigno e construtivo com o terceiro trimestre a trazer algum alívio perante as incertezas existentes”, refere João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa. “No índice nacional os resultados foram globalmente positivos, com divergência forte entre vencedores e perdedores, mas sem sinais de tensão sistémica“, acrescenta o especialista, em declarações ao ECO.
Efetivamente o calendário de resultados termina com a Ibersol a confirmar um quadro misto, mas benigno e construtivo com o terceiro trimestre a trazer algum alívio perante as incertezas existentes (…) No índice nacional os resultados foram globalmente positivos, com divergência forte entre vencedores e perdedores, mas sem sinais de tensão sistémica.
Galp é a “campeã” dos lucros
As duas empresas do Grupo EDP registaram a maior perda, em milhões de euros, justificando a quebra dos resultados face aos primeiros nove meses de 2024. Enquanto a EDP Renováveis baixou os lucros para quase metade, com o resultado líquido a baixar 49% (ou 103 milhões) para 107 milhões de euros, a elétrica viu os ganhos passarem de 1.083 para para 952 milhões de euros, no acumulado dos nove meses. Isto representa uma descida de 12% e menos 131 milhões de euros, face ao período homólogo.
Com os resultados da EDP a baixarem, a Galp ascendeu ao pódio das cotadas com mais lucros. A petrolífera portuguesa ganhou 973 milhões de euros, mais 9,3% que nos nove meses de 2024, com a companhia a fixar um novo recorde de rentabilidade.
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“A Galp beneficiou de um trimestre operacionalmente muito robusto, com EBITDA robusto e geração de caixa acima das expectativas”, justifica João Queiroz.
A justificar a quebra dos resultados estiveram também as papeleiras. A Navigator viu os lucros caírem 51% (ou 123 milhões de euros) para 118 milhões até setembro, com a empresa a apontar um “contexto internacional de forte abrandamento económico e elevada volatilidade“, no qual enfrentou custos mais elevados e preços mais baixos, com impacto no valor das vendas
Já a Altri encerrou os primeiros nove meses do ano com um resultado líquido de 12,4 milhões de euros, o que representa uma quebra de 86% face aos 89,6 milhões de euros registados no período homólogo, arrastada pelas “variações cambiais e pelas tarifas”, por um “incidente” na turbina da Celbi e pelo “ramp-up da fibra solúvel na Biotek”.
Em sentido oposto, o BCP e as retalhistas destacaram-se com crescimentos robustos. O banco liderado por Miguel Maya continua a resistir à descida de juros na Zona Euro e viu o lucro subir 8,7% para 775,9 milhões de euros, posicionando-se no ranking das empresas com maiores lucros da bolsa.
Já as retalhistas Jerónimo Martins e Sonae melhoraram os resultados e as suas margens. A dona do Pingo Doce lucrou 484 milhões até setembro, mais 10% que no período homólogo, ao passo que a concorrente Sonae, que detém os supermercados Continente, aumentou os lucros em 38% para 200 milhões até setembro. Números fortes que foram aplaudidos por investidores e analistas.
Perspetivas apontam recuperação
Depois de um período de quebra de lucros, os gestores apresentam perspetivas mais confiantes numa recuperação, nas apresentações de resultados do terceiro trimestre. Expectativas partilhadas pelos analistas.
“Para 2026, o meu sentimento é positivo em linha com o sentimento da maioria das empresas”, nota Pedro Barata. “Este poderá ser um ano de confirmação relativamente à boa performance da grande maioria das empresas e, mesmo aquelas que atravessam neste momento um período mais desafiante, poderão ter em 2026 um ano de recuperação”, reforça o analista.
Para 2026, o meu sentimento é positivo em linha com o sentimento da maioria das empresas. Este poderá ser um ano de confirmação relativamente à boa performance da grande maioria das empresas e, mesmo aquelas que atravessam neste momento um período mais desafiante, poderão ter em 2026 um ano de recuperação.
João Queiroz concorda que “2026 apresenta condições favoráveis a uma recomposição gradual de margens, apoiada sobretudo pela estabilização estrutural dos custos e não por uma aceleração súbita da procura”.
“As perspetivas disponibilizadas pelas cotadas apontam para um otimismo prudente e razoável relativamente a 2026. Muitos setores parecem ter ultrapassado a fase mais crítica do ajustamento pós-inflação e pós-normalização monetária, e começam a beneficiar de custos mais estáveis, cadeias de abastecimento normalizadas e maior visibilidade nos investimentos”, justifica. “Adicionalmente, vários setores e empresas reforçaram a disciplina operacional, a eficiência e o controlo de custos, criando condições para uma retoma gradual das margens”.
Para o head of trading do Banco Carregosa, “em setores como energia, logística, retalho alimentar e restauração organizada existe uma expectativa razoável de que 2026 marque um regresso a um crescimento mais equilibrado“.
Olhando para os próximos meses, João Queiroz refere que “o enquadramento para o próximo trimestre é moderadamente positivo, na medida em que grande parte dos ajustes de expectativas já foi incorporada pelas empresas ao longo de 2025 e com as perspetivas do início de 2026″.
Ainda assim, avisa o mesmo especialista, “não é de excluir eventuais surpresas negativas”. “Setores expostos a preços de commodities e negócios intensivos em capital continuam vulneráveis a oscilações de custos e encargos, ao impacto da persistente e a possíveis revisões regulatórias”, conclui.
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