Portugal competitivo na atração de talento, mas enfrenta desafios na retenção

  • Trabalho
  • 2 Dezembro 2025

Apesar dos salários mais baixos do que em grande parte da Europa, o país está a posicionar-se como um hub tecnológico, mas evitar a ‘fuga’ de profissionais qualificados continua a ser o maior desafio.

O setor tecnológico em Portugal vive uma contradição. Por um lado, o país é cada vez mais visto como um destino competitivo para empresas internacionais, graças aos custos salariais mais baixos e à localização estratégica. Por outro, enfrenta sérias dificuldades em reter profissionais qualificados, que continuam a procurar melhores oportunidades no estrangeiro.

Estas são algumas das conclusões retiradas da ferramenta interativa Tech Talent Explorer, desenvolvida pela Hays Portugal, com base em dados recolhidos junto de 9.870 profissionais de IT em 32 países e que fornece insights detalhados sobre o mercado global de talento tecnológico. A apresentação dos dados recolhidos pela consultora, especializada em talento na área tecnológica, decorreu durante o webinar Tech Talent Decoded: O futuro, em dados, que reuniu um painel de oradores com a missão de debater os desafios, as oportunidades e os fatores que moldam o futuro do talento tecnológico em Portugal.

Apresentado por Mário Gonçalves, business director da Hays Portugal, o Tech Talent Explorer revela que 60% dos profissionais das Tecnologias da Informação (TI) planeiam mudar de empregador até 2026, número que sobe para 66% no sul da Europa. “A progressão de carreira, a flexibilidade e a estabilidade continuam a ser fatores decisivos”, sublinhou.

A ferramenta demonstra igualmente que a escassez de talento em áreas como cloud, DevSecOps e inteligência artificial (IA) mantém-se crítica, com 82% dos profissionais a querer aprofundar competências em IA e mais de 60% a reconhecer ganhos de produtividade. Portugal surge como destino competitivo para hubs tecnológicos devido ao diferencial salarial face a mercados como EUA ou o norte da Europa. “Os custos mais baixos tornam o país atrativo para outsourcing e near-shoring, apesar das lacunas em cibersegurança e machine learning”, destacou Mário Gonçalves, apontando também a importância de projetos desafiantes, planos de carreira claros e ambientes colaborativos na retenção de talento.

Escassez de talento e pressão internacional

Desafiados a partilhar um pouco das suas experiências na gestão de talentos em empresas do setor das TI, os convidados da mesa-redonda que se seguiu concordaram, de forma unânime, com as principais conclusões do estudo da Hays.

No que se refere à questão dos salários, Rodrigo Cordeiro, country head da Capgemini Engineering em Portugal, destacou a desigualdade salarial entre setores dentro do país, mas também nas TI face a outras geografias. “Apesar do setor tecnológico ser um dos que tem melhores salários em Portugal, paga muito abaixo de outros países europeus e mundiais”.

Esta pressão aumenta com empresas estrangeiras a recrutar em regime remoto em Portugal, oferecendo salários superiores e dificultando a retenção. “O campo onde operamos hoje do ponto de vista salarial está altamente pressionado”, sublinhou Joel Silva, vice president of product development da Jscrambler.

Mas, a verdade é que, mais do que o salário, os profissionais valorizam atualmente projetos desafiantes, qualidade tecnológica, planos de carreira bem definidos e ambientes colaborativos. “É muito importante para um profissional deste setor ter um projeto desafiante e um plano de carreira que perspetive reconhecimento,” afirmou Mário Gonçalves. O mesmo acontece com a questão do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, que hoje também é central. “Após a pandemia, o diferencial passou a ser muito mais focado no equilíbrio entre vida pessoal e trabalho,” destacou Joel Silva.

"Ajudamos a encontrar casa, a colocar crianças nas escolas, damos mais do que simplesmente um salário”

Rodrigo Cordeiro,

Country Head da Capgemini Engineering em Portugal

Para dar resposta às novas prioridades dos seus colaboradores, as empresas têm procurado novas formas de fidelizar talento. Rodrigo Cordeiro explicou que, nesta vertente, a Capgemini criou equipas dedicadas à mobilidade internacional. “Ajudamos a encontrar casa, a colocar crianças nas escolas, damos mais do que simplesmente um salário”. Além disso, a empresa garante uma oferta formativa muito abrangente, assim como reskilling e upskilling.

Já Ana Varela, global talent acquisition manager da OutSystems, sublinhou a importância de pacotes salariais completos. “Não é só o salário que conta. Temos flex benefits, formação on the job e mobilidade interna que ajudam à equidade”.

Outra questão muito relevante na hora de fidelizar talento é, na perspetiva de Cláudia Borges, o mentoring e o feedback imediato. “As gerações mais recentes estão à espera de feedback contínuo. Isso cria engagement e proximidade”, reforçou a partner da Moneris.

Outsourcing: oportunidade e risco

O outsourcing surge como solução de atratividade para muitas empresas, permitindo flexibilidade e resposta rápida às necessidades do mercado. “A excelente relação custo-benefício para a criação de centros de suporte e de nearshoring é determinante”, defende Mário Gonçalves. Mas também aqui a retenção é um desafio. “A certificação das equipas e o upskilling são fundamentais para reter talento,” acrescentou.

Os convidados da mesa-redonda não têm dúvidas de que Portugal tem condições únicas para se afirmar como hub tecnológico global, graças à localização, aos custos competitivos e à qualidade da mão de obra, que se destacam como vantagens evidentes. No entanto, concordam igualmente que o verdadeiro desafio está em manter os profissionais motivados e comprometidos. “O salário é apenas a base e não o diferencial. O diferencial está no equilíbrio, na autonomia e nas oportunidades de crescimento multidimensional”, concluiu Joel Silva.

O debate deixou claro que, para Portugal, o futuro do talento tecnológico dependerá menos da atração e mais da capacidade de fidelização.

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