Preços do gás aliviam após acordo para corte com a Rússia, mas podem subir antes de estabilizar
Após corte de importações entre Rússia e UE, preços do gás podem ser pressionados na procura por alternativas e na troca de gás natural pelo mais caro GNL, mas a tendência será estabilizar.
Depois de uma decisão que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou como “histórica”, e que dita que se cesse a importação de gás russo para a União Europeia (UE) até 2027, os preços do gás aliviaram, dada alguma descrença em relação ao compromisso europeu. Contudo, a tendência é de que os preços estabilizem, embora possam estar sujeitos a algumas pressões extraordinárias ou mais de curto prazo, preveem os especialistas consultados pelo ECO/Capital Verde.
“O acordo é ‘histórico’ sobretudo politicamente, porque formaliza o fim de uma dependência energética com décadas e reúne consenso entre 27 países“, considera o economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Rosa. Nuno Mello, analista da XTB, concorda que o acordo pode ser considerado histórico também “pelo peso simbólico e geopolítico”.
Nuno Ribeiro da Silva, consultor na área de energia, reconhece que o tema vem sendo “arrastado” e que a necessidade de cessar a relação comercial com a Rússia “era para ontem”. Já olhando ao copo “meio cheio”, considera “marcante” chegar-se a tal acordo tendo em conta as elevadas dependências que alguns países europeus ainda têm deste gás.
Além disso, Paulo Rosa vê a decisão como “arrojada”. Na sua ótica, a substituição do gás russo já está “amplamente garantida” do ponto de vista técnico, o que é comprovado pela redução acentuada que se tem verificado nestas importações. A UE “dispõe atualmente de alternativas suficientes e cabais para substituir o gás russo sem grandes dificuldades”. Assim, é “sobretudo no plano político que esta decisão assume maior ousadia”.
A medida tem várias fases e nuances, apesar de ter um denominador comum: aplica-se a qualquer tipo de gás, quer o natural, transportado por gasoduto, como o gás natural liquefeito (GNL). Para contratos de curto prazo, a proibição começa já em 2026, sendo que o fim das compras de GNL está previsto a partir de 25 de abril e o corte do gás por gasoduto a partir de 17 de junho. Nos contratos de longo prazo, o prazo final para abandonar totalmente o gás russo é 30 de setembro de 2027, podendo estender-se, em casos excecionais, até 1 de novembro desse ano.
Leste europeu com mais dificuldade em desvincular-se do gás russo
No panorama europeu, o Banco Carregosa aponta uma exposição ao gás natural russo mais acentuada por parte de países como a Hungria, Eslováquia e Áustria. Nuno Mello complementa que estes países continuam ligados a contratos de longo prazo com a Gazprom e têm acesso limitado a terminais de GNL, dependendo de interligações através de países vizinhos.
Também França, Bélgica, Espanha e Holanda, que nos últimos anos continuaram a importar volumes relevantes de GNL de origem russa, sentirão impacto, embora com maior capacidade de diversificação, indica Paulo Rosa. A Alemanha, apesar de ter sido historicamente o maior comprador de gás russo, deixou de o receber por gasoduto em 2022.
“A consequência [para estes países] é uma maior vulnerabilidade a picos de preços, risco de constrangimentos físicos e impacto mais forte na indústria intensiva em energia“, aponta o analista da XTB.
Na opinião de Nuno Ribeiro da Silva, uma hipótese equilibrada seria considerar-se horizontes temporais diferentes para o cessar das importações de gás russo, consoante a dependência verificada em cada país.
Nuno Mello acrescenta que a adaptação exige investimento acelerado em infraestruturas e diversificação de fornecimento. As saídas, até agora, têm sido a maior importação de gás natural liquefeito, reforço do abastecimento por gasoduto de países aliados e a aceleração das renováveis e da eficiência energética, de acordo com o Banco Carregosa. Reforçaram-se sobretudo parcerias com os Estados Unidos e Noruega, mas também com o Qatar, Nigéria e outros fornecedores globais.
Em paralelo, a exploração de novos gases como o biometano e o hidrogénio verde, assim como a expansão da eletrificação e a redução do consumo de gás, ajudam ao reequilíbrio energético do continente europeu.
Preços aliviam momentaneamente, mas tendem a estabilizar
Esta quinta-feira, um dia após o anúncio da União Europeia, os preços do gás que serve de referência a nível europeu, o holandês TTF, mostraram um alívio de cerca de 3,3%, descendo para os 27,28 euros por megawatt-hora (MWh), o que representa o valor mais baixo em 18 meses.
A consultora Energy Intelligence, citada pelo El Economista, atribui esta quebra à pressão dos países mais dependentes do gás russo, como a Hungria e a Eslováquia, que se crê que irão desafiar a decisão da UE.
Ainda assim, “no curto prazo, a eliminação do gás russo pode pressionar os preços e gerar alguma volatilidade, ao exigir maior recurso ao GNL e a fornecedores potencialmente mais caros“, reconhece Paulo Rosa. Nuno Ribeiro da Silva, consultor da área de energia, concorda que a decisão poderá contribuir para um aumento dos preços. “Claro que o gás russo por tubo é mais barato que o gás vindo por navio. Mas é o preço a pagar para não estar a ser a principal torneira que alimenta financiamento de assassinos”, remata, referindo-se à Rússia e às mortes associadas à guerra entre este país e a Ucrânia.
Além disso, “o mercado já absorveu grande parte desse ajustamento” que decorre da mudança na relação entre Rússia e restante Europa, e os preços do contrato de gás que serve de referência para a europa, o TTF, rondam os 28 euros por megawatt-hora (MWh), muito próximos dos níveis pré-guerra, ressalva Paulo Rosa.

Na ótica de Nuno Mello, no próximo ano, o impacto deverá ser limitado porque os mercados já descontaram a redução do papel da Rússia como fornecedor. Poderá, ainda assim, haver volatilidade decorrente de invernos rigorosos, procura asiática ou problemas em terminais de GNL.
Já a partir de 2027, com a diversificação plenamente consolidada, maior capacidade de armazenamento e o crescimento das renováveis, “é expectável que o mercado se mantenha estável, com preços previsíveis e menos dependentes de eventuais riscos geopolíticos“, prevê o economista sénior do Banco Carregosa. Isso, sublinha Nuno Mello, significa “preços estruturalmente mais altos do que na década de 2010”, atendendo a que o GNL é mais caro que o gás russo por gasoduto. “Os preços devem manter-se acima do período pré-2021, mas muito abaixo dos picos de 2022“, remata.
Nuno Ribeiro da Silva ressalva que poderá atuar-se ao nível da fiscalidade no continente europeu, caso os preços excedam os patamares desejáveis, no sentido de os aliviar e acautelar a competitividade europeia. “É a variável que temos na mão”, indica. Ao mesmo tempo, defende que a Europa aproveite os recursos “que tem debaixo da terra”, ou seja o gás que tem por explorar, criticando a reação adversa que é comum verificar-se face a esta hipótese. Acredita que é possível a exploração “sob regras ambientais”.
Portugal pouco afetado
“Portugal é um dos países menos afetados porque não depende de gasodutos russos e importa essencialmente GNL via Sines“, sobretudo de Nigéria e EUA, afirma Nuno Mello. Contudo, atira: “o impacto será sobretudo indireto, via preços europeus”. Nuno Ribeiro da Silva também tranquiliza: “Portugal é dos países mais confortáveis” com a decisão dada a pequena parcela de importações que verifica e a boa infraestrutura para receber gás natural liquefeito e para o armazenar.
As importações de gás russo, para Portugal, em 2025, representaram cerca de 5% do total das importações deste combustível, pelo que vai ter de ser eliminado esta fatia remanescente, evidencia Paulo Rosa. “Embora o impacto seja limitado, o país terá de ajustar contratos e assegurar que as infraestruturas e operadores continuam a garantir o abastecimento por vias alternativas“, acrescenta.
O analista da XTB indica que as alternativas do país passam por um reforço das importações de GNL em Sines, com mais cargas provenientes de fornecedores como os Estados Unidos, Nigéria, Argélia ou Qatar, assim como através das interligações com Espanha.
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