Candidato da extrema-direita vence eleições presidenciais no Chile

  • Lusa e ECO
  • 15 Dezembro 2025

É a primeira vez desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, há 35 anos, que um candidato de extrema-direita vence as eleições chilenas. Advogado de 59 anos prometeu deportar 340 mil imigrantes.

O candidato da extrema-direita, José Kast, venceu as eleições à presidência do Chile com 58,17% dos votos. O advogado de 59 anos derrotou Jeannette Jara, comunista moderada que liderou uma ampla coligação de esquerda e que já reconheceu a derrota.

“A democracia falou alto e claro”, escreveu Jeanette Jara na rede social X, afirmando ter comunicado “com o Presidente eleito”, o ultraconservador Kast, “para lhe desejar êxito, para o bem do Chile”.

Kast, que era o favorito nas sondagens para a segunda volta das eleições presidenciais, defende abertamente a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), da qual se diz um herdeiro. E torna-se o eleito com maior número de votos da história do Chile e a maior percentagem.

Por outro lado, a derrotada Jeannette Jara obteve a pior votação da esquerda desde a recuperação da democracia em 1990. Os 41,84% obtidos ficam abaixo dos 45,4% de Alejandro Guillier em 2017.

As mesas de voto começaram a encerrar às 18:00 locais (21:00 de Lisboa), abrindo caminho à contagem dos votos, no final de um dia marcado por longas filas para esta eleição obrigatória. Quase 16 milhões de eleitores foram chamados a escolher entre os dois candidatos.

Na sua terceira tentativa para se tornar chefe de Estado do Chile, o ex-deputado Kast, católico praticante e pai de nove filhos, fez campanha com a promessa de combater o crime e deportar os quase 340 mil imigrantes indocumentados, a maioria dos quais venezuelanos.

A sua opositora, Jeannette Jara, de 51 anos, ex-ministra do Trabalho do Governo do Presidente cessante, Gabriel Boric, prometeu aumentar o salário mínimo e proteger as pensões.

Na primeira volta, em meados de novembro, os dois candidatos receberam um quarto dos votos cada, com uma ligeira vantagem para a esquerda. Mas, juntos, os candidatos de direita conquistaram 70%.

Eleitores de Kast esperam segurança e crescimento e minimizam perdas de direitos

Milhares de eleitores do presidente eleito chileno saíram às ruas com bandeiras e buzinas celebrando um esperado novo rumo com segurança, controlo migratório e crescimento, enquanto os eleitores derrotados temem perdas de conquistas sociais.

“Com [José Antonio] Kast teremos mais oportunidade de vida, porque teremos mais segurança e mais trabalho para a classe média. A delinquência tem-nos afetado muito como país, até mesmo na economia. Isso vai mudar agora”, acredita o mecânico Gustavo Moya, de 43 anos, que falou à agência Lusa em Santiago do Chile.

“Não acredito que retrocedamos com José Antonio Kast em benefícios sociais e direitos adquiridos. Acho mesmo que vamos melhorar, porque temos uma grande porcentagem de menores de idade imersos nas drogas e na delinquência”, acrescenta.

Gustavo foi um dos primeiros a chegar à sede de campanha do Presidente eleito no município abastado de Las Condes, onde milhares se lhe juntaram à medida que saíam os primeiros resultados, projetando uma vitória histórica.

Na primeira volta, em 16 de novembro, um palco foi montado rapidamente apenas depois de confirmada a presença de Kast na segunda volta. Desta vez, um palco ainda maior já estava montado horas antes do começo da contagem de votos.

“Votei em Kast porque quero uma mudança depois de quatro anos de estagnação, com todos os índices de competitividade económica do Chile em queda. Quando me refiro a uma mudança, refiro-me à segurança, ao controlo migratório e à economia. Queremos voltar ao Chile que éramos anos atrás”, entusiasma-se o engenheiro Jorge Valencia, de 62 anos.

Quanto a possíveis perdas de conquistas sociais num governo de extrema-direita, Jorge cita Kast, que “foi bem claro sobre o assunto quando disse que ‘nenhum direito adquirido será tocado’” e considerando que “isso foi apenas campanha da esquerda”.

Porém, outros eleitores de Kast não descartam algum ruído sobre o assunto, embora o minimizem. “Vão surgir questões com as quais as pessoas não vão concordar. Eu acredito que alguns benefícios sociais de hoje serão prejudicados, mas outros vão continuar e até compensar aqueles que forem eliminados”, diz à Lusa a eleitora Eliana Valdivia, de 33 anos, estudante de gastronomia.

“Gosto das propostas dele em relação à economia e acho que fará bem ao país em termos de segurança porque estamos em decadência. As pessoas não podem sair de casa porque é um perigo”, defende.

O universitário Matías Camus, de 22 anos, quer que as fronteiras do país sejam controladas contra a imigração ilegal.

“Porque isso me dá mais tranquilidade quanto à segurança. Além disso, precisávamos de um Presidente que incentive as empresas a investirem”, justifica, embora admita que virão reformas em questões sociais como Educação, Saúde, Pensões e benefícios sociais.

“Como Kast mencionou nos debates, os direitos adquiridos não serão eliminados. Haverá reformas, mas os direitos não serão perdidos na sua totalidade”, prevê.

Já o empresário Rodrigo Sandoval, de 44 anos, confia no papel do Parlamento como barreira contra iniciativas que signifiquem perdas sociais e até eventual diminuição de liberdades constitucionais em nome da segurança.

“Felizmente, no Chile, o Parlamento é bem forte. Kast disse que não vai tocar em vários dos direitos sociais, mas, independentemente do que ele pode querer, o Presidente não pode dirigir o país sem o Congresso, que ficou bem dividido”, pondera.

“O que é realmente vai importar são mudanças em matéria de segurança, de emprego, de incentivo ao empreendimento, de baixa de impostos. Estamos num período muito mau da economia”, aponta Rodrigo.

A inflação do Chile nos últimos 12 meses está em 3,4%, abaixo dos 4,5% de 2024, embora a meta seja de 3%. A economia cresceu 2,6% em 2024, número que deve ser repetido neste ano, segundo o FMI. São números positivos para qualquer país.

As imediações de Las Condes tornaram-se um formigueiro humano. Com bandeiras no ar, palavras de ordem e buzinas a marcarem o ritmo de “Chi-Chi-Chi, le-le-le”, caravanas de automóveis tentaram chegar ao novo polo do poder.

O atual Presidente, Gabriel Boric, que há quatro anos, com apenas 35 anos de idade, derrotou o próprio Kast, agora telefonou para eleito, convidando-o para visitar o Palácio La Moneda, sede do Governo, iniciando formalmente o processo de transição. Esse telefonema do Presidente ao eleito é uma tradição valorizada pelos chilenos e admirada pelos países vizinhos.

Do outro lado da cidade, no entanto, a desolação abateu-se entre os eleitores derrotados.

“É terrível, realmente dececionante. A vitória da extrema-direita é dececionante para mulheres, para idosos e para crianças que vão perder benefícios sociais com um candidato que só fala em perseguir imigrantes e melhorar a economia para os mesmos grupos económicos de sempre”, critica a universitária Michelle Ponce, de 19 anos, eleitora de Jara.

“Além disso, este é um país sem memória. Como podem eleger uma pessoa que defende Pinochet com a maior impunidade? Sinto decepção e vejo retrocesso e ignorância”, desabafa em declarações à Lusa.

A universitária Martina Hidalgo, de 20 anos, também contrasta com a alegria da maior parte da sociedade. “O facto de termos tantos eleitores da extrema-direita no Chile significa ignorância. As pessoas guiam-se por promessas de segurança e de ‘mão-dura’, mas esquecem-se que durante a ditadura, essa dos direitos feridos que essa ‘linha-dura’ significou durante a ditadura. Esse pensamento de extrema-direita demonstra que não temos memória e, sem memória, não somos nada”, lamenta Martina.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Candidato da extrema-direita vence eleições presidenciais no Chile

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião